A mídia liberal bombardeia-nos a diário com a ideia de que o maior perigo da nossa época é o fundamentalismo intolerante (étnico, religioso, sexista…), e que o único jeito de resistir e poder derrotá-lo consistiria em assumir umha posiçom multicultural.Mas, é realmente assim? E se a forma habitual em que se manifesta a toleráncia multicultural nom fosse, em última instáncia, tam inocente como se nos quer fazer crer, porquanto, tacitamente, aceita a despolitizaçom da economia?Esta forma hegemónica do multiculturalismo baseia-se na tese de que vivemos em um universo pós-ideológico, no que teriamos superado esses velhos conflitos entre esquerda e direita, que tantos problemas causárom, e no que as batalhas mais importantes seriam aquelas que se livram por conseguir o reconhecimento dos diversos estilos de vida. Mas, e se este multiculturalismo despolitizado fosse precisamente a ideologia do actual capitalismo global?
De aí que creia necessário, nos nossos dias, suministrar umha boa dose de intoleráncia, embora só seja com o propósito de suscitar essa paixom política que alimenta a discórdia. Quiçá chegou o momento de criticar desde a esquerda essa actitude dominante, esse multiculturalismo, e apostar pola defesa de umha renovada politizaçom da economia.
Por que as ideias dominantes nom som as ideias dos dominantes?
Qualquera universalidade que pretendar ser hegemónica deve incoporar polo menos dous componhentes específicos: o conteúdo popular “autêntico” e a “deformaçom” que do mesmo produzem as relaçons de dominaçom e exploraçom. Sem dúvida, a ideologia fascista “manipula” a autência arela populare por um retorno à comunidade verdadeira e à solidariedade social que contrarreste as desbocadas competiçom e exploraçom; sem dúvida, “distorsiona” a expressom dessas arelas com o propósito de legitimar e preservar as relaçons sociais de dominaçom e exploraçom. Porém, para poder alcançar esse objectivo, debe incorporar no seu discurso essa arela populare autêntica. A hegemonia ideológica, por conseguinte, nom é tanto o que um conteúdo particular veha a colmar o vazio do universal, como que a forma mesma da universalidade ideológica recolha o conflito entre (polo menos) dous conteúdos particulares: o “popular”, que exprime as arelas íntimas da maioria dominada, e o específico, que exprime os interesses das forças dominantes.
Cômpre recordar aquí essa distinçom proposta por Freud entre o pensamento onírico latente e o desejo inconsciente exprimido no sonho. Nom som o mesmo, porque o desejo inconsciente articula-se, inscreve-se, a través da “elaboraçom”, da traduçom do pensamente onírico latente no texto explícito do sonho. Assim, de jeito parecido, nom há nada “fascista” (“reaccionário”, etc.) no “pensamento onírico latente” da ideologia fascista (a aspiraçom a umha comunidade autêntica, à solidariedade social e demais); o que confere um carácter propriamente fascista à ideologia fascista é o modo em que esse “pensamento onírico latente” é trasnformado/elaborado, a través do trabalho onírico-ideológico, em um texto ideológico explítico que legitima as relaçons sociais de exploraçom e dominaçom. E, nom cabe dizer o mesmo do actual populismo de direitas? Nom se apressuram em excesso os críticos liberais quando despacham os valores aos que se remete o populismo, riscando-os de intrinsecamente “fundamentalistas” e “protofascistas”?
A nom-ideologia (aquilo que Fredric Jameson chama o “momento utópico” presente incluso na ideologia mais atroz) é, por tanto, absolutamente indispensável; em certo sentido, a ideologia nom é outra cousa que a forma aparente da nom-ideologia, a sua deformaçom ou deslocamento formal. Tomemos um exemplo extremo, o antisemitismo dos nazis: nom se baseia acaso na nostálgia utópica da autêntica vida comunitária, na rejeiçom plenamente justificável da irracionalidade da exploraçom capitalista, etc.?
O que aquí sostenho é que constitui um erro, tanto teórico como político, condenar essa arela pola comunidade verdadeira tildando-a de “protofascista”, acusando-a de “fantasia totalitária”, é dizer, identificando as raízes do fascismo com essas aspiraçons (erro no que adoita incorrer a crítica liberal-individualista do fascismo): essa arela deve entender-se da sua natureza nom-ideológica e utópica. O que a converte em ideológico é a sua articulaçom, o jeito no que a aspiraçom é instrumentalizada para conferir legitimidade a umha ideia mui específica da exploraçom capitalista (aquela que lhe atribui à influência judeia, o predomínio do capital financieiro frente a um capital “produtivo” que, supostamente, fomenta a “colaboraçom” armónica com os trabalhadores…) e dos meios para pôr-lhe fim (desfazer-se dos judeus, claro).
Para que umha ideologia se imponha resulta decisiva a tensom, no interior mesmo do seu conteúdo específico, entre os temas e motivos dos “oprimidos” e os dos “opresores”. As ideias dominantes nom som NUNCA directamente as ideias da classe dominante. Tomemos o exemplo quiçá mais claro: o Cristianismo, como chegou a converter-se na ideologia dominante? Incorporando umha série de motivos e aspiraçons dos oprimidos (a Verdade está com os que sofrem e com os humilhados, o poder corrompe…) para re-articulá-los de modo que foram compatíveis com as relaçons de poder existentes. O mesmo fijo o fascismo. A contradiçom ideológica de fundo do fascismo é a que existe entre o seu organicismo e o seu mecanismo: entre a visom orgánica e estetizante do corpo social e a extrema “tecnologizaçom”, mobilizaçom, destruiçom, disoluçom dos últimos vestígios das comunidades “orgánicas” (famílias, universidades, tradiçons locais de autogoverno) enquanto “micropráticas” reais de exercício de poder. No fascismo, a ideologia estetizante, corporativa e organicista vem a ser a forma com a que acaba revestendo-se a inaudita mobilizaçom tecnológica da sociedade, umha mobilizaçom que trunca os velhos vínculos “orgánicos”…
Se temos presente este paradoxo, poderemos evitar essa armadilha do liberalismo multiculturalista que consiste em condenar como “protofascista” qualquera ideia de retorno a uns vínculos orgánicos (étnicos ou de outro tipo). O que caracteriza ao fascismo é mais bem umha combinaçom específica de corporativismo organicista e de pulsom face umha modernizaçom desenfreada. Dito de outro jeito: em tudo verdadeiro fascismo topamos indefectivelmente elementos que nos fam dizer: “Isto nom é puro fascismo: ainda há elementos ambivalentes próprios das tradiçons de esquerda ou do liberalismo”. Esta remoniçom, este distanciar-se da fantasma do fascismo “puro”, é o fascismo tout court. Na sua ideologia e na sua práxis, o “fascismo” nom é senom um determinado princípio formal de deformaçom do antagonismo social, umha determinada lógica de deslocamente mediante a dissociaçom e condensaçom de comportamentos contraditórios.
A mesma deformaçom percebe-se hoje na única classe que, na sua autopercepçom “subjetiva”, se concebe e representa explicitamente como tal: é a recurrente “classe meia”, precisamente, essa “nom-classe” dos estratos intermeios da sociedade; aqueles que presumem de laboriosos e que se identificam nom só polo seu respeito a sólidos princípios morais e religiosos, senom por diferenciar-se de, e de opor-se a, os dous “extremos” do espaço social: as grandes corporaçons, sem pátria nem raízes, de um lado, e os excluídos e empobrecidos imigrantes e habitantes dos guetos, por outro.
A “classe meia” baseia a sua identidade na rejeiçom a estes dous extremos que, de contrapor-se directamente, representariam “o antagonismo de classe” na sua forma pura. A falsidade constitutiva de esta ideia da “classe meia” é, por tanto, semelhante a aquela da “justa linha de Partido” que o estalinismo traçava entre as “desviaçons de esquerda” e as “desviaçons de direita”: a “classe meia”, na sua existência “real”, é a falsidade encarnada, a rejeiçom do antagonismo. Em termos psicanalíticos, é um fetiche: a impossível intersecçom da direita e a esquerda que, ao rejeitar os dous pólos do antagonismo, em quanto posiçons “extremas” e antisociais (empresas multinacionais e imigrantes intrusos) que perturbam a saúde e corpo social, auto-representea-se como o terreno comum e neutral da Sociedade. A esquerda adoita lamentar o facto de que a linha de demarcaçom da luita de classes ficara desdebuxada, deslocada, falsificada, especialmente, por parte do populismo de direitas que di falar em nome do povo quando em realidade promove os interesses do poder. Este contínuo deslocamento, esta contínua “falsificaçom” da linha de divisom (entre classes), porém, É a “luita de classes”: umha sociedade classista na que a percepçom ideológica da divisom de classes fosse pura e directa, seria umha sociedade armónica e sem luita; por dizê-lo com Laclau: o antagonismo de classe estaria completamente simbolizado, nom seria impossível/real, senom simplesmente um rasgo estrutural de diferenciaçom.
Slavoj Žižek