jul 03 2008

Mil Vezes Favela

Tag: PolíticaSenhor_do_Servo @ 19:32

O episódio recente no Morro da Providência reaviva antigas feridas da história brasileira. Além de reafirmar o ódio e o preconceito das elites contra a população pobre, expõe a postura dos grandes veículos de comunicação, que agem como verdadeiros porta-vozes de um movimento que tenta impedir políticas públicas voltadas para a diminuição das desigualdades sociais. Desde a proclamação da República, os conservadores insistem em desobrigar o Estado de assegurar vida digna para todos. A Providência é a favela mais antiga da cidade do Rio de Janeiro: data de 1897, de acordo com registros históricos. Sua gênese está na violência física e econômica, expressão maior da intolerância e da incongruência que marcam a construção do modelo republicano no Brasil.

O Morro da Providência surgiu para abrigar os soldados que voltaram da Guerra de Canudos, durante a qual ocuparam um morro chamado Favella, na Bahia. A partir da associação do nome “favela” com os soldados, o morro passou a ser popularmente conhecido como Morro da Favela.

O covarde assassinato dos três jovens no Rio de Janeiro nos obriga à reflexão. As vítimas — Marcos Silva, David Florêncio e Wellington Gonzaga — foram entregues por militares a traficantes de um morro rival. Se não tivessem sido entregues por homens de verde oliva, seus nomes não teriam sido divulgados. Talvez nem em estatísticas se transformassem.

Já a mídia procura esvaziar os sinais de exclusão social escancarados pelo episódio e transforma a “cobertura” em campanha contra as políticas sociais que começam a ser implementadas. Partidariza o episódio, para tentar desgastar o atual governo, criminalizando as Forças Armadas, que subiram o morro em meio a insistentes pedidos da classe média carioca – muitas vezes amplificados pelos próprios jornais. Reduz-se a importância da urbanização das favelas cariocas. Afinal são apenas 728 casebres na Providência, sem importância estética em uma cidade marcada pela divisão econômica e social.

Alexandre Machado Rosa (continua aqui)


jul 03 2008

Mi Reino/Meu Reino

Tag: Cultura, Poesia, Senhor do ServoSenhor_do_Servo @ 17:51

MI REINO

Mi reino es de los astros misteriosos,
del fuego que susurra en el ocaso.
Se me figura milagrosa tela
el cielo con su azul iluminado.
Conmigo no es el hombre sino el ángel.
Su sombra se hace mies en mi costado.
Él busca de mi luz el santo norte
como la brisa cuando es mi rebaño.
Mi reino es de las olas de la mar
que nunca al pensamiento dan descanso,
de las estrellas fijas en los ojos
pues son criaturas de un querer muy manso.
Si llueve es porque lluevo lentamente
y si amanece es porque ya me aclaro.
Cuando anochece y no aparece el cielo
el viento de mi reino está callado.

Delfina Acosta

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MEU REINO

Meu reino é dos astros misteriosos,
Do fogo que sussurra no crepúsculo.
E  me parece milagrosa tela
O céu com seu azul iluminado.
Comigo não é o homem senão o anjo.
Ao meu lado sua sombra se faz grãos
Ele busca de minha luz o santo norte
como a brisa quando é meu rebanho.
Meu reino é das ondas do mar
Que nunca ao pensamento dão descanso,
das estrelas fixas nos olhos
Pois são criaturas de um querer muito manso.
Se chove é por que chovo lentamente
E se amanhece é por que já me aclaro.
Quando anoitece e não aparece o céu
O vento do meu reino está calado.

tradução livre minha


jul 02 2008

Brasil e Uruguai, Uruguay y Brasil.

Tag: Internacional, Senhor do ServoSenhor_do_Servo @ 12:56

Está aqui a relação dos marcos fronteiriços que temos com nossos vizinhos. Dá para ver que fronteira mais complicada é a que nos separa da nossa ex-província Cisplatina, agora conhecida como a República Oriental do Uruguai.
Nosso pequeno vizinho, inclusive, quer nos tomar uma área de pouco mais de 200 Km²de terras _por eles conhecidas como Rincón de Artigas e por nós como Invermada/Alto Quaraí_ e uma ilha (a Ilha Brasileira, no que têm os uruguaios a concorrência da Argentina). A região pretendida pelos orientais é a área hachurada da figura logo acima. O governo brasileiro sequer reconhece a demanda cisplatina, mas eles (ou pelo menos alguns desocupados) levam a demanda a sério.
Eles têm até artigos na versão hispanófona da wikipedia, conforme se pode ver aqui e aqui. Aliás, até alguns jornais como o La República falam sobre o tema em editoriais.
Uma explicação simples da natureza do conflito pode ser encontrada aqui e uma discussão mais pormenorizada pode ser vista aqui e aqui.
Agora você pode se perguntar onde eu consegui a informação que o Uruguai quer ter uma pendência territorial com o Brasil. Pois bem, encontrei a informação em um sítio informativo da CIA na internet, vejam só… Para o bem ou para mal, é um sítio virtual onde se reúne um bom número de informações, mesmo que eventualmente, fantasiosas.


jul 02 2008

A CIÊNCIA NORMAL E SEUS PERIGOS

Tag: FilosofiaSenhor_do_Servo @ 8:30

A crítica do Professor Kuhn às minhas opiniões sobre ciência é a mais interessante que já encontrei até agora. Há, reconhecidamente, alguns pontos, mais ou menos importantes, em que ele não me entende ou me interpreta mal. Kuhn, por exemplo, cita com desaprovação um trecho do início do primeiro capítulo do meu livro, The Logic of Scientific Discovery (A Lógica da Descoberta Ceintífica). Pois eu gostaria de citar uma passagem que ele deixou passar, constante do Prefácio da Primeira Edição. (Na primeira edição a passagem em apreço vinha logo antes do trecho citado por Kuhn; mais tarde inseri o Prefácio da Edição Inglesa entre as duas passagens.) Ao passo que breve trecho citado por Kuhn poderá soar, fora do contexto, como se eu não estivesse a par do fato, destacado por ele, de que os cientistas desenvolvem necessariamente suas idéias dentro de uma estrutura teórica definida, seu imediato predecessor de 1934 soa quase como uma antecipação desse ponto central da opinião de Kuhn.

Depois de duas epígrafes tiradas de Schlick e de Kant, meu livro começa com as seguintes palavras: “Um cientista empenhado numa pesquisa, digamos no campo da física, pode atacar diretamente o   seu problema. Pode ir logo ao âmago do assunto: isto é, ao coração de uma estrutura organizada. Pois já existe uma estrutura de doutrinas científicas; e, com ela, uma situação — problema geralmente aceito. É por isso que ele pode deixar para outros o ajuste de sua contribuição à estrutura do conhecimento científico.” E, a seguir, prossigo dizendo que o filósofo se encontra em posição diferente.

Agora parece muito claro que a passagem citada descreve a situação “normal” do cientista de modo muito semelhante a Kuhn: há um edifício, uma estrutura organizada da ciência que fornece ao cientista uma situação — problema geralmente aceito a que o seu próprio trabalho pode ajustar-se. Isso se parece muito com um dos pontos principais de Kuhn: a saber, que a ciência “normal”, como ele a chama, ou o trabalho “normal” do cientista, pressupõe uma estrutura organizada de suposições, ou uma teoria, ou um programa de pesquisas, necessário à comunidade de cientistas a fim de poderem discutir racionalmente o seu trabalho.

O fato de haver Kuhn passado por alto esse ponto de concor­dância e de haver-se aferrado ao que vinha imediatamente depois, e que ele supunha fosse um ponto de discordância me parece significa­tivo. Mostra que só lemos e compreendemos um livro com expectativas definidas em nossa mente. Isso, de fato, pode ser considerado uma das conseqüências de minha tese de que abordamos tudo à luz de uma teoria preconcebida. Assim também um livro. Em conseqüência disso, estamos sujeitos a escolher as coisas de que gostamos ou desgostamos ou que desejamos, por outros motivos, encontrar no livro; e assim fez Kuhn ao ler o meu livro.

Entretanto, apesar desses pontos secundários, Kuhn me com­preende muito bem — melhor, creio eu, do que a maioria dos crí­ticos que conheço; e suas duas críticas principais são muito importantes.

A primeira dessas críticas sustenta, em poucas palavras, que pas­sei totalmente por alto o que ele denomina ciência “normal”, e me empenhei exclusivamente em descrever o que ele denomina “pesqui­sa extraordinária” ou “ciência extraordinária”.

Creio que a distinção entre as duas espécies de atividades talvez não seja tão nítida quanto o quer Kuhn; entretanto, estou pronto pa­ra admitir que, na melhor das hipóteses, não tive mais que uma obs­cura consciência dessa distinção; e o que é mais, que a distinção aponta para algo de suma importância.

Nessas circunstâncias, é relativamente secundário serem ou não os termos de Kuhn, ciência “normal” e ciência “extraordinária”, até certo ponto petições de princípio e (no sentido de Kuhn) “ideológi­cos”. Creio que são tudo isso; o que, porém, não diminui meus sen­timentos de gratidão a Kuhn por haver assinalado a distinção e por haver assim aberto meus olhos para uma série de problemas que eu ainda não tinha visto com clareza.

Karl Popper (continua aqui)


jul 02 2008

LÓGICA DA DESCOBERTA OU PSICOLOGIA DA PESQUISA?

Tag: FilosofiaSenhor_do_Servo @ 8:23

Meu objetivo nestas páginas é justapor o ponto de vista sobre o desenvolvimento científico esboçado em meu livro, The Structure of Scientific Revolutions (A Estrutura das Revoluções Científicas), aos pontos de vista mais conhecidos do nosso presidente, Sir Karl Popper.2 Normalmente eu me negaria a um empreendimento dessa natureza, pois sou menos otimista que Sir Karl quanto à utilidade das confrontações. Por outro lado, admirei por tanto tempo a sua obra que, a esta altura, não me é fácil criticá-la. Apesar disso, estou persuadido de que, nesta ocasião, a tentativa há que ser feita. Antes mesmo de meu livro ser publicado há dois anos e meio, eu começara a descobrir características especiais e freqüentemente enigmáticas da relação entre minhas opiniões e as dele. Essa relação e as reações divergentes por ela provocadas dão a entender que uma comparação disciplinada entre as duas pode elucidar muita coisa. Permitam-me dizer por que isso me parece possível.

Em quase todas as ocasiões em que nos voltamos explicitamente para os mesmos problemas, nossas opiniões sobre ciência são quase idênticas.3 Interessa-nos muito mais o processo dinâmico por meio do qual se adquire o conhecimento científico do que a estrutura lógica dos produtos da pesquisa científica. Em face desse interesse, ambos enfatizamos, como dados legítimos, os fatos e o espírito da vida científica real, e ambos nos voltamos com freqüência para a história no intuito de encontrá-los. Desse conjunto de dados partilhados, chegamos a muitas das mesmas conclusões. Ambos rejeitamos o parecer de que a ciência progride por acumulação; em lugar disso, enfatizamos o processo revolucionário pelo qual uma teoria mais antiga é rejeita­da e substituída por uma nova teoria, incompatível com a anterior; 4 e ambos sublinhamos enfaticamente o papel desempenhado nesse pro­cesso pelo fracasso ocasional da teoria mais antiga ao enfrentar desafios lançados pela lógica, experimentação ou observação. Final- mente, Sir Karl e eu estamos unidos na oposição a algumas das teses mais características do positivismo clássico. Ambos enfatizamos, por exemplo, o embricamento íntimo e inevitável da observação com a teoria científica; conseqüentemente, somos céticos quanto aos esforços para produzir qualquer linguagem observacional neutra; e ambos in­sistimos em que os cientistas podem, com toda propriedade, procurar inventar teorias que expliquem os fenômenos observados, e que façam isso em termos de objetos reais, seja qual for o significado da última expressão.

Conquanto não esgote as questões a cujo respeito Sir Karl e eu concordamos,3 essa lista já é suficientemente extensa para nos colocar no mesmo grupo minoritário entre os filósofos da ciência contemporâ­nea. Presumo que seja por isso que os seguidores de Sir Karl têm sido, com alguma regularidade, meu público filosófico mais compreen­sivo, ao qual continuo a sentir-me grato. Minha gratidão, contudo, não é sem reservas. A mesma concordância, que provoca a simpatia desse grupo, não raro lhe dirige mal o interesse. Ao que tudo indica, os adeptos de Sir Karl são capazes de ler grande parte do meu livro como capítulos de uma revisão tardia (e, para alguns, drástica) de sua obra clássica The Logic of Scientific Discovery (A Lógica da Descoberta Científica). Um deles pergunta se a visão da ciência es­boçada na minha Scientific Revolutions não constituiu por muito tempo matéria de conhecimento comum. Um segundo, mais caritati­vo, limita minha originalidade à demonstração de que as descobertas de fato têm um ciclo vital muito semelhante ao das inovações-da­-teoria. Outros, ainda, declaravam-se satisfeitos de uma maneira geral com a leitura do livro, mas discutem apenas as duas questões, com­parativamente secundárias, a cujo respeito minha discordância com Sir Karl é mais explícita: a ênfase que dou à importância de um (compromisso profundo com a tradição e meu descontentamento com as implicações do termo “falseamento”. Resumindo, todos esses ho­mens leram meu livro com óculos muito especiais e há outra maneira de lê-lo. A visão que se tem através desses óculos não está errada — minha concordância com Sir Karl é real e substancial. Entretanto, os leitores fora do círculo properiano quase invariavelmente deixam de notar até que a concordância existe, e são eles que com mais fre­qüência reconhecem (nem sempre com simpatia) as questões que me parecem mais importantes. Chego à conclusão de que uma mudança de gestalt divide os leitores do meu livro em dois ou mais grupos. O que um deles vê como notável paralelismo é virtualmente invisível para outros. O desejo de compreender tudo isso é o que motiva a presente comparação da minha visão com a de Sir Karl.

A comparação, todavia, não deve limitar-se a uma justaposição ponto por ponto. O que exige atenção é menos a área periférica em que se devem isolar nossas divergências secundárias ocasionais, do que a região central em que parecemos concordar. Sir Karl e eu ape­lamos para os mesmos dados; vemos, numa extensão incomum, as mesmas linhas no mesmo papel; indagados sobre essas linhas e esses dados, damos, não raro, respostas virtualmente idênticas ou, pelo menos, respostas que inevitavelmente parecem idênticas na limitação imposta pelo processo de pergunta e resposta. Não obstante, experiên­cias como as que já mencionei convencem-me de que nossas intenções são muitas vezes totalmente diversas quando dizemos as mesmas coi­sas. Se bem as linhas sejam análogas, as figuras que delas emergem não o são. Por isso chamo ao que nos separa mudança de gestalt e não discordância e por isso me sinto, ao mesmo tempo, perplexo e intrigado sobre a melhor maneira de examinar a separação. Como poderei persuadir Sir Karl, que sabe tudo o que sei acerca do de­senvolvimento científico e que já o disse num ou noutro lugar, de que o que ele chama de pato pode ser visto como um coelho? Como poderei ensiná-lo a usar meus óculos quando ele já aprendeu a olhar através dos seus para tudo o que posso apontar?

Thomas Khun (continua aqui)


jul 01 2008

Os legados do amianto

Tag: Apoiamos, Internet, MídiaSenhor_do_Servo @ 21:31

A Organização Internacional do Trabalho – a OIT, órgão das Nações Unidas –alerta: o amianto, ou asbesto, mata por ano no mundo 100 mil trabalhadores. No Brasil, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 1 milhão de pessoas podem estar em contato direto com a fibra assassina ou do diabo, como é conhecido esse mineral. Ele é cancerígeno. Está banido em 49 países, incluindo Argentina, Chile, Uruguai e União Européia. Aqui, é proibido no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e mais recentemente São Paulo. No dia 4 de junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por 7 votos a 3 que a lei 12.684, que veda o uso do amianto no Estado, é constitucional. Em bom português: está proibido no Estado de São Paulo.

O aposentado Aldo Vicentin, 66 anos, secretário-geral da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), não pôde comemorar esta vitória. Enquanto a lei era julgada no STF, ele internava-se no Instituto do Coração de São Paulo, o Incor, para a batalha da sua vida: extirpar o mesotelioma – tumor maligno de pleura, membrana que reveste o pulmão. É muito agressivo, incurável, praticamente intratável, causado pela exposição ocupacional ou ambiental ao amianto. A quase totalidade dos portadores morre em um ano; a expectativa de vida é de, no máximo, 2 anos. Aldo é casado com dona Gisélia, tem duas filhas e um neto.

“De 1964 a 1968, trabalhei no depósito de materiais da Eternit, em Osasco; ajudava a carregar caminhões com tubos, caixas d’água, telhas”, relembra à repórter antes da cirurgia. “Tinha 22 anos, nem sabia o que era amianto. Só ao requerer a aposentadoria, em 1994/1995, descobri que havia trabalhado em condições insalubres, perigosas.”

Aldo já perdeu a conta dos amigos que o amianto levou. “Agora, sou eu que estou com esse passivo”, diz, indignado, referindo-se ao tumor, que se manifestou 44 anos depois. “Foi de repente. Comecei a sentir canseira, sem fôlego para subir uma rampa… Na radiografia de um ano e meio atrás não havia nada. A que fiz há três meses mostrou meu pulmão esquerdo inteiramente tomado.” Dona Gisélia está arrasada: “O mesotelioma parece furacão; destrói tudo pelo caminho”.

“No início, não sabíamos que o amianto fazia mal e tivemos alguns casos de disfunção respiratória na fábrica de Osasco, já desativada. Usávamos principalmente o anfibólio”, diz Élio Martins, presidente do Grupo Eternit, o maior do País no setor de amianto . “Por volta de 1980, passamos a trabalhar só com a crisotila, fizemos altos investimentos em medidas de proteção e eliminamos todos os riscos da atividade profissional. De lá para cá, não temos nenhum trabalhador doente nas nossas fábricas nem na nossa mineradora.” A mineradora é a SAMA, responsável pela única mina de amianto em exploração; fica em Minaçu, Goiás. Anfibólio é um outro grupo de amianto, no qual estão inseridos o amianto marrom e o azul, já banidos no mundo inteiro; têm maior poder de agressividade que a crisotila, ou amianto branco.

“Não são apenas alguns casos, mas milhares de pessoas com doenças pulmonares graves, entre as quais o mesotelioma”, afirma Fernanda Giannasi, engenheira de segurança do trabalho e auditora fiscal do MTE, em São Paulo. “Como é possível garantir que a partir de 1980 ninguém ficou doente? É futurologia. Nós trabalhamos com epidemiologia, e os estudos demonstram que as doenças do amianto levam 20, 30, 40 anos para se manifestar. O mesotelioma do Aldo levou 44!”

Conceição Lemes (continua aqui):


jul 01 2008

O Caso Ivo Cassol

Tag: Internet, Mídia, PolíticaSenhor_do_Servo @ 19:56

No capítulo O Araponga e o Repórter mostrou-se como Veja não relutou em se associar ao banditismo e ao submundo.

Lá, se contava que a principal fonte da revista - no episódio do vídeo sobre o funcionário dos Correios recebendo propina - foi um empresário que, poucos anos depois, foi flagrado em uma das operações da Polícia Federal. O material fornecido serviu para o lobista afastar concorrentes e o empresário restaurar seu esquema de corrupção - que funcionou sem ser incomodado até a PF estourá-lo.

Esse jogo de alianças espúrias com o submundo não terminou aí. A prática de vender a alma ao diabo em troca de informações e manipulá-las, atropelando princípios básicos de jornalismo, prosseguiu mesmo após a catarse do “mensalão”. É o que ocorreu no episódio recente, em que Veja se aliou ao governador de Rondônia , Ivo Cassol (sem partido ex-PPS).

No caso do grampeador, nas duas pontas não havia mocinhos. No caso do governador, a revista aceitou deliberadamente assassinar a reputação de um homem da lei, de reputação ilibada, que durante anos, combateu duramente o crime organizado de Rondônia.

Quem é Ivo Cassol, o governador de Rondônia?

Em 2004 foi acusado de comandar um esquema de extração clandestina de diamantes e contrabando de ouro na reserva indígena Roosevelt, dos Cintas-Largas (clique aqui).

Em 2005 foi julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), acusado de ter cometido irregularidades quando prefeito de Rolim de Moura (clique aqui).

Em 2007, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, denunciou-o ao STF (Supremo Tribunal Federal) por compra de votos, formação de quadrilha e coação de testemunhas (clique aqui).

No dia 13 de abril de 2008, reportagem do Fantástico sobre a Operação Titanic, da Polícia Federal, comprometia Cassol até a medula (clique aqui):

Exclusivo. Você vai conhecer os bastidores da Operação Titanic. A ação da Polícia Federal acompanhou os passos de uma quadrilha que envolveu até um governador de estado no golpe dos carrões importados.

Dentro de um galpão estão dezenas de milhões de reais em forma de carros e motos importados. São super máquinas que chegam a valer R$ 2 milhões no Brasil. Super máquinas subfaturadas. “30% a 40% menores aos preços de mercado”, diz a procuradora da República (ES) Nádja Machado Botelho. A Justiça investiga a participação de um governador e do filho e do sobrinho dele na obtenção de facilidades para o esquema.

Nos vídeos e fotografias da investigação a que o Fantástico teve acesso, você vai saber como a Polícia Federal seguiu o filho do governador de Rondônia, Ivo Cassol, durante a chamada Operação Titanic, para desmascarar a quadrilha da sonegação (…).

Adriano se tornou conhecido nacionalmente em 2006, ao ser flagrado agredindo uma mulher depois de uma batida de trânsito. No mesmo ano, a Polícia Federal apreendeu seis carros de luxo que ele havia importado. Uma lancha que ele comprou do megatraficante colombiano Juan Carlos Abadía, capturado em 2007, também foi apreendida. Este é Ivo Cassol.

Continua aqui:


jul 01 2008

Em defesa da intolerância

Tag: Crônica, Cultura, Filosofia, Internacional, PolíticaSenhor_do_Servo @ 11:30
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A mídia liberal bombardeia-nos a diário com a ideia de que o maior perigo da nossa época é o fundamentalismo intolerante (étnico, religioso, sexista…), e que o único jeito de resistir e poder derrotá-lo consistiria em assumir umha posiçom multicultural.Mas, é realmente assim? E se a forma habitual em que se manifesta a toleráncia multicultural nom fosse, em última instáncia, tam inocente como se nos quer fazer crer, porquanto, tacitamente, aceita a despolitizaçom da economia?Esta forma hegemónica do multiculturalismo baseia-se na tese de que vivemos em um universo pós-ideológico, no que teriamos superado esses velhos conflitos entre esquerda e direita, que tantos problemas causárom, e no que as batalhas mais importantes seriam aquelas que se livram por conseguir o reconhecimento dos diversos estilos de vida. Mas, e se este multiculturalismo despolitizado fosse precisamente a ideologia do actual capitalismo global?

De aí que creia necessário, nos nossos dias, suministrar umha boa dose de intoleráncia, embora só seja com o propósito de suscitar essa paixom política que alimenta a discórdia. Quiçá chegou o momento de criticar desde a esquerda essa actitude dominante, esse multiculturalismo, e apostar pola defesa de umha renovada politizaçom da economia.

Por que as ideias dominantes nom som as ideias dos dominantes?

Qualquera universalidade que pretendar ser hegemónica deve incoporar polo menos dous componhentes específicos: o conteúdo popular “autêntico” e a “deformaçom” que do mesmo produzem as relaçons de dominaçom e exploraçom. Sem dúvida, a ideologia fascista “manipula” a autência arela populare por um retorno à comunidade verdadeira e à solidariedade social que contrarreste as desbocadas competiçom e exploraçom; sem dúvida, “distorsiona” a expressom dessas arelas com o propósito de legitimar e preservar as relaçons sociais de dominaçom e exploraçom. Porém, para poder alcançar esse objectivo, debe incorporar no seu discurso essa arela populare autêntica. A hegemonia ideológica, por conseguinte, nom é tanto o que um conteúdo particular veha a colmar o vazio do universal, como que a forma mesma da universalidade ideológica recolha o conflito entre (polo menos) dous conteúdos particulares: o “popular”, que exprime as arelas íntimas da maioria dominada, e o específico, que exprime os interesses das forças dominantes.

Cômpre recordar aquí essa distinçom proposta por Freud entre o pensamento onírico latente e o desejo inconsciente exprimido no sonho. Nom som o mesmo, porque o desejo inconsciente articula-se, inscreve-se, a través da “elaboraçom”, da traduçom do pensamente onírico latente no texto explícito do sonho. Assim, de jeito parecido, nom há nada “fascista” (“reaccionário”, etc.) no “pensamento onírico latente” da ideologia fascista (a aspiraçom a umha comunidade autêntica, à solidariedade social e demais); o que confere um carácter propriamente fascista à ideologia fascista é o modo em que esse “pensamento onírico latente” é trasnformado/elaborado, a través do trabalho onírico-ideológico, em um texto ideológico explítico que legitima as relaçons sociais de exploraçom e dominaçom. E, nom cabe dizer o mesmo do actual populismo de direitas? Nom se apressuram em excesso os críticos liberais quando despacham os valores aos que se remete o populismo, riscando-os de intrinsecamente “fundamentalistas” e “protofascistas”?

A nom-ideologia (aquilo que Fredric Jameson chama o “momento utópico” presente incluso na ideologia mais atroz) é, por tanto, absolutamente indispensável; em certo sentido, a ideologia nom é outra cousa que a forma aparente da nom-ideologia, a sua deformaçom ou deslocamento formal. Tomemos um exemplo extremo, o antisemitismo dos nazis: nom se baseia acaso na nostálgia utópica da autêntica vida comunitária, na rejeiçom plenamente justificável da irracionalidade da exploraçom capitalista, etc.?

O que aquí sostenho é que constitui um erro, tanto teórico como político, condenar essa arela pola comunidade verdadeira tildando-a de “protofascista”, acusando-a de “fantasia totalitária”, é dizer, identificando as raízes do fascismo com essas aspiraçons (erro no que adoita incorrer a crítica liberal-individualista do fascismo): essa arela deve entender-se da sua natureza nom-ideológica e utópica. O que a converte em ideológico é a sua articulaçom, o jeito no que a aspiraçom é instrumentalizada para conferir legitimidade a umha ideia mui específica da exploraçom capitalista (aquela que lhe atribui à influência judeia, o predomínio do capital financieiro frente a um capital “produtivo” que, supostamente, fomenta a “colaboraçom” armónica com os trabalhadores…) e dos meios para pôr-lhe fim (desfazer-se dos judeus, claro).

Para que umha ideologia se imponha resulta decisiva a tensom, no interior mesmo do seu conteúdo específico, entre os temas e motivos dos “oprimidos” e os dos “opresores”. As ideias dominantes nom som NUNCA directamente as ideias da classe dominante. Tomemos o exemplo quiçá mais claro: o Cristianismo, como chegou a converter-se na ideologia dominante? Incorporando umha série de motivos e aspiraçons dos oprimidos (a Verdade está com os que sofrem e com os humilhados, o poder corrompe…) para re-articulá-los de modo que foram compatíveis com as relaçons de poder existentes. O mesmo fijo o fascismo. A contradiçom ideológica de fundo do fascismo é a que existe entre o seu organicismo e o seu mecanismo: entre a visom orgánica e estetizante do corpo social e a extrema “tecnologizaçom”, mobilizaçom, destruiçom, disoluçom dos últimos vestígios das comunidades “orgánicas” (famílias, universidades, tradiçons locais de autogoverno) enquanto “micropráticas” reais de exercício de poder. No fascismo, a ideologia estetizante, corporativa e organicista vem a ser a forma com a que acaba revestendo-se a inaudita mobilizaçom tecnológica da sociedade, umha mobilizaçom que trunca os velhos vínculos “orgánicos”…

Se temos presente este paradoxo, poderemos evitar essa armadilha do liberalismo multiculturalista que consiste em condenar como “protofascista” qualquera ideia de retorno a uns vínculos orgánicos (étnicos ou de outro tipo). O que caracteriza ao fascismo é mais bem umha combinaçom específica de corporativismo organicista e de pulsom face umha modernizaçom desenfreada. Dito de outro jeito: em tudo verdadeiro fascismo topamos indefectivelmente elementos que nos fam dizer: “Isto nom é puro fascismo: ainda há elementos ambivalentes próprios das tradiçons de esquerda ou do liberalismo”. Esta remoniçom, este distanciar-se da fantasma do fascismo “puro”, é o fascismo tout court. Na sua ideologia e na sua práxis, o “fascismo” nom é senom um determinado princípio formal de deformaçom do antagonismo social, umha determinada lógica de deslocamente mediante a dissociaçom e condensaçom de comportamentos contraditórios.

A mesma deformaçom percebe-se hoje na única classe que, na sua autopercepçom “subjetiva”, se concebe e representa explicitamente como tal: é a recurrente “classe meia”, precisamente, essa “nom-classe” dos estratos intermeios da sociedade; aqueles que presumem de laboriosos e que se identificam nom só polo seu respeito a sólidos princípios morais e religiosos, senom por diferenciar-se de, e de opor-se a, os dous “extremos” do espaço social: as grandes corporaçons, sem pátria nem raízes, de um lado, e os excluídos e empobrecidos imigrantes e habitantes dos guetos, por outro.

A “classe meia” baseia a sua identidade na rejeiçom a estes dous extremos que, de contrapor-se directamente, representariam “o antagonismo de classe” na sua forma pura. A falsidade constitutiva de esta ideia da “classe meia” é, por tanto, semelhante a aquela da “justa linha de Partido” que o estalinismo traçava entre as “desviaçons de esquerda” e as “desviaçons de direita”: a “classe meia”, na sua existência “real”, é a falsidade encarnada, a rejeiçom do antagonismo. Em termos psicanalíticos, é um fetiche: a impossível intersecçom da direita e a esquerda que, ao rejeitar os dous pólos do antagonismo, em quanto posiçons “extremas” e antisociais (empresas multinacionais e imigrantes intrusos) que perturbam a saúde e corpo social, auto-representea-se como o terreno comum e neutral da Sociedade. A esquerda adoita lamentar o facto de que a linha de demarcaçom da luita de classes ficara desdebuxada, deslocada, falsificada, especialmente, por parte do populismo de direitas que di falar em nome do povo quando em realidade promove os interesses do poder. Este contínuo deslocamento, esta contínua “falsificaçom” da linha de divisom (entre classes), porém, É a “luita de classes”: umha sociedade classista na que a percepçom ideológica da divisom de classes fosse pura e directa, seria umha sociedade armónica e sem luita; por dizê-lo com Laclau: o antagonismo de classe estaria completamente simbolizado, nom seria impossível/real, senom simplesmente um rasgo estrutural de diferenciaçom.

Slavoj Žižek


jun 30 2008

Imprensa corrupta, jornalistas desonestos

Tag: Internacional, Mídia, PolíticaSenhor_do_Servo @ 8:26

Do Direto da Redação:

Apesar do silêncio e muitas vezes da parcialidade da mídia conservadora, vários fatos estão ocorrendo nesta América Latina que mereceriam no mínimo algum destaque nas páginas internacionais.

É o caso, por exemplo, do Chile, onde o Colégio de Jornalistas, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) daquelas bandas, está pedindo desculpas aos familiares de vítimas da ditadura Pinochet pela participação “culposa e antiprofissional” que tiveram os responsáveis pelos principais jornais e televisões na edição de notícias sobre falsos enfrentamentos entre integrantes de um grupo de esquerda, que resultaram na morte de mais de 100 opositores.

As investigações feitas pela Comissão de Ética do Colégio de Jornalistas confirmaram a culpa dos profissionais de imprensa Roberto Araya Silva, expulso da entidade, e de Julio López Blanco, Vicente Pérez Zurita, Manfredo Mayol, todos eles na época do Canal 7, e Claudio Sánchez, do Canal 13. Estes quatro jornalistas foram suspensos e criticados publicamente pela conduta antiética que tiveram nos casos da Operação Colombo e Rinconada de Maipú.

Também foram suspensos e repreendidos publicamente Fernando Díaz Palma (então diretor do jornal As Últimas Notícias), Alberto Guerrero Espinoza (diretor do La Tercera) e Beatriz Undurraga Gómez, do El Mercúrio, jornal que na época do golpe que derrubou o presidente constitucional Salvador Allende recebeu mais de um milhão e meio de dólares da CIA.

O serviço de inteligência da ditadura de Pinochet, então sob a responsabilidade do general assassino Manuel Contreras, pagou a edição de publicações na Argentina e no Brasil para a divulgação de falsas notícias sobre os enfrentamentos entre militantes esquerdistas. Com base nesta “informação”, os jornalistas punidos divulgaram a noticia como se fosse verdade, exatamente para retirar a culpa da própria ditadura. Os proprietários dos veículos de comunicação, claro, estavam acumpliciados com a ditadura. (…)

Mário Augusto Jakobskind

P.S. Diferente da imprensa brasileira, na argentina há meios de comunicação que divulgam histórias da mídia golpista, aqui. Mas o mais surpreendente, para quem está acostumdo a nossa própria imprensa golpista, muda e mentirosa, é que mesmo no próprio Chile  (aqui) a notícia foi divulgada. No Brasil? Nem um pio. Silêncio sepulcral, como das sepulturas que eles ajudaram a cavar e que esconderam tão bem, nos vendendo a idéia de que eram oratórios.


jun 28 2008

A fraude eleitoral de Uribe

Tag: Cultura, Internacional, Mídia, PolíticaSenhor_do_Servo @ 10:29

Álvaro Uribe finalmente mostrou sua cara e decidiu convocar um referendo para repetir as eleições de 2006. Mas por que repetir eleições que ele mesmo ganhou? Simples, por que a Corte Suprema da Colômbia condenou a 47 meses de prisão a ex congresista Yidis Medina, que confessou ter recebido subornos do governo para votar a reforma que permitiu a reeleição de Uribe. Esta atitude desencadeou ferozes críticas de diversos setores e incerteza sobre os detalhes do projeto de  lei que Uribe apresentará ao Congreso.

“Convocarei o Congreso da República para que tramite con a maior celeridade um projeto de lei de referendo que chame ao pueblo a ordenar a imediata repetição das eleições presidenciais”, disse Uribe em uma inusual aparição radiotelevisada pouco antes da meia noite de quinta.

O presidente fez o anúncio depois que a Corte Suprema de Justiça pediu que se revise a legalidade dl reforma constitucional que autorizou a Uribe para se candidatar a um segundo mandato, que termina em 2010. Na sentença, a Corte considerou que a aprovação da reeleição “foi um claro desvio de poder, na medida que o apoio de uma congresista a iniciativa de emenda constitucional se obtuve a partir de açoes delitivas”.

Uribe respondeu em sua aparição na TV, acusando aos magistrados de “pressionar indevidamente, mediante abuso de poder e usurpação de competências” e de aplicar “uma justiça seletiva”. Quinta-feira, o govierno ampliou a polêmica com a Corte ao anunciar que processará os magistrados por “falsas imputações”, segundo o ministro de Proteção Social, Diego Palacio, um dos implicados nos supostos sobornos.

O opositor Partido Liberal acusou o Presidente de “provocar uma crise institucional”, enquanto dirigentes do esquierdista Polo Democrático foram mais além e advirtiram que Uribe está no caminho de se converter em um “ditador” e “tirano”.

Enquanto isso, nem um único pio da mídia nacional. Nada: silêncio sepulcral. Chegamos ao ponto em que a mídia brasileira não consegue se igualar a paraguaia. Ah, descobri um tal de “Movimento Ordem e Vig[ília Contra a Corrupção“, que se auto intitula defensor da moralidade. Se tiver estômago, entre lá e pergunte a eles o que vão falar a respeito do queridinho da direita quisling e golpista. José Alston Serra.  Aproveite e também pergunte por que não falam de outros corruptos que estão na crista da onda da imprensa  (européia, por que a tupiniquim não dá um pio): os outros tucanos paulistas da Alston ou a tucana Crusius, atolada até o pescoço em escândalos de corrupção no Rio Grande do Sul.


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