jul 02 2009

Ensaio sobre a neve derretida

Categoria: Amenidades, Biografia, Senhor do ServoSenhor_do_Servo @ 17:34

Como começa? Não sei, mas esta não é a pergunta, de toda forma. A questão verdadeira, a sagrada pergunta, é: por que caminhos seguirá?

Penso que não é possível, nem aconselhável, conhecer a resposta. Por que a mágica dos rios é justamente, onde nascem, desconhecer para onde vão, nem que caminhos irão seguir, pois a partir de um certo ponto, não são mais as águas que buscam caminho entre margens estreitas, mas sim amplidões azuis que se espelham no céu e arrasta desejos e sonhos até o mar, consigo. Nem margens, nem montanhas ou desertos o prendem. Nem todas as árvores do mundo lhe sorvem a água: tal é o ímpeto das grandes águas!

E se em algum remanso pára, não é para descansar, mas por que quer sentir o roçar suave das pedras arredondadas e lisas que estão no fundo, cobertas de água limpa. Então, é antes por delícia do que por cansaço, por apreço a um sonho e por uma imaginação forte, mas lúcida, do que por indecisão. É apenas por alguma delícia que sua alma, líquida e fluida, se aquieta!

Ora, por analogia, o começo de tudo não é em algum pico alto e inalcançável, acima das nuvens geladas? Talvez a nascente não seja nada mais do que uma vertigem breve da montanha, das que se tem não quando se olha para baixo, e tudo é tão pequeno e distante, mas quando se ergue a cabeça e se olha o céu, e se sente que no mundo tudo é azul e a impressão é que a lua, como os sonhos, está próxima.

Tida a vertigem, uma sensação de grandiosidade, fenilamina e desejo a tudo invade e força a descoberta, e então, regato ainda, cai-se de seixo em seixo, de pedra em pedra. E como um fogo que se alimenta de chamas é de outras águas e não de saciedade, que o rio anseia e regato após regato, riacho atrás de riacho, rio em seguida de rio, as margens se alargam e as águas tornam -se mais profundas: e a bacia é o coração inteiro que a alma não consegue sempre deter em si, e que por isso transborda e invade dimensões que se julgavam para sempre áridas.

Onde vai dar? Só os desesperados perguntam isso. Os grandes rios se importam mesmo é que sensações lhe tomarão, nas terras que estão por vir até que o oceano, e a calma, cheguem.

.


jul 02 2009

E agora, Justiça?

Categoria: CulturaSenhor_do_Servo @ 16:37

O sistema jurídico do país está suficientemente maduro e civilizado para que não haja intocáveis? O Brasil pode se perfilar ao lado das maiores democracias do mundo e se considerar um país em que a Justiça não seleciona os alvos de processos?

Então não tem como poupar o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, do crime de denunciação caluniosa, no caso dos falsos grampos, trama da qual participou acusando a ABIN.

Sem provas sequer de que o crime havia sido cometido, sem nenhuma evidência sobre a autoria dos grampos, Gilmar acusou expressamente funcionários públicos de autoria, comprometeu investigações contra acusados de crimes maiores. Agora, que não se apurou um indício sequer da exstência do grampo, pergunto: a Justiça vai fingir que nada ocorreu?

O fato de ser presidente do STF agrava o provável crime cometido. Não poderá alegar ignorância sobre pressupostos jurídicos básicos, como a presunção da inocência, o ônus da prova para quem acusa.

Gilmar atropelou princípios básicos de direito. A Justiça brasileira vai aturar imperadores intocáveis? Seus colegas de Supremo vão permitir essa mancha na história da instituição? Ou chegou a hora de mostrar que a Justiça brasileira é suficientemente madura, inclusive para cortar na própria carne.

Luís Nassif


jul 02 2009

Os Crimes de Israel

Categoria: CulturaSenhor_do_Servo @ 16:21

Do Viomundo:

Anistia Internacional divulgou nesta quinta-feira, em Londres, Inglaterra,o seu relatório sobre a ofensiva militar de 22 dias (27 de dezembro de 2008 a 17 de janeiro de 2009) de Israel contra a Faixa de Gaza.

Segundo o relatório da Anistia Internacional, Israel:

* Praticou a “destruição cruel”, “indiscriminada”, “sem precedentes”, da Faixa de Gaza em ataques que frequentemente tinham como alvos civis palestinos.

* Usou armas de baixa precisão, como artilharia e fósforo branco, em áreas densamente povoadas.

* Promoveu ataques indiscriminados diretos ou indiretos contra civis e alvos civis. Várias centenas de civis foram mortos como resultado destes ataques

* Demoliu e destruiu casas e prédios civis em grande escala, e a destruição não poderia ser justificada como uma necessidade militar.

“Impediu equipes médicas de retirar os feridos, além de atacar algumas equipes médicas em ambulâncias.

O relatório da Anistia Internacional afirma ainda que:

* Centenas de civis palestinos foram mortos com armas de alta precisão e outros com tiros à queima-roupa, “sendo que não representavam ameaça à vida de soldados israelenses”.

* A Anistia não encontrou evidências que apoiem as acusações israelenses de que os militantes do Hamas, em Gaza, usaram civis como “escudos humanos”. A entidade diz, no entanto, que há evidências de maus tratos contra civis palestinos — inclusive crianças — por parte de soldados israelenses.

* Cerca de 1.400 palestinos foram mortos na operação militar israelense. Esses números batem com as estatísticas divulgadas por palestinos.Entre os mortos, mais de 900 eram civis, incluindo 300 crianças e 115 mulheres, de acordo com o relatório. O Exército israelense afirma que 1.166 palestinos morreram, dos quais 295 eram civis.

“Tudo isto é violação das leis internacionais e constitui crimes de guerra”, acusa a responsável pelo relatório. “A maior parte da destruição foi cruel e deliberada, e foi promovida de maneira e em circunstâncias que não indicam que possa ser justificada do ponto de vista da necessidade militar.”

O documento também também acusa o grupo palestino Hamas de cometer crimes de guerra, citando os ataques com foguetes lançados contra zonas residenciais em Israel.Treze israelenses foram mortos, incluindo três civis.

Israelenses e palestinos rejeitam o relatório

Yigal Palmor, porta-voz do Ministério do Exterior israelense, questionou a credibilidade do relatório da Anistia.

“Este relatório da Anistia não é um relatório sobre direitos humanos, é um julgamento ao estilo soviético. Não há transparência, não há responsabilidade, não sabemos quem são os juízes. Quem são os membros da equipe de investigação? Eles escondem suas identidades”, afirmou.

Palmor também questionou os conhecimentos da equipe de investigação da Anistia, a identidade das testemunhas e se elas trabalham para o Hamas.

Israel atribuiu algumas das mortes de civis a “erros profissionais” e acrescentou que sua conduta seguiu as leis internacionais.”Tentamos ser tão precisos quanto podíamos em uma situação de combate difícil”, disse à BBC o porta-voz do governo israelense Mark Regev.

Na Faixa de Gaza, Fawzi Barhoum, um porta-voz do Hamas, afirmou que o relatório da Anistia não é profisssional e não coloca ênfase o bastante em “crimes cometidos por Israel”.

“Este relatório não é justo nem equilibrado e nós rejeitamos todas as acusações ao Hamas listadas nele. Ele foi publicado sem a consulta a qualquer um dos líderes ou autoridades do Hamas. O relatório iguala vítimas e carrascos e nega o direito de nosso povo de resistir à ocupação, que é incompatível com a lei internacional que garante o direito de um povo (em território) ocupado à autodefesa.”

Um dos líderes do Hamas, Ismail Haniyeh, disse que “esta guerra selvagem teve apenas um lado e todas as ferramentas de destruição e assassinato foram usadas. Os restos da destruição ainda são provas do crime contra a Faixa de Gaza e acreditamos que os líderes da ocupação israelense devem ser entregues aos tribunais internacionais”.


jul 01 2009

Entre o “IA” e o “INJUSTIFICÁVEL”

Categoria: Apoiamos, Internacional, Mídia, PolíticaSenhor_do_Servo @ 14:46

Flávio Aguiar, da Carta Maior

Não sei o que foi pior: ler sobre o golpe em Honduras, ou ler, nas seções de cartas da Folha de S. Paulo (deve haver em outros jornais também) na internete, leitores brasileiros justificando o golpe. Os argumentos centrais eram os mesmos de 1964 no Brasil: o presidente ia violar a Constituição, ia implantar uma ditadura de esquerda (pra esses leitores, ditadura de direita pode), ia virar um novo Hugo Chavez, ia, ia, ia. Só ia. Fato, nenhum. Ainda, de quebra, mais uma acusação, desta vez contra o governo brasileiro, que teria aplicado dois pesos e duas medidas ao não condenar a eleição no Irã e ao condenar o golpe em Honduras, como “mais uma prova” do “esquerdismo” da política externa brasileira.

Conceitualmente, nem vale a pena responder a esses argumentos, porque eles se desmentem por si próprios, pela sua incoerência, pela sua inconsistência, pela sua própria existência, enfim. Mas vale a pena recordar que argumentos desse naipe foram cantados em prosa e verso na nossa mídia brasileira e fora dela, em 1964. É o argumento do “ia”. Só pra recordar um pouco mais: historicamente esse argumento foi usado aqui na Alemanha para atenuar a culpa social-democrata pelo assassinato de Rosa Luxemburgo, de Karl Liebknecht, em 1919 e pela sangrenta repressão contra os trabalhadores exercida pelos para-militares dos Freikorps, que se tornaram um dos berços das futuras SS e SA. Eles (Rosa e Karl) “iam” implantar uma ditadura sangrenta, se eles chegassem ao poder a matança “ia” ser igual, só que para o outro lado, etc. Haja “ia”.

Outra semelhança com o Brasil de 64 foi o argumento do novo “presidente”, Roberto Micheletti, às pressas indicado pelo Congresso para legalizar o golpe. “Manuel Zelaya renunciou, então o cargo ficou vago”. Que argumento! Zelaya desmentiu a renúncia. Mas mesmo que tivesse renunciado, para salvar a própria vida e não virar um novo Allende, o ato seria juridicamente nulo, pois obtido sob evidente coação. É como se Pedro Carmona, o golpista venezuelano de 2002, dissesse: “Pois é, o palácio de Miraflores estava vazio, o presidente Hugo Chavez se fora, aí eu entrei e tomei posse”.

Em 1964 o Congresso, para legalizar o golpe, com o apoio de quase toda a mídia e muito mais, declarou a presidência vaga porque o presidente João Goulart “abandonara” a capital federal “sem autorização” do parlamento, e deu posse interina ao presidente da Câmara, Rainieri Mazzili. Também, que argumento notável! É a lógica do golpe: primeiro se dá o golpe, depois se busca alguma lógica que o justifique, para além de seus sórdidos interesses.

Algumas lembranças sobre Honduras. Na última metade do século XX o país abrigou uma série de operações militares de direita, organizadas/apoiadas/levadas a cabo pela CIA. Nos últimos 30 anos do século essas operações foram particularmente aprofundadas pelos governos republicanos. A partir de 1977 (quando Jimmy Carter era presidente e as operações da CIA estavam “congeladas”) instalou-se no país uma “operação Charly”, sob supervisão de militares argentinos ligados ao “Batalhão 601”, que, por sua vez, era diretamente ligado ao general Leopoldo Galtieri que, em 1981, assumiu a presidência com um “golpe dentro do golpe”. Os membros do “601” treinaram, em Honduras, o Batalhão 316, especializado em seqüestros, torturas, assassinatos e “desaparecimentos”. Honduras tornou-se, sobretudo em seu quartel de Lepaterique, um centro irradiador de ações militares anti-esquerdistas no próprio país e nos vizinhos, como em El Salvador e na Nicarágua. Essas operações também contaram com o apoio do governo de Pinochet, do Chile. A partir da posse de Reagan, em 1981, as operações desse tipo foram retomadas e aprofundadas. Nem mesmo a Guerra das Malvinas, em 1982, interrompeu essa “frutífera cooperação” entre a CIA e militares argentinos, ao que parece, durou pelo menos até 1984, e com as bênçãos do papa João Paulo II e o auxílio do embaixador John Negroponte, nomeado por Reagan para Tegucigalpa, que foi o cabeça-de-ponte de sua administração na América Central e depois foi indicado embaixador na ONU!O que colocou aquela colaboração na estante da história foi a restauração da democracia na Argentina, a partir de 1983.

Portanto, vê-se que o presente golpe em Honduras tem longas raízes. Não sei se os golpistas que invadiram a casa do presidente Zelaya foram ou são remanescentes do famigerado “316”, mas sem dúvida seu espírito ia com eles. O que os militares e os golpistas civis não souberam avaliar é que o mundo ao seu redor mudou bastante. A América Latina, a América Central, a América do Sul não são mais as mesmas. Nem mesmo a OEA e os Estados Unidos são os mesmos do ano passado. Já pensaram, caros leitores e leitoras, no que aconteceria se Bush filho e Rice pianista continuassem na Casa Branca?

* Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior


jun 26 2009

A vingança da Natureza!

Categoria: CulturaSenhor_do_Servo @ 21:53

Nos EUA, agricultores precisaram abandonar cultivos de 5 mil hectares de soja trasngênica e outros 50 mil estão gravemente ameaçados. Esse pânico deve-se a uma erva “daninha” que decidiu se opor à gigante Monsanto, conhecida por ser a maior predadora do planeta. Insolente, essa planta mutante prolifera e desafia o Roundup, o herbicida total à base de glifosato, ao qual “nenhuma erva daninha resiste”.

Quando a natureza se recupera

Em 2004, um agricultor de Macon, situada a 130 km de Atlanta, no estado da Geórgia, EUA, notou que alguns brotos de amaranto resistiam ao Roundup que ele utilizava em suas lavouras de soja.

As lavouras vítimas dessa erva daninha invasora tinham sido semeadas com grãos Roundup Ready, que receberam um gene resistente ao Roundup ao “qual não resiste nenhuma erva daninha”.

Desde então, a situação tem piorado e o fenômeno se estendeu a outros estados, como Carolina do Sul e do Norte, Arkansas, Tennessee e Missouri. Segundo um grupo de cientistas do Centro para A Ecologia e Hidrologia, organização britânica situada em Winfrith, Dorset, produziu-se uma transferência de genes entre a planta modificada geneticamente e algumas ervas indesejáveis como o amaranto. Essa constatação contradiz as afirmações peremptórias e otimistas dos que defendem os organismos modificados geneticamente (OGM), que afirmam que uma hibridização entre uma planta modificada geneticamente e uma não modificada é simplesmente “impossível”.

Para o geneticista britânico Brian Johnson, especializado em problemas relacionados com a agricultura “basta que aconteça somente um cruzamento, que pode ocorrer entre várias milhões de possibilidades. Uma vez criada, a nova planta possui uma enorme vantagem seletiva e se multiplica rapidamente. O potente herbicida aqui utilizado, à base de glofosato e amônia, tem exercido uma pressão enorme sobre as plantas, que por sua vez aumentaram ainda mais a velocidade de adaptação”. Assim, ao que parece, um gene de resistência aos herbicidas deu origem a uma planta híbrida surgida de repente entre o grão que se supõe que ele protegeria e o amaranto, que por sua vez se torna impossível eliminar.

A única solução é arrancar à mão as ervas daninhas, como se fazia antigamente, mas isso já não é possível dadas as dimensões das áreas de cultivo. Além disso, por terem raízes profundas, essas ervas são extremamente difíceis de arrancar, razão pela qual simplesmente se abandonaram 5 mil hectares de soja.

Muitos agricultores pretendem renunciar aos OGM e voltar para a agricultura tradicional, ainda mais por que os cultivos OGM estão cada vez mais caros, e a rentabilidade é primordial para esse tipo de lavoura. Assim, Alan Rowland, produtor e vendedor de sementes de soja em Dudley, Missouri, afirma que já ninguém pede sementes do tipo Roundup Ready, da Monsanto, que ultimamente representavam o 80% do volume de seus negócios. Hoje as sementes OGM estão desaparecendo de seu catálogo e a demanda por sementes tradicionais não deixa de aumentar.

Já em 25 de julho de 2005, o jornal The Guardian publicava um artigo de Paul Brown que revelava que os genes modificados de cereais tinham passado para as plantas selvagens e criado uma “super semente”, resistente aos herbicidas, algo “inconcebível” para os cientistas do Ministério do Meio Ambiente. Desde 2008 os meios de comunicação ligados à agricultura dos EUA informam cada vez mais casos de resistência, ao mesmo tempo em que o governo daquele país tem realizado cortes importantes no orçamento da Secretaria da Agricultura, que o obrigaram a reduzir e depois interromper algumas de suas pesquisas nessa área.

Planta diabólica ou sagrada?

Resulta divertido constatar que o amaranto, essa planta “diabólica” para a agricultura genética, é sagrada para os incas. Pertence aos alimentos mais antigos do mundo. Cada planta produz uma média de 12 mil sementes por ano e as folhas, mais ricas em proteínas que as da soja, contém sais minerais e vitaminas A e C.

Assim, esse bumarangue, devolvido pela natureza à Monsanto, não neutraliza somente essa empresa predadora, mas instala em seus domínios uma planta que poderia alimentar a humanidade em caso de fome. Ela suporta a maioria dos climas, tanto as regiões secas, como as de monção e as terras altas tropicais, além de não ter problemas nem com os insetos nem com doenças, com o que nunca precisará de aplicação de agrotóxicos.

Assim, o amaranto enfrenta a muito poderosa Monsanto como David se opôs a Golias, e todo mundo sabe como acabou o combate, mesmo que muito desigual! Se esses “problemas” ocorrerem em quantidade suficiente, que é o que parece que vai acontecer, em seguida não restará opção à Monsanto do que fechar as portas. Além de seus empregados, quem realmente se compadecerá com essa fúnebre empresa?

por Sylvie Simons* do MST

*Tradução: Renzo Bassanetti


jun 25 2009

A re-eleição do Irã

Categoria: Internacional, Mídia, PolíticaSenhor_do_Servo @ 23:31

Por Esam Al-Amin, Counterpunch, pelo Viomundo

Tradução: Caia Fittipaldi

Depois das eleições de 12/6 no Irã, começaram a brotar ‘especialistas’ em Irã, como bactérias em placa de Petri. Então… lá vai um teste, para esses especialistas instantâneos. Que país, dentre os grandes, elegeu maior número de presidentes em todo o planeta, desde 1980? Outro teste: que nação é a única que elegeu dez presidentes, ao longo dos primeiros 30 anos depois de ter feito revolução democrática?

Nos dois casos, a resposta certa é: o Irã. Desde 1980, o Irã elegeu seis presidentes; os EUA, só cinco; a França, parcos três. Nas três primeiras décadas de vida da revolução Irãiana, houve dez eleições presidenciais no Irã; nos trinta primeiros anos da Revolução norte-americana, houve quatro eleições presidenciais; no Irã, dez.

As eleições iranianas uniram esquerda e direita ocidentais, numa mesma onda frenética de críticas e ataques, de políticos ‘ultrajados’ e da mídia corporativa ‘indignada’. Fenômeno até agora raro, também a blogosfera cerrou fileiras de opinião absolutamente uniformizada – e favorável à oposição iraniana.

De fato, todas as ‘acusações’ de fraude foram ‘declarações’, sem qualquer confirmação. Até agora, ninguém apresentou qquer fiapo de evidência de qualquer tipo de fraude nas eleições Irãianas. E, isso, sem considerar que seria preciso provar fraude em enormíssima escala, a ponto de ter feito sumir 11 milhões de votos de diferença entre o candidato eleito e o candidato derrotado.

Analisemos, então, o que haja de evidências, até agora.

Antes das eleições, houve mais de 30 pesquisas de intenção de votos, desde que os dois principais aspirantes à presidência – o presidente Máhmude Ahmadinejad e o ex-primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi – oficializaram suas candidaturas, em março de 2009. Os resultados variaram, é claro; e várias das empresas que patrocinaram essas pesquisas – por exemplo, Iranian Labor News Agency e Tabnak – não fizeram segredo de que apoiavam Mousavi, candidato de oposição, ou seu chamado “movimento por reformas”. Muitas pesquisas foram visivelmente manipuladas e em algumas delas Mousavi aparecia com vantagem absolutamente inverossível de mais de 30% dos votos. Excluídas essas pesquisas que confessadamente só tiveram função de propaganda, a vantagem a favor de Ahmadinejad chegava, em média, a cerca de 21 pontos. Jamais, em nenhuma das pesquisas, surgiu sequer alguma possibilidade de as eleições chegarem a ter 2º turno (previsto, é claro, na legislação iraniana).

Por outro lado, houve apenas uma pesquisa feita por empresa ocidental, encomendada pelas redes BBC e ABC News, e realizada por instituto independente, o Center for Public Opinion (CPO) da New America Foundation. The CPO é empresa bem conceituada, não apenas no Irã, mas em todo o mundo muçulmano desde 2005. Essa pesquisa, realizada poucas semanas antes das eleições, previu comparecimento às urnas de 89% dos eleitores. Além disso, mostrou que Ahmadinejad estava em vantagem de 2 para um votos, à frente de Mousavi.

Que relações há entre esses números de pesquisa e os resultados divulgados? E que possibilidade há de ter havido fraude em grande escala?

Segundo os resultados oficiais, há 46,2 milhões de eleitores registrados no Irã. Houve comparecimento recorde – e que a pesquisa do CPO previra que aconteceria. Quase 39,2 milhões de Irãianos votaram, 85% do total de eleitores inscritos, com 38,8 milhões de votos válidos (houve cerca de 400 mil votos em branco). Oficialmente, o president Ahmadinejad recebeu 24,5 milhões de votos, contra 13,2 milhões para Mousavi (62,6% e 33,8% do total de votos, respectivamente).

De fato, praticamente a mesma porcentagem de votos que nas eleições de 2005, quando Ahmadinejad obteve 61,7%, contra os votos dados ao presidente Hashemi Rafsanjani (35,9%). Dois outros candidatos, Mehdi Karroubi e Mohsen Rezaee, receberam o restante dos votos.

Pouco antes de serem oficialmente anunciados os resultados, os apoiadores de Mousavi e os jornais e televisões da mídia ocidental, começaram a gritar e acusaram o governo de ter cometido fraude eleitoral. As acusações organizaram-se em torno de quatro temas. Primeiro, quando o horário das eleições foi prorrogado por algumas horas, dado o inesperado altíssimo comparecimento de eleitores, disseram que o resultado teria sido anunciado antes de ter sido possível contar os votos, com alegados 39 milhões de votos ainda por apurar.

Segundo, os mesmos críticos insinuaram que os apuradores não eram confiáveis, e que a oposição não pudera manter fiscais durante a apuração dos votos. Terceiro, disseram que seria impossível acreditar que Mousavi, nativo da região do Azerbaijão, região no noroeste do Irã, tivesse perdido as eleições até em sua cidade natal. Quarto, que o campo de Mousavi teria descoberto que, em algumas sessões eleitorais, teriam acabado as células, e muita gente voltou para casa sem ter podido votar.

Dia seguinte, Mosuavi e dois outros candidatos derrotados apresentaram 646 queixas formais ao Conselho dos Guardiões, entidade encarregada de supervisionar a integridade das eleições. O Conselho comprometeu-se a investigar a fundo todas as queixas. Logo na manhã seguinte, apareceu uma carta que teria sido redigida por um funcionário do ministério do Interior e dirigida ao Aiatolá Ali Khamanei, e que, em questão de algumas horas já era reproduzida em todo o planeta. (Atenção: só a mídia ocidental e alguns políticos insistem em escrever “Supremo Líder” para designar o Aiatolá Khamenei. A expressão “Supremo Líder” – nem esse ‘título’ hierárquico – existem no Irã.)

Naquela carta, ‘alguém’ (a carta não era assinada) declarava que Mousavi vencera as eleições e que Ahmadinejad seria o terceiro colocado. A carta também declarava que as eleições haviam sido fraudadas a favor de Ahmadinejad por ordem direta de Khamanei. É muito mais provável que essa carta seja completamente falsa, do que que seja autêntica. Dentre outras evidências da falsificação, muitos já consideraram que nenhum funcionário de baixo escalão do ministério seria encarregado de escrever ao Aiatolá Khamanaei para comunicar-lhe informação tão importante quanto o resultado das eleições. Robert Fisk, jornalista do The Independent foi o primeiro a levantar dúvidas sobre a autenticidade daquela carta; também escreveu que sempre duvidaria de qualquer resultado em que Ahmadinejad aparecesse em terceiro lugar (com menos de 6 milhões de votos, em eleição tão importante), como informaria a carta falsa.

No total, foram distribuídas 45.713 urnas eleitorais para as cidades, vilas e vilarejos, em todo o país. Com 39,2 milhões de votos votados, foram menos de 860 votos por urna. Diferente de outros países, em que os eleitores podem votar em vários candidatos para vários postos numa única eleição, os eleitores Irãianos só podiam votar em um único nome e só para a presidência. Por que seria preciso mais de uma ou duas horas para apurar 860 votos por urna? Apuradas as urnas, os resultados eram passados por internet para o ministério do Interior, em Tehran.

Desde 1980, quando o Irã sofreu a tragédia de uma guerra de oito anos com o Iraque, o Irã vive sob boicote e embargo, e enfrenta ainda os ecos de campanhas de assassinato de dúzias de políticos, de um presidente eleito e de um primeiro-ministro que representava, então, a Organização MKO (Mujahideen Khalq Organization). Essa organização é uma milícia armada e violenta, que tem sede e quartel-general na França e cujo único objetivo é derrubar o governo do Aiatolá Khamenei pelas armas.

Apesar de todas essas dificuldades e desafios, nenhuma eleição jamais deixou de ser realizada na data prevista na República Islâmica do Irã, ao longo dos últimos 30 anos. Houve 30 eleições nacionais. De fato, o Irã já tem (mais que muitos países em todo o mundo) longa tradição de eleições em boa ordem democrática. As eleições no Irã são organizadas, monitoradas e fiscalizadas por professores, profissionais liberais, funcionários públicos e aposentados (sistema semelhante ao dos EUA).

O Irã não tem tradição de fraudes eleitorais. Pense o ‘ocidente’ o que quiser, há no Irã mecanismos democráticos de eleger e cassar políticos, ministros e funcionários públicos corruptos. A democracia iranana não é democracia cartorial. De fato, o ex-presidente Mohammad Khatami, considerado um dos principais reformadores e modernizadores do Irã, foi eleito presidente em eleições gerais e democráticas, em momento em que o ministério do Interior (que organiza as eleições) estava sob comando de partidos ultra-conservadores. E foi eleito com mais de 70% dos votos; não apenas uma, mas duas vezes.

No que tenha a ver com eleições, o verdadeiro problema não são possíveis fraudes, mas o acesso dos candidatos aos votos (problema que há, idêntico, em outros países; basta perguntar a Ralph Nader ou a qualquer candidato de partido pequeno, nos EUA). E altamente improvável que haja alguma conspiração que tenha envolvido dezenas de milhares de professores, profissionais liberais, funcionários públicos e aposentados (selecionados por sorteio, como mesários [como se faz no Brasil]) e que permanecesse completamente oculta e secreta.

Além do mais, Ahmadinejad é membro de um partido político muito ativo, que já venceu várias eleições desde 2003; e Mousavi é candidato independente que reemergiu para a vida política há apenas três meses, depois de 20 anos de ausência completa do mundo político. Claro que a campanha de Ahmadinejad foi campanha nacional; o candidato fez mais de 60 viagens de campanha por todo o país em menos de 12 semanas; Mousavi só visitou as cidades principais e não contava com aparelho de campanha muito sofisticado.

É verdade que nasceu e tem bases eleitorais nas regiões onde vivem os grupos da etnia atzeri. Mas a pesquisa já citada aqui, do CPO, já informara, bem antes das eleições, que “apenas 16% dos Irãianos azeri declararam intenção de votar em Mousavi; enquanto 31% dos atzeris declararam intenção de votar em Ahmadinejad.” Segundo os resultados oficiais, a eleição foi mais apertada aí que no restante do país: Mousavi venceu por pequena margem no Azerbaijão Oeste, mas, no total, perdeu para Ahmadinejad, na província (45% dos votos para Mousavi; 52%, para o presidente; 1,5 milhão de votos, a 1,8 milhão de votos, respectivamente).

Seja como for, é espantoso o modo como as agências ocidentais de notícias manipularam as informações. Richard Nixon derrotou George McGovern em seu estado natal, South Dakota, nas eleições de 1972; se Al Gore tivesse vencido em seu estado natal, o Tennessee, em 2000, ninguém se teria de preocupar com recontar votos da Flórica, nem haveria o processo chamado “Bush versus Gore” na história da Suprema Corte dos EUA. Se John Edwards, candidato à vice-presidências, tivesse vencido nos estados onde nasceu e foi criado (Carolina do Sul e do Norte), teríamos hoje um presidente John Kerry iniciando seu segundo mandato.

Mas, ninguém entende por que, todos os jornais e jornalistas ocidentais parecem convencidos de que os cidadãos no Oriente Médio votam e elegem candidatos, não por suas idéias políticas, mas por alguma fatalidade da solidariedade tribal.

Nada há de excepcional no fato de que um candidato ‘menor, como Karroubi, tenha tido menos votos do que esperava, mesmo em suas cidade e região natais. Muitos eleitores parecem ter percebido que não haveria 2º turno e converteram o 1º turno em único turno eleitoral. Karroubi de fato recebeu bem menos votos do que em 2005, também em sua cidade natal. O mesmo aconteceu a Ross Perot, derrotado em seu estado natal, o Texas, por Bob Dole, do Kansas, em 1996; e em 2004, a Ralph Nader, que recebeu apenas 1/8 dos votos que recebera quatro anos antes.

Alguns observadores anotaram que quando os resultados estavam sendo anunciados, a margem entre os candidatos jamais mudou. Nada há de misterioso nisso. Especialistas sabem que, quando 3-5% dos votos de uma dada região estão apurados, há 95% de probabilidade de que a relação entre os candidatos não se altere até o final da apuração. Quanto à acusação de que faltaram células e os eleitores não puderam votar, vale lembrar que o horário de votação foi ampliado quatro vezes, para que a maior quantidade possível de eleitores votassem. De qquer modo, ainda que votassem todos os que não puderam votar e todos votassem em Mousavi (o que é impossível, em termos probabilísticos), seriam mais 6,93 milhões de votos, que não alterariam as posições entre 1º e 2º colocados nem levariam a eleição para um 2º turno (a diferença final foi de 11 milhões de votos entre o 1º e o 2º colocados).

Ahmadinejad não é homem simpático. É provocador e, não raras vezes, é imprudente. Mas supor que a luta política no Irã esteja sendo disputada entre ‘forças democráticas’ e um ‘ditador’ é manifestar ignorância sobre a dinâmica interna da vida Irãiana, ou distorcer deliberadamente os fatos.

Não há dúvidas de que há um segmento significativo da sociedade iraniana, habitantes das áreas metropolitanas, muitos jovens, que anseiam por mais liberdades sociais e pessoais. Estão compreensivelmente irados, porque seu candidato não foi eleito. Mas é erro de proporções gigantescas interpretar essa manifestação doméstica como alguma espécie de ‘levante’ contra a República Islâmica, ou como alguma espécie de ‘clamor’ para que a RI embarque em programa de concessões ao ocidente (por exemplo, no que tenha a ver com o programa nuclear).

Cada nação tem seu modo de se fazer entender. Quando a França de Chirac opôs-se à invasão do Iraque, em 2003, vários deputados norte-americanos foram a televisão, em ações de propaganda, declarando que as batatas fritas (em inglês “French Fries”, “batatas francesas”) passariam a ser chamadas “Batatinhas da Liberdade”, para vingar a ‘traição’ dos franceses. Declararam que os franceses não seriam mais considerados bem-vindos nos EUA.

Os EUA têm triste imagem no Irã, de fato, desde 1953, por conta do golpe que derrubou o governo eleito de Mohammad Mossadegh. É golpe de que a maioria dos norte-americanos jamais ouviu falar, mas é tema da história nacional Irãiana, ensinado na escola. Os Irãianos detestam os EUA.

De fato, passaram-se 56 anos, até que, finalmente, o presidente Obama reconheceu que, sim, os EUA interferiram na história do Irã, em processo de golpe: aconteceu esse mês, no discurso de Obama, no Cairo. No mesmo discurso, Obama também declarou que, sim, é preciso respeitar os desejos do povo Irãiano. Excelente começo.

Mas é indispensável, agora, que EUA e o ocidente, afastem-se e deixem que os iranianos discutam suas diferenças. “Afastar-se”, nas atuais circunstâncias, implica afastar-se oficialmente, e suspender qualquer tentativa de interferência nos negócios internos do Irã, sim. Mas implica também os EUA retirarem do Irã todos os seus espiões e ‘especialistas’ em “lutas de baixa intensidade”.

O artigo original pode ser lido aqui


jun 22 2009

Dólar: o começo do fim?

Categoria: CulturaSenhor_do_Servo @ 14:21

As grandes crises são tempos de mudanças e ajustes. No sistema capitalista mundial os equilíbrios estão se alterando a toda velocidade, e a atuação dos países do BRIC não jogam um papel menor nisso. Tudo se passa como se, de uma figura artística criada tempos atrás pelo Goldman Sachs surgisse agora uma magnitude global capaz de competir com os EUA e a União Européia: China, a potência mundial vindoura, e Rússia, a decadente, têm sido as primeiras a se entenderem; Brasil e Índia vêm em seguida. Há um esses países vêm mantendo reuniões informais como Estados BRIC. Esta semana se realiza a primeira cúpula oficial de países do BRIC na cidade russa de Yekaterinburgo.

Brasil, Russia, Índia e China representam quase 46% da população mundial, e suas potências econômicas de nível mundial como exportadoras de matérias primas e produtos agrícolas, como oficina do mundo, fábrica de idéias e centro de prestação de serviços. Dispõem, juntos, do maior volume de reservas monetárias: 2,9 trilhões de dólares. Suas economias nacionais crescem, ainda assim, agora, num ritmo claramente menor. Não lhes resta outra opção, senão a de livrarem-se o mais rápido possível da mordaça da recessão. E têm possíveis chances de consegui-lo, porque seus governos não se limitam a uma política de gestão da crise, como os governos norte-americanos e da União Européia, mas estão decididos a induzir mudanças.

Se conseguirem-no, em poucos anos alcançarão ou superarão economicamente os Estados do G-7. Porque então estariam mais imbricados entre si do que jamais estiveram, e vai de si que isso se poderia constatar objetivamente no momento em que a China substituísse os EUA como parceiro comercial principal do Brasil.

O FMI pode ficar satisfeito
O que está em jogo na cúpula de Yekaterinburgo é, nem mais nem menos, uma aliança estratégica na política econômica de alcance planetário, a fim de exercer contrapeso ao “modelo” de capitalismo dos mercados financeiros estadunidense. Quem quiser superar a crise presente sem assentar as bases para um próximo derretimento financeiro não pode se limitar a resgates bilionários de bancos e a regular mercados financeiros, escreveu o ministro brasileiro de estratégia Roberto Mangabeira Unger, autor de vários livros em que tem advogado pela importação pela América Latina do socialismo democrático de tipo europeu.

E aonde essas manobras e mudanças dos Estados do BRIC levam? Já antes de sua cúpula, chineses, brasileiros e russos vêm advogando pelo fim do regime do dólar e por uma nova divisa mundial. Os bancos centrais desses três países que, junto com a Índia, experimentaram, nas últimas quatro semanas, um aumento de 60 bilhões em suas reservas de dólares, estão decididos a fragmentar e a diversificar. Já anunciaram sua intenção de adquirir bônus de empréstimo do FMI e, ao mesmo tempo, vender bônus do Tesouro norte-americano por uma valor de 100 bilhões de dólares. Os títulos do FMI serão emitidos como direitos especiais de giro, quer dizer, vai se tratar de dinheiro fiduciário internacional, fundado numa cesta monetária composta de dólares, euros, libras esterlinas, yenes e francos suíços. O FMI estará safisfeito, porque sua emissão programada de bônus de empréstimo se converterá então num negócio seguro, ainda que não admirável. Em contrapartida, os Estados do BRIC podem endurecer suas exigências de igualdade nas deliberações do FMI.

Nas atabalhoadas ações dos Estados visando ao resgate de empresas no espaço da União Européia, algumas das crises que haverão de se tornar decisivas para o transcurso da atual Grande Depressão do ano de 2009 (a quarta do capitalismo moderno), estão silenciosas: a crise de fome, a crise agrícola, a crise energética, a crise de matérias primas e as ameaçadoras consequências da catástrofe ambiental.

Do BRIC ao “BRICSS”
Os Estados do BRIC não podem deixar de ver que todas essas crises mundiais não apenas batem na porta de sua casa, mas irrompem no seio de seus próprios países. Assim, esses Estados poderiam facilmente se converterem num grupo de Estados “BRICSS”, se Indonésia, Coréia do Sul e África do Sul se incorporarem. Então se ia poder falar com propriedade de um contrapoder de alcance econômico mundial. A União Européia, agora em situação de espera, terá que decidir com quem quer dar as mãos: se vai ao abismo com os EUA, ou com os países do BRIC, rumo a uma nova ordem econômica mundial.

Michael R.Krätke, do Sin Permisso, via Carta Maior


jun 22 2009

Um país, um líder!

Categoria: CulturaSenhor_do_Servo @ 14:04

Berna (Suiça) – Não sei se a grande imprensa brasileira deu o destaque devido, só vi alguma coisa num parágrafo no texto distribuído pela BBC para o Estadão online. Porém, embora com atraso, acho importante deixar aqui o depoimento.

Com a experiência de ter feito tantas outras coberturas no Palácio das Nações, da ONU, em Genebra, posso afirmar ser coisa rara o que se viu na assembléia-geral da OIT, onde os discursos de Lula, um escrito e outro improvisado, foram entrecortados de aplausos, e, ao final, todos os presentes – representantes governamentais, sindicais e patronais – puseram-se de pé, numa consagradora standing ovation.

Isso sem esquecer que, logo depois de anunciada a próxima chegada de Lula, os membros das delegações de todos os países voltaram a tomar seus lugares para ouvir a fala do presidente brasileiro. Ora, para quem não sabe, são 193 discursos de presidentes, com tempo limitado, que se sucedem, geralmente com o grande auditório vazio.

Uma antiga jornalista do Palácio das Nações, comentou para mim – igual a essa consagração, que considero histórica, só me lembro da visita de Lech Walena e de Nelson Mandela.

É verdade, foi uma consagração. Nosso sapo barbudo, chamado de analfabeto por tantos ilustres e intelectuais da oposição, transmitiu a melhor mensagem, fez a melhor análise da crise, apontando os culpados.

Lula pode tropeçar nas concordâncias mas há um concordância geral – o homem é esperto, sabido, sabe dar o recado e dominar os auditórios.

Em síntese, honra o cargo que exerce, sem ser prepotente, sempre guardando aquele carisma do militante popular.

O discurso de Lula foi precedido de uma recepção por sindicalistas de todo mundo, na qual o presidente brasileiro se sentia à vontade e, em dado momento, surpreendeu a todos, levantando-se de sua cadeira para distribuir aos presentes uns folhetos sobre a proteção dos trabalhadores na cana-de-açúcar. O que provocou o comentário de um sindicalista brasileiro – ele está com saudades da época de militante sindical.

Uma grande parte de seu discurso foi voltada à questão dos imigrantes, expulsos e rechaçados na Europa, quando aproveitou para contar que o Brasil acaba de legalizar a todos imigrantes sem papéis.

“Porque no Brasil, disse ele, acabamos de dar um exemplo – enquanto o mundo rico anda jogando a culpa em cima dos imigrantes, esta semana, no Brasil, foi aprovada pelo Congresso Nacional, por iniciativa do governo, a legalização de todos os emigrantes que não estavam legalizados no Brasil”

Foi justamente como um líder sindical, atentamente ouvido, que Lula denunciou os responsáveis pela atual crise, sem perder em nada seu carisma e sua linguagem coloquial e nada formal no seu discurso.

“Porque quem trabalha com papel, vendendo papel, comprando papel, sem produzir nada, um dia quebra e aconteceu. Este momento exige de empresários, de trabalhadores e do governo uma atitude mais dura, nós não podemos conviver com paraísos fiscais, nós não podemos viver com um sistema financeiro que especula papel com mais papel sem gerar um posto de trabalho, sem produzir um parafuso, um sapato, uma camisa, uma gravata. Não é possível que a gente não se dê conta de que mais de um bilhão de seres humanos ainda tem dificuldades para conseguir comer uma vez por dia”.

É por essa e outras que, embora ainda minoritário, acho ser importante para o Brasil e para nosso povo não se trocar quem vem conseguindo dar o respeito e o destaque ao nosso país. O PT não quer e o próprio Lula não quer, mas o povo quer. É hora de se começar a ouvir e organizar o desejo popular para que o Congresso abra o caminho e o povo possa votar mais um mandato para Lula.

Rui Martins, do Direto da Redação


jun 21 2009

Um diálogo moderno

Categoria: Amenidades, Crônica, CulturaSenhor_do_Servo @ 17:03

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Eu te amo!

pequenadoida@umprovedor.com diz: Não, você gosta é de dormir  comigo.

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Faz sentido…

pequenadoida@umprovedor.com diz: E confunde as coisas.

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Pode ser. Quer chocolates?

pequenadoida@umprovedor.com: Sim. E cerveja também.

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Se na padaria tiver e a chuva me deixar ir, eu trago.

pequenadoida@umprovedor.com: Você tem problema. Só pode ser gay, uma vez que não é feito de açúcar… /pensa

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Mas meu amor, está chovendo granizo há 2 horas!

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Ou seja: não vai chover por mais duas, então você chega antes da novela.

pequenadoida@umprovedor.com: Mas eu ainda estou em Goiás.. :/

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Então ande logo, uai.

pequenadoida@umprovedor.com: Ain meu amor, você é mau!

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Não. Eu sou gostoso, os conceitos são diferentes…

pequenadoida@umprovedor.com: Nada, você é metido!

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Se não, por que estaria comigo? Eu te faço esquecer, a cada semana, tudo o que se passou de ruim. E faço de novo, quinze minutos depois…

pequenadoida@umprovedor.com: Ui, é verdade!

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Pois é, nós dois somos finos. Nos merecemos.

pequenadoida@umprovedor.com: Agora sou eu que digo que faz sentido…

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Mas meu amor, posso te dizer uma coisa?

pequenadoida@umprovedor.com: Sim, querido.

pequenadoida@umprovedor.com: Pode dizer o que quiser.

leidersilvaso2@hotmail.com diz: Ande logo, de avião é pertinho, mas de carro são 100 km!


jun 21 2009

México: perto dos EUA, longe de Deus

Categoria: CulturaSenhor_do_Servo @ 12:20

Do excelente Carta na Escola:

O México está à beira do caos? O Pentágono parece levar essa possibilidade a sério. Um informe preparado no final do governo Bush júnior, intitulado Ambiente de Operação Conjunta 2008 (JOE 2008, na sigla em inglês), apontou dois possíveis candidatos para um “colapso rápido e súbito”:

– Em termos de piores cenários para a Força Conjunta e, na verdade, para o mundo é o caso de se considerar um colapso rápido e súbito de dois Estados grandes e importantes: Paquistão e México. A segunda possibilidade pode parecer menos provável, mas governo, políticos, polícia e infraestrutura judiciária estão todos sob pressão e ataques sustentados por gangues criminosas e cartéis de drogas. O desenvolvimento desse conflito interno nos próximos anos terá um vasto impacto na estabilidade do Estado mexicano.

Ante esse mau agouro, o presidente Felipe Calderón instruiu seus diplomatas a promoverem uma imagem positiva do país. A chanceler mexicana Patricia Espinosa foi rápida em reafirmar que “o México não é um Estado fracassado” e que a violência se restringe a três estados.

Mas, em 18 de fevereiro, seus esforços foram sabotados pelo ministro da Economia, Gerardo Ruiz Mateos. Em visita à França para atrair investimentos e preparar uma visita de Nicolas Sarkozy a seu país, acabou por sublinhar a gravidade do problema. Afirmou que, “se o governo de Felipe Calderón não houvesse empreendido as ações contra o narcotráfico, o próximo presidente do México seria um narcotraficante”. Declarou aos franceses que o narcotráfico criou um Estado dentro do Estado, que, em várias cidades, cobra impostos, impõe a lei e nomeia prefeitos, dos quais cobra “proteção”. “Nós pusemos o Exército na rua porque encontramos uma Polícia Federal e uma Inteligência totalmente desmanteladas” – com o que comprometeu a imagem da sociedade mexicana e de Vicente Fox, antecessor de Calderón e correligionário do PAN.

Poderia ser apenas um exagero de um ministro falastrão, mas, nos dias seguintes, a imprensa mexicana informou que Mateos repetira uma versão amenizada do que ouvira do próprio Calderón em uma reunião privada com governadores e parlamentares, realizada em 13 de fevereiro, na qual foram trocadas acusações sobre cumplicidades com o narcotráfico. O presidente advertiu os presentes: “Se não agirmos em conjunto, o próximo com quem vocês se sentarão aqui para conversar será um narcotraficante”.

Em 20 de fevereiro, o Departamento de Estado renovou enfaticamente o “alerta” oficial aos cidadãos para preveni-los do risco de ataques violentos no México, equiparando o país vizinho ao Mali ou a Madagáscar. É um passo aquém da “advertência”, sobre perigo crônico de instabilidade, aplicada a países como Colômbia, Haiti, Sudão e Somália. Mas o vizinho dos EUA não parece longe dessa categoria, pois os alertas vêm sendo renovados desde abril de 2007, com ênfase crescente. A Universidade Estadual do Arizona emitiu um memorando a seus alunos, prestes a entrar em férias, sobre os riscos para turistas do outro lado da fronteira.

O Departamento de Estado orienta os turistas a evitar as estradas à noite, permanecer em áreas turísticas conhecidas, fugir de comícios e passeatas e tomar cuidado com cidades da fronteira, onde “alguns confrontos recentes da polícia e do Exército mexicanos com os cartéis de narcotraficantes se assemelham a uma guerra em pequena escala, com os cartéis usando armas automáticas e granadas. Grandes tiroteios tomaram lugar, mais recentemente, no norte do México, incluindo Tijuana, Chihuahua e Ciudad Juárez”.

Assim como a Colômbia, o único outro país ibero-americano em relação ao qual o Departamento de Estado mantém tais alarmes, o México tem um dos governos mais conservadores e política e economicamente mais alinhados com os EUA na América Latina. Em outubro de 2007, Bush júnior e Calderón lançaram a Iniciativa Mérida, uma versão mexicana do famigerado Plano Colômbia, que sem dominar o narcotráfico, promoveu a morte de milhares de inocentes, a aliança entre a corrupção e a violência paramilitar e a transformação da Inteligência em serviço de venda de informações sobre jornalistas e opositores a paramilitares e traficantes.

Isso não basta para demonstrar uma relação de causa e efeito, mas sugere que, no mínimo, essa abordagem é ineficaz. A Iniciativa Mérida, ou Plano Mérida, previu uma participação menos direta de militares dos EUA, mas tem objetivos similares e, como seu irmão mais velho, finge não ver que o cerne do problema do narcotráfico não está na oferta do Sul, e sim na demanda do Norte.

No caso mexicano, soma-se a facilidade com que os narcotraficantes compram armas proibidas em seu país do outro lado da fronteira. Das 100 mil lojas de armas dos EUA, 12 mil estão junto à fronteira mexicana. Desde 2004, quando Bush júnior e o Congresso cancelaram a proibição da venda de armas de assalto, pistolas semiautomáticas, fuzis de assalto pesados e lançadores de foguetes e granadas são ali vendidos legalmente.

Entrevistado pela Associated Press em 26 de fevereiro, o presidente Calderón declarou “falsos” os informes da CIA e da DEA que consideram o México incapaz de controlar grandes porções do país e reclamou: “O que realmente é necessário é uma boa limpeza do outro lado da fronteira”. Segundo o sociólogo José Luis Piñeyro, especialista em segurança nacional da Universidade Autônoma do México, os cartéis mexicanos têm a cumplicidade das máfias estadunidenses e mesmo de funcionários públicos dos EUA, que facilitam a entrada e o transporte de drogas vindas do México.

Nos últimos dois anos, o governo mexicano mobilizou 45 mil soldados e aplicou 6,5 bilhões de dólares na “guerra às drogas”. Pelo Plano Mérida, os EUA contribuirão com 1,4 bilhão até 2010. Segundo o governo, as gangues empregam, em contrapartida, recursos de até 10 bilhões anuais e têm 500 mil mexicanos a seu serviço.

O procurador Eduardo Medina Mora contou 5.376 mortes atribuídas ao narcotráfico em 2008 (2.400 em Chihuahua), ante 2.477 no ano anterior. Houve mais 1.100 mortes nos primeiros dois meses de 2009 e cerca de 60% delas deram-se nos estados da fronteira estadunidense – Chihuahua, Baja California, Sinaloa e Durango. Segundo a polícia, 85% delas referem-se a traficantes mortos por rivais.

Para dimensionar corretamente o problema, convém assinalar que a taxa total de homicídios do México em 2008 foi de 11 por 100 mil habitantes, equivalente à taxa oficial do estado de São Paulo e a menos de metade da média brasileira (atualmente em 24,5 por 100 mil). O estado de Chihuahua chegou a 75 por 100 mil e Ciudad Juárez, a grande cidade fronteiriça desse estado (1,4 milhão de habitantes), a 118 por 100 mil, índice pouco superior aos 90 por 100 mil do Recife ou aos 104 por 100 mil de Maceió. Fora dos estados da fronteira, o risco de ser vítima de um homicídio é bem menor no México do que na maior parte do Brasil.

Mas essa violência estatisticamente menor é mais visível e recorre mais amplamente ao terror para intimidar o povo e as autoridades. Em 21 de fevereiro, o secretário da Segurança de Ciudad Juárez, Roberto Orduña, renunciou após dois de seus homens serem executados em cumprimento da ameaça de matar um policial a cada 24 horas, caso ele não fosse demitido. As funções de seus principais subordinados passaram a ser exercidas por militares da ativa. Na véspera, duas vereadoras de Guadalupe, município rural da fronteira a 60 quilômetros dessa cidade, haviam sido executadas com disparos de AK-47.

No dia seguinte, o próprio governador, José Reyes Baeza, foi alvejado em seu comboio, em atentado no qual morreu um de seus guarda-costas e três outros foram feridos e surgiram cartazes ameaçando o prefeito, José Reyes Ferriz: “Vamos cortar-te a cabeça junto com tua família, mesmo estando em El Paso, no Texas”. Como seu antecessor, o atual prefeito mora com a família do outro lado da fronteira e só vai à sua cidade a trabalho.

Em Ciudad Juárez, cabeças decapitadas têm sido rotineiramente deixadas na porta de delegacias e corpos mutilados junto a escolas e shopping centers, ou pendurados em viadutos. Em Tijuana, foi preso um criminoso conhecido como El Pozolero (cozinheiro de pozole, sopa típica mexicana), que durante dez anos recebeu 600 dólares semanais para eliminar cerca de 300 cadáveres, fervendo-os em tambores de ácido.

Como em certos meios brasileiros, existe um culto juvenil ao tráfico e à criminalidade. O equivalente local do “funk proibidão” é o narcocorrido, variante do corrido (tradicional gênero de baladas do norte do México, das quais a mais famosa é La Cucaracha) que romantiza o tráfico de drogas e se difundiu das cantinas e clubes de imigrantes mexicanos do sul da Califórnia para o norte do México. Seu criador, Chalino Sánchez, fugiu em 1977 para os EUA como imigrante ilegal depois de assassinar um traficante que lhe estuprara a irmã e ficou famoso criando canções encomendadas por quadrilhas e traficantes desejosos de publicidade. Foi morto ao retornar ao México para um espetáculo em 1992, mas originou uma legião de imitadores.

Em resposta aos últimos desafios, o governo federal promoveu o que foi, na prática, uma retomada militar de Ciudad Juárez. No domingo, 1º de março, a cidade estava ocupada por 5,2 mil militares e 1,4 mil agentes federais; outros 7 mil soldados e 4 mil policiais vigiavam a fronteira de Chihuahua com os EUA. Na segunda e terça-feira, não houve “execuções” nessa cidade, mas foram registrados sete assassinatos em outras partes do estado, inclusive na capital. Três homens foram decapitados e desmembrados em Tijuana. Um homem foi assassinado e dois corpos de mulheres torturadas e violentadas foram encontrados em outras cidades de fronteira da Baja Califórnia. Seis outras pessoas foram abatidas por pistoleiros em outras partes do país.

A sensação de descontrole é maior do ponto de vista dos EUA, para os quais o México é essencialmente a fronteira norte (a maior parte dos investimentos e dos turistas não vão além dela), do que para os próprios mexicanos, para os quais a situação é grave, mas regional. Mas o problema pode ser ampliado pelo desenrolar da crise financeira dos EUA, ainda longe de seu clímax.

Não só o pobre México está “tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”, como dizia o ditador Porfirio Díaz, como sua dependência do mercado do Norte aumentou drasticamente desde o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), em vigor desde janeiro 1994 e que, em janeiro de 2009, chegou à completa eliminação de tarifas.

Hoje, as exportações para os EUA representam 25% do PIB mexicano, muito mais do que qualquer outro país latino-americano. As remessas de imigrantes mexicanos nos EUA representam mais 3% do PIB. O turismo, 9%, e mais de 90% dele vem do vizinho do norte.

O México acompanhou quinze anos de boom estadunidense com um colapso cambial seguido de desempenho medíocre, resultando um crescimento médio de 2,5% ao ano para o PIB e 1,2% para a renda per capita. Conflitos e tensões sociais se agravaram e estariam ainda piores se a migração ilegal para os EUA não permanecesse como uma válvula de escape. Como será lidar com os problemas internos com o vizinho em recessão prolongada?


Próxima Página »