nov 22 2009

Palavras sobre o aborto

Categoria: Apoiamos,Ceticismo,Conto,Cultura,Educação,Saúde,Senhor do ServoSenhor_do_Servo @ 09:13

Adolf Hitler, um bebê salvo do aborto

Adolf Hitler, um bebê salvo do aborto

Dia destes, um colega meu, professor de biologia, passou um filmezinho “educativo” sobre o aborto. Resolvi, como professor de filosofia que sou, comentá-lo. O texto em itálico, de um tal Beto Brito,  é o que ele passou, na forma de um vídeo narrado em tom calma, ao som de flautas e harpas suaves e com imagens ora belas, ora chocantes. Meus comentários, em negrito.

De repente, Papai do Céu fez a luz e esta luz começou a brilhar para mim. Eu era apenas metade de uma vida.

Na verdade, foi sexo. Repentino, brusco, repleto de desejo e paixão, de vontade. Que problema há no sexo? Mesmo os padres mais imbecis e as freiras mais reacionárias, foram frutosde sexo… Sim, seus pais transaram! E desta transa, você nasceu.

Apenas um minúsculo óvulo dentro do corpo de minha mamãe, quando meu papai, no auge de seu amor com minha querida mãezinha, mandou a outra metade de minha vida e o milagre da vida pelas mãos de Deus se fez presente. Em breve serei um bebê. É mamãe, em breve serei o seu bebê.

Engraçado que, nos sermões, padres e pastores gostam é de falar de paulo e de vociferam sobre o inferno, a culpa, o pecado e o castigo. Esta história de “mamãe” e “papai” não fica bem em bocas imundas de fel, rancor e hipocrisia.

Não posso conter a ansiedade de estar no colo de minha querida mãezinha, sentindo o calor de seu corpo, ouvindo sua voz macia cantando bem baixinho prá mim:

“Nana neném que a cuca vem pegar …”

E o papai batendo nela, isso quando e se ele não fugiu. Acaso os padres e pastores querem pagar a conta, acordar de madrugada? Nãoooo. Só querem dar lição de moral, o filho foi “culpa” deles, eles que fiquem com o castigo, que se virem, não é mesmo? É impressionante como, lendo uma porcaria destas e sobretudo se ajudados por uma música com muita flauta e harpa narrada num tom suave com imagens de ternura e carinho, esses crápulas hipócritas conseguem disfarçar a ideia de que há culpa e para expiá-la, os pais devem ser castigados, criando o filho até a polícia o levar.

Eu já tenho 12 semanas. Já posso ver meus bracinhos e de vez em quando coloco meu dedinho na boca prá treinar quando a minha mãezinha estiver me alimentando, me colocando em seu colo e dando-me seus seios, um de cada vez, para que eu possa me tornar uma criança forte e sadia.

Ou não. Pode se tornar raca e doente, por que para a sua “mãezinha” te alimentar e poder ficar em casa só te servindo, pequeno imperadorzinho, ela precisa ter dinheiro. Você sabia que o mundo aqui fora é capitalista? Que se sua mãezinha não tiver dinheiro vocês ambos passarão fome e privações?

E papai. Puxa! Papai deve estar todo bobo. Todo dia quando ele estiver chegando em casa e eu já estiver andando, vou correndo com meu bracinhos abertos dar-lhe um abraço bem gostoso e dizer prá ele: Papai. Eu estava morrendo de saudade de você.

Claro, se você morasse no país da fantasia até poderia ser. Mas quantas crianças hoje, Terra, Século XXI, saem correndo para abraçar o papai quando ele chega do serviço? E outra, mané, você acha que vai ter pai? Acha que se tivesse o pleno e irrestrito apoio do pai da criança sua “mamãezinha” faria aborto? Pense: ele só transou com sua mãe, não quer ser pai porcaria nenhuma. E quem disse que sua mãe queria, necessariamente, ter um ilho com ele?

Mamãe não se preocupe. Eu vou deixar você um pouco gordinha. Mas é só por pouco tempo tá. Quando eu nascer eu vou mamar bastante e vou ajudar você a ficar esbelta muito mais rápido do que qualquer academia. E vou deixar sua pele muito bonita. Eu te amo muito mamãe.

Claro. As crianças levam quase um ano para aprender a balbuviar e com 3 meses já pensam de maneira poética. Ah, me esqueci, não é um feto que escreveu estas palavras, mas a cabeça safada e hipócrita de algum moralista religioso que tenta convencer pessoas simples de que elas seriam más se abortassem.  Ele mesmo, sabe que não tem moral nenhuma para escrever qualquer coisa, então assume o alter ego de um “feto inocente” para nos inocular veneno em meio a palavras melosas, sob medida para esconder sua verdadeira personalidade, seus vícios e seu caráter.

Hoje mamãe acordou cedo. Ela parece que está bastante nervosa. Já sei. Ela está indo no shopping. Tá indo comprar roupinha prá mim. Puxa mamãe, eu gostaria de poder dizer prá você que eu sou um menino, assim você poderia comprar roupinhas azuis prá mim. E você papai. Tá todo bobo né?, falando pros seus amigos que vai ser papai. Pode deixar paizinho. Eu vou ser um menino muito estudioso. Vou ser também muito obediente e nunca vou dar nenhum desgosto prá vocês. E o que é mais importante. Eu já amo vocês dois desde o primeiro dia que Deus me deu o dom da vida aqui dentro da barriguinha da mamãe.

Claro. Todas as crianças são assim: sempre obedientes e nunca dando desgoto para seus pais, não é mesmo? E as mães que fazem aborto em sua maioria podem acordar cedinho e ir nos shopings,q ue abrem as 10m da manhã, comprar roupinhas, não é mesmo? Afinal, dinheiro e tempo elas têm de sobra! E o pai dos fetos abortados são sempre todos bobos, acariciando as mães. Que mundozinho lindo, não é mesmo? Lindo, falso, mentiroso, enganador  como uma nota de 3 dólares! Não é assim que o mundo funciona e o hipócrita que escreveu isso sabe disso e só diz estas palavras por que sabe as raízes reais do problema. Procure no texto, uma vez sequer, a palavra “dinheiro” e veja se acha.

Puxa. A mamãe tá parecendo tão nervosa. Mamãe não precisa ficar nervosa não. Compra uma roupinha branca mesmo. Puxa eu tô tão feliz. Gostaria muito de dar um abraço na minha mamãe e dizer pra ela. Mamãe eu te amo muito. Tô louco prá sair daqui logo e te encher de beijinhos. Só faltam 6 meses.

Mais uma vez outra dose cavalar de patético e de piegas, e nenhuma vírgula sobre a verdade. Sobre mães que seriam abandonadas pelos pais, pelo namorado/pai da criança, o dinheiro que custa sustentar um filho. Por que, o salafrário que escreveu este texto não menciona isto? Mas, já que que por safadeza ele não o faz, o farei: basta clicar aqui e você, que me lê, verá o que o autor do texto esconde, que é o quanto custa criar um ilho.

Que silêncio. Esta loja de roupinhas de nenêm tá tão vazia. Será que a mamãe entrou na loja certa.

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Papai do céu. Mamãe não me trouxe em uma loja de roupinhas de neném. Meu Paizinho do Céu querido, me ajuda a dizer prá mamãe para ela não fazer isto comigo. Eu sou tão pequenininho. Não tenho nenhuma chance de defesa. A única chance que tinha de viver eu vou perdê-la em instantes. Mamãe não quer que eu venha ao mundo. E eu nunca vou ouvir sua voz macia cantando prá mim “Nana neném que a cuca vem pegar”. E muito menos vou adormecer em seus braços sentindo o calor de seu peito. E papai. Puxa papai prefere a comodidade de não ter uma responsabilidade. Puxa como eu gostaria de dizer a ele que quando eu crescesse eu iria trabalhar bastante para poder cuidar dele quando velhinho. Mas eu não vou ter esta chance. Minha mãe e ele já decidiram. Se ao menos eu pudesse dizer a ela: Não mamãe. Não faça isto. Eu te amo muito. Não mate o fruto do seu amor que no momento mais sublime deste mesmo amor se fez vida e te pede apenas a chance de poder viver.

Hahaha. Me fale quantos filhos pensam em trabalhar bastante para ajudar os pais quando eles forem velhinhos? Você, que me lê, trabalha é para isso? O autor hipócrita joga com a hipocrisia de todo mundo para criar uma catarse hipócrita coletiva. Ele finge que o que escreveu é a realida e o leitor finge que é assim que ele mesmo pensa.

Não adianta. Mamãe não pode me ouvir. Este homem vestido de branco que carrega os instrumentos da morte em suas mãos já começou seu trabalho. Hipócrates lhe ensinou a salvar vidas e ele preferiu, em troca de valores que lhe trarão riquezas materiais, mas nunca a paz de seu espírito, retirar a vida de quem nunca lhe fez mal algum, apenas implora dentro útero de minha querida mãezinha uma chance de viver. E esta chance ele já começou a me negar. Adeus papai. Adeus mamãe. Eu nunca vou esquecer de vocês, mesmo sabendo que vocês não me amaram o suficiente para me deixar viver. Mamãe não está numa loja de roupas de bebês. Ela está numa clínica de aborto.

Para começar, Hipócrates morreu há milênios e esta figura de retórica para tentar  culpar os médicos é ridícula. Aliás, se o jogo é relembrar o passado,  aproveito para clarear aqui algumas passagens pouco conhecidas sobre  Pio XII, Martinho Lutero ou mesmo Alan Kardec. Por que não cita estes três senhores como exemplos de amor filial? E outra, um médico que realiza a vontade de uma mulher pode sim estar salvando vidas. Estatisticamente, ainda que nem todos os fetos de bebês não desejados  sejam Hitlers em potencial, a maioria dos ladrões, bêbados criminosos e assassinos, reitero, foram filhos indesejados. Então ele pode ter salvo a vida de um parente seu que ainda nem nasceu ao realizar um aborto. Aqui o safado ataca os médicos. Por que não vai ao ponto e diz que você é contra o direito das mulheres de decidir?  Por que não ficaria bonito em meio a tanta pieguice, não é mesmo?

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Acabou. O meu sonho de ser uma criança, de ter uma família está indo para a lata do lixo, junto com o resto do meu corpinho. Meu Paizinho do céu. Como teu amado filho Jesus Cristo disse à cruz, eu vos digo também com a força do último suspiro que me resta. Perdoai-os. Eles não sabem o que fazem.

Por fim, o grand finale para a palhaçada. Eles sabem sim o que fizeram. Foram coerentes e corajosos. É óbvio que o o infeliz que escreveu esta porcaria sabe que a maior parte dos presos são filhos indesejados e que a mínima parte dos alunos e pós-graduação o são. A maior parte dos assassinos, dos ladrões, dos seres marginais e violentos, oram filhos indesejados. Não tivessem nascido e o mundo seria melhor. E Hitler? O que custou à humanidade a mãe dele não ter feito um aborto? E Stalin? Mao-Tse? Se a mãe de Judas Iscariotes tivesse feito um aborto…

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ago 21 2009

Goiás: Tico-Tico no Mesmo Fubá

Categoria: Ceticismo,Conto,Política,Vera L. SilvaVera L. Silva @ 18:16

Monteiro Lobato disse que “há  dois  modos de escrever. Um deles  é dizer  desassombradamente o que pensa, dê onde der, haja o que houver: cadeia, exílio, forca.”

E eu, li em um jornal portguês a opinião de alguém,   que não me lembro o nome  mas que gostei muito,  que dizia da   sua terra e seus políticos como se do   meu  Estado e nossos políticos o estivesse,  exatamente.  E  faço minhas as suas palavras, que  discorria… Um estado  sem rumo, projetos,  dinheiro nem lideranças confiáveis…  Esse o retrato de Goiás do PSDB do  descalabro e hoje os tucanos  tentam  escorar-se nos mandatos passados. Pudera! Oito  anos de desgoverno, oito  anos em que Goiás  parou e eis que  o mocinho da camisa azul  voltou a ter projetos, ambição,  traçar rumos,  idealizar obras,  porque  ” tem  força política para conseguir mais para Goiás”. E  do ninho sai  o grito: “Fizemos muito por Goiás e vamos terminar  o que começamos!” Deus nos livre!

Estamos a  mais de  1 ano das  próximas eleições e nada muda, a mesmice   acontece – o  político apela aos eleitores para cumprirem o seu “dever cívico”  enquanto, também como é de costume, não dá aos cidadãos condições para um voto esclarecido, consciente, bem informado.  Pelo contrário, pedem-nos que votemos às cegas neste ou naquele partido, num ou noutro candidato. Ora, o jogo democrático não se resume a votar num cabeça-de-chapa  porque é mais simpático,  tem melhor discurso,  tem maior vocação para se fazer de  mártir ou um ar de verdadeiro senador, governador,  ministro…  Ser cidadão é  muito mais do que ir votar  e “seja o que Deus quiser”.  Um processo eleitoral digno  exige  dos candidatos  propostas concretas, objetivos precisos e comprometimento  rigoroso com os anseios do eleitor.

Mas eis na mídia, de  novo, a  mesma  bandalheira:  os  mesmos candidatos colocando  os interesses da maioria atrás  dos privilégios da mesma minoria – os tais “cabeções”, os tais “costas largas”, os tais bundas-quente.  É sobre questões como estas que partidos e candidatos devem comprometer-se, ao invés de perderem tempo com campanhas de escárnio e maldições. Queremos propostas e debates. A não ser assim, para quê votar?

Aquele alguém disse que… quando, para  proveito próprio, políticos  largam seus partidos e pulam para outros ninhos se dizendo “injustiçados”, como vem  acontecendo com  alguns membros do PMDB goiano que, na calada da  noite, negociam apoio com o tucano Marconi Perillo; o  sistema partidário, como um todo, murcha e só  uma coisa fica clara – estes políticos não servem ao povo.  Estes políticos  não defendem os interesses do povo.  Estes políticos  não se preocupam com o povo. Pelo contrário, ocupam-se, isso sim, nos seus jogos de poder, em mesquinhas disputas, características da baixa política. Como exemplo, basta ver a forma como têm  agido,  disparando palavrões  a torto e a direito e atacando com os chinelos do pé através de uma mídia bem  paga  – e descredibilizada.

Triste o povo a quem propõem tais elementos! Mais triste  ainda  o povo a quem um  senador tucano quer obrigar a votar porque “Goiás precisa dele”. Assustador. Claro que tudo isto faz sentido num Estado  em que  a justiça tem na gaveta processos  podres contra ex-governador  acusado por senador que  acusa governador que  rebate acusações de deputado que tem processos  nas gavetas da justica que… enquanto há tão poucos que  defendem  realmente  os interesses  reais do povo.

Talvez todos estes atentados à nossa dignidade nos fossem mais leves se a canção de Mercedes Soza e Beth Carvalho, “Eu só Peço a Deus” ou  de Chico Buarque “Apesar de Você”, tocassem  nas rádios, fossem  apresentadas na TV.. mas  não  são.”

Uma cidade   sem rumo nem projetos, endividada, sem dinheiro nem  lideranças que mereçam confiança.   Esse o retrato de Catalão quando o PMDB   a pegou para  transforma-la na segunda em  qualidade de vida do estado (58ª do país) e  terceira com maior PIB (10 mil dólares de renda per capta).  Este  o retrato fiel  dos  anos de desgoverno, os  anos em que Catalão  parou, feia, suja, pobre,  violenta e desmoralizada… e eis que  as crias do mocinho da camisa azul  voltam  a ter projetos, ambições,  traçarem  rumo, idealizarem  obras, porque  “têm  o apoio do senador Marconi Perilo”. E faço a  pergunta  a quem puder responder:  o senador  Marconi Perillo, tem o apoio de quem?! Do  presidente Lula sabemos bem que não.  Do  governador Alcides Rodrigues não tem. Do prefeito Velomar Rios,  não… quem apóia  então  o senador Marconi  Perillo para que estes acuda os seus, afinal? Acaso a voz rouca das ruas? Ora, essa sabemos  também que não.

O recado vai então para  o PMDB:  é hora de uma releitura na política goiana. Opções, temos muitas,  umas naturais, outras negociadas e outras novamente empurradas goela abaixo, como Henrique Meirelles… Alcides Rodrigues, Marconi Perillo, e O Cara , Íris Rezende…   ainda bem que temos a liberdade do voto, pelo menos.  Mas  não queremos crer que o PMDB voltará  a  insistir  no velho, na mesmice  e desistirá do novo – e do governo de  Goiás, porque, ao fazer isto, a derrota nas urnas é ameaça real.

O povo etá cansado, cheio, farto do  MESMO, qualquer que seja  a sua roupagem – é isso que deve ser entendido! Simples assim. Mesmos discursos, mesmas negociatas, mesmos candidatos, mesmo… mesmos… mesmo.

Por outro lado, o fru-fru que acontece no  ninho tucano goiano  nos anima um pouco. Sim, porque em  ninho tucano ratos têm morada livre. E em  ninho tucano,  ratos têm asas e  tucanos,   bico…  mesmo.


ago 10 2009

A incrível história de Meyrel Fyaramund

Categoria: Conto,CulturaSenhor_do_Servo @ 16:32

Cavalgar, cavalgar, cavalgar. Atrás de si somente lama e a frente uma chuva fria e interrompida apenas pela proteção frágil e descontínua que ofereciam as grandes árvores daquele planalto estranho. Quando saíra? Três, quatro noites atrás? Como saber se a floresta densa e a chuva continuada não a permitiam ver o Sol? Cavalgar.

Atrás de si, o que deixara? Febre. Medo. Como fora parar lá? Ah, as promessas. Sim e por que não acreditar, ela pensava.  Na época tudo fazia sentido. A virgem e inexplorada América. Pai, mãe e os dois irmãos. Guayaquil lhe parecera uma cidade animada, mas a viagem até Quito anunciou os desafios que a nova terra lhes imporia. Fazia muito frio e era tudo muito seco. A ferrovia terminava ali. Compraram 5 cavalos. Seguiram.

A cordilheira se tornara menos hostil, mas principiara a floresta. O ar seco fora substituído, primeiro por uma garoa leve, depois uma chuva intermitente e por fim, pelo dilúvio. Todo o mês de março. Novembro, dezembro, janeiro.  A terra era fértil, o cafezal vicejava em folhas tão verdes que embaraçavam a vista, como num mar de esmeraldas. Chovera todos os dias no primeiro ano. O café florescera dois anos e meio depois.   A chuva não cessara neste período.

Foi na colheita que percebera. Seus pais haviam se tornado um pouco pálidos, como também seus dois irmãos.  Colheram o café com apoio de índios aculturados da vizinhança. Vinte pesos o dia, o dobro do que pagavam os fazendeiros da região, pelo que trabalhaaraam com mais afinco. O Café fora colhido: grãos amarelos dourados e vermelho rubis se confundiam num todo multicolorido. Como não parava de chover havia três anos, secou-se-o em galpões e foi vendido a bom preço.

Está certo que Meyrel era por si loira e portanto branca, como igualmente, seus pais. Mas eles, como seus irmãos, estavam mais brancos que o que parecia ser comum. Até que as flores vieram: orquídeas, milhares delas, e colibris multi-cloridos, a brilhar mais ainda com a chuva que caía  já há 4 anos. E no meio de tanta cor, o cafezal florira e havia também perfume, magia.

Por fim, como que em um sonho, Meyrel vira, em meio ao cafezal, umaa pedra límpida, transparente. Brilhante. Hipnotizada, fora correndo levá-la a seu pai. Só então percebeu que eles não mais estavam lá, mas apenas seus reflexos, muito tênues. No espelho. Na janela um pássaro lhe dissera o que fazer. Era preciso parar a chuva.  Para isso o cavalo, arrear rápido. Uma semana, quantos dias? Não sabia.

Cavalgar, cavalgar, cavalgar. Cavalgar.

Ali se encontrara, debaixo de uma árvore imensa. Apeou do cavalo. Começou a subir. Metro a metro, sob chuva. Uma hora, duas. chegara nos galhos mais altos. Não, não era o bastante. Mais 10 metros, o dia chegara. Talvez; as nuvem de sempre  cobriam tudo. E eis que, há 70 metros do chão, vira a flor. A única, seca, que havia visto desde que chegara àquela floresta.

Fora do alcance. Sem pensar, ela pulou, e no início da queda, pegou-a, agarrando forte e tomaando a para si. Junto ao peito. Sete segundos de queda, em meio agalhos e flores e folhas. E chuva. Vira, na eternidade do último instante toda a sua vida, passar bem devagar. E sentira vontade de comer morangos, como sempre o fizeram, na infância.

No último segundo, a impressão nítida: ela estava caindo na direção da lua. Mas não. Era um lago, o que vira fora um reflexo. A lua, se confundindo ocm o dourado de seus cabelos. Era tudo luz, até que imergiu naquela escuridão tranquila e calma. Profunda. O  momento de sonho passa. Lhe aparecem duas mãos.

_Eu estava te esperando. Há muito tempo… Nunca percebeu como eu chorava?

E então, a noite morreu em um beijo suave, mas intenso. A luz retomara outra vez o céu e um arco-íris anunciava uma promessa mais feliz. Seus pais saíram do espelho e o brilho do  Sol esperava os dois, no cafezal.


jul 09 2009

José Serra: da incompetência à mentira

Categoria: Conto,Internet,Mídia,Política,SaúdeSenhor_do_Servo @ 16:30

Dessa vez eu não resisti. Li no Blog do Favre a íntegra da  tal matéria de um certo Jamil Chade, do  O Estado de São Paulo, comentando e entrevistando o mentiroso e cara de pau do Serra, sobre o prêmio que ele recebeu de uma tal Organização Mundial da Saúde, presidida por uma senhora cuja folha corrida está no segundo post abaixo deste. Resolvi, para deleite dos meus 4 leitores, colocar uma série de links na matéria. Para que ela, ao contrário da origiginal, diga a verdade. Leia e clique: será uma experiência interessante, tanto a respeito do José Chirico quanto a respeito deste jornal que anuncia que no  primeiro mes de assinatura você pagar o que achar que deve. Quer um centavo emprestado?

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), alertou ontem que o orçamento para a saúde no Brasil “não é suficiente” e que os próximos anos serão marcados por aperto fiscal diante da crise. Em uma sala da ONU em Genebra, Serra recebeu um prêmio de uma entidade internacional e fez um discurso em tom de campanha, enumerando os avanços que conseguiu como ministro da Saúde (1998 a 2002) e apontando como suas políticas de acesso os medicamentos genéricos, que hoje são “exemplos para o mundo”.

O prêmio foi dado pela Organização Mundial da Família, uma entidade internacional presidida por uma brasileira que resolveu homenagear o governador por sua gestão à frente da pasta da Saúde e suas políticas em relação à mortalidade materna e infantil. Serra, porém, deixou claro que o orçamento para a saúde no Brasil terá de aumentar. “A saúde precisa de recursos adicionais”, disse. Ele acredita que o setor conta com “o mínimo para continuar subsistindo”. “Teremos de ver isso no futuro”, afirmou.

Serra é hoje o favorito na disputa pela Presidência da República em 2010, segundo pesquisas de intenção de voto. O governador, entretanto, se recusa a falar de candidatura.

O governador disse acreditar que os próximos anos serão de queda na receita do Estado e aumento de despesas diante da recessão mundial. “Mas pelo menos a saúde está protegida de cortes que viriam num momento de crise”, disse.

A mensagem de Serra foi que os atuais recursos apenas estão sendo mantidos graças às suas políticas. “O financiamento foi central na nossa gestão”, disse, lembrando que os gastos com saúde eram um “verdadeiro colchão amortecedor das crises fiscais”. “Por isso, nos dedicamos à aprovação, difícil, mas bem-sucedida, de emenda constitucional que garantiu uma vinculação de recursos à Saúde.”

Ele criticou o fato de que, até hoje, não se aprovou a lei complementar que teria como função corrigir e monitorar os orçamentos para saúde em municípios e Estados.

Sem mencionar as eleições de 2010, Serra insistiu que o prêmio recebido é uma prova de que suas políticas tiveram um impacto internacional. “Com esse reconhecimento, você passa a ter consciência não apenas que fez uma política que deu certo, que é durável em seus efeitos, mas também uma política que teve uma influência internacional”, disse, lembrando que contrariou até o Banco Mundial para implementar sua estratégia no combate à Aids.

O ponto central foi o acesso aos medicamentos, avanços na saúde familiar e autorização para compra de genéricos. “Foi uma mudança no mercado mundial de medicamentos a partir do nosso trabalho no Brasil.”

Sobre o atual governo, Serra admite que nem todas as políticas de saúde caminharam na mesma direção. Mas foi diplomático. “Não quero criticar. Represento de certa maneira o Brasil aqui”, disse.

Serra foi escolhido entre mais de 200 pessoas. A Organização Mundial da Família também premiou a ex-primeira dama do Reino Unido, Cherie Blair, e a princesa do Kuwait, Sheikha Fariha Al-Sabah. Nenhuma das duas esteve ontem no evento. Serra estará hoje em Paris.

Quer saber mais sobre a WFO? Leia esta matéria aqui, de um jornalista que tem apreço pela verdade e não vai te aenganar para ver se consegue o seu voto. Leia a reportagem com atenção: nela se diz que José  Chirico recebeu o prêmio  em Genebra, onde fez um discurso.  Faço 3 perguntas:

1) Se sabe que ele mentiu, ele estava em uma sala alugada, aqui no Brasil mesmo. Então o repórter, e o Estadão,  mentiram também?

2) Ou para eles a palavra do José Chirico basta?

3) O que ele foi fazer em Paris?

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mai 11 2009

Eduardo Galeano: É Justa a Justiça?

As vezes as histórias erram o  fim da História, mas ela, a História,  não erra. Ao se despedir, não diz  adeus, diz até logo.

 Quero compartilhar algumas perguntas, moscas que zumbem na minha cabeça.  É  justa a  justiça? Está parada  sobre seus  pés a justiça do mundo, á  revelia? O sapatista  do Iraque, aquele que jogou os sapatos contra Bush, foi condenado a 3 anos de prisão, mas não merecia uma condecoração? Quem é terrorista? O sapateiro ou o sapateado? Não é culpado de terrorismo o serial killer que, mentindo, inventou a guerra do Iraque, assassinou um povo e legalizou a tortura e mandou aplicá-la?

São culpados os plantadores de Atenco, no México; os  indígenas  mapuches do Chile, os kekchiés da Guatemala e  os sem-terra do Brasil, todos acusados  de terrorismo por defender  o direito de possuir  a terra? Se  a terra  é sagrada, ainda que a  lei não o diga, não são sagrados também  os que a defendem?

Segundo a revista Foreign Policy, a Somália  é o lugar  mais perigoso do mundo.  Porém, quem são os piratas?  Os  mortos de fome que  assaltam  os  barcos  ou os especuladores da Wall Street, que há  anos   assaltam  o mundo e agora recebem multimilionárias recompensas  por seus roubos?  

Porque o mundo premia a quem não o valoriza?

Porque a justiça é cega somente  de  um olho? Wal Mart, a empresa mais poderosa de todas,  proíbe  os  sindicatos. A   McDonald’s também. Porque essas empresas violam  direitos, com delinquente  impunidade? Será  porque no mundo do nosso tempo, o trabalho vale menos que  lixo  e valem  menos ainda os direitos dos trabalhadores? 

Quem são os justos e quem são os injustos?  Se a justiça internacional existe realmente, porque ela nunca julga  os poderosos? Porque não vão presos os  autores das mais ferozes carnificinas? Será porque são eles quem têem as chaves dos cárceres?  Porque são intocáveis as cinco potências quem têm  direito de veto nas Nações Unidas: Esse direito tem origem divina? Velam pela paz dos que fazem negócios com as guerras?  É  justo que a paz mundial esteja nas mãos das cinco potências  que são as principais produtoras de armas?  Sem depreciar os narcotraficantes, não é este também um caso de Crime Organizado?  Mas não pedem punição contra os mestres do mundo, o grito de quem procura por toda a parte a pena de morte. Mais: o  clamor clama  contra os assassinos que usam facas  e não contra aqueles que utilizam mísseis.

E uma pergunta: já  que estes justiceiros estão loucos de vontade  de  matar, porque não exigem  a pena de morte contra a injustiça  social? É justo um  mundo que a cada minuto destina  três milhões de dólares em despesas militares, ao passo que morrem a cada minuto   quinze crianças por  fome ou doença curável? Contra quem se arma,  até os dentes, a chamada comunidade internacional? Contra a  pobreza  ou  contra os pobres?

Porque é que os fervorosos  da pena de morte não exigem a pena de morte contra os valores da sociedade de consumo, que diariamente atentam contra  a segurança pública? Ou não evitam os crimes de bombardeio da publicidade que atordoa milhões e milhões de  jovens desempregados ou mal pagos, repetindo dia e noite que se  deve ter   um carro, ter  sapatos de marca, ter, ter e quem  não tem, não é?

E porque não se implanta  a pena de morte contra a morte? O mundo está organizado ao serviço da morte. Ou não fabrica a morte a indústria militar, que devora  a maior parte dos nossos recursos e muito da nossa energia? Os donos do mundo só condenam a violência quando outros a  exercem.  E   se este monopólio da violência se traduz em um fato   inexplicável  para os  extraterrestres, é  igualmente insuportável  para os terrestres que  ainda queremos,  contra todas as evidências, sobreviver: os  humanos somos  os únicos animais especializados  em extermínio mútuo, e temos desenvolvido uma tecnologia de destruição  que está aniquilando, rapidamente, o planeta e todos os seus habitantes.

Essa tecnologia se alimenta do medo. É o medo quem fabrica  os inimigos que  justificam   as  forças militares e policiais. E se teimam  introduzir a pena de morte; que  tal se condenarmos à  morte o  medo? Não seria salutar  acabar com esta  ditadura  universal dos  assustadores profissionais? Os semeadores de pânico, que nos  condenam à  solidão, que nos  proíbem a solidariedade: salve-se quem puder e cada um por si; afastem-se  uns dos outros, o outro  é sempre um perigo que  te cerca;   este de roubará, aquele te violará;   esse  bebê  está escondendo uma bomba muçulmana e  aquela mulher  que você vê, aquela  vizinha de  aspecto inocente, ela vai te contagiar  com  a gripe  suína. 

No mundo de cabeça para baixo, faz-nos   medo  até mesmo os mais elementares atos de justiça e senso comum. Quando o Presidente Evo Morales iniciou a refundação da Bolívia, para que este país de  maioria indígena deixasse de ter vergonha de olhar-se  no espelho,  provocou  pânico. Este desafio era catastrófico  do ponto de vista da ordem  racista tradicional, que dizia ser   a única forma possível: Evo era e traria consigo o  caos e a violência,  e por sua culpa a unidade nacional iria  explodir,  ser quebrada em pedaços.  E quando Correa, o Presidente do Equador,  anunciou que se recusaria a  pagar as  dívidas ilegítimas do país,  a notícia causou terror no mundo financeiro e o  Equador foi ameaçado com terríveis castigos,  por estar  dando mau exemplo. Se as ditaduras militares e os  políticos ladrões foram sempre mimado pela banca internacional, será que temos que nos acostumar a aceitar como fatalidade do  destino que o povo pague o pau que  o  golpeia e  a ganância que o rouba?

Mas, será  que tem  sido divorciados  para sempre   o senso   comum e  a justiça? Não nasceram  para caminhar juntos, bem pregados,  o senso  comum e a justiça?

Não é de senso comum, e também de justiça, que o slogan das feministas,  que dizem que se nós, os machos,  ficássemos   grávidos, o aborto seria legalizado? Por que não legalizar o direito ao aborto? Será porque ele então  deixaria  de ser o privilégio das  mulheres que podem  pagá-lo e dos  médicos que  podem cobrá-lo? O mesmo acontece com outro escandaloso caso de negação de justiça e do  senso comum: por que não se legalizar a droga? Acaso ela não é, como o aborto, uma questão de saúde pública? E o país que mais tem drogados, que autoridade moral para condenar aqueles que abastecem sua demanda? E porque os grandes meios de comunicação,  que  consagram a guerra contra o flagelo da droga, nunca dizem que  provém do Afeganistão  quase toda a heroína consumida no mundo? Quem manda no  Afeganistão? Não é esse um  país militarmente ocupado pelo  messiânica país que se atribui a missão de salvar a  todos?

Porque não legalizar as drogas uma vez? Não  será porque as drogas são o  melhor pretexto para as invasões  militares,  e servem para sustentar  a ganância dos  grandes  bancos que a noite  trabalham  como lavanderias?
 
Agora o mundo está triste porque se  vendeu menos automóveis. Uma  das consequências da crise mundial é a queda da próspera indústria de  automóvel. Se tivéssemos algum resto de  senso comum, e algum sentido de  justiça, não teríamos  de celebrar essa  boa notícia? Ou será que a diminuição da venda de automóveis  não é boa notícia, do ponto de vista da natureza, que estará um pouquinho menos envenenada, e dos peões,  que vão morrer um pouco menos?

De acordo com Lewis Carroll, a Rainha explicou à  Alice como funciona a justiça no país das maravilhas:
 - Aí o tem  -  disse a Rainha -  Está encerrado no cárcere, cumprindo sua condenação,  mas o julgamento não começará  até à próxima quarta-feira.
É claro, o crime será  cometido no final.

Em  El Salvador, o  arcebispo Dom Oscar Arnulfo Romero comprovou  que a justiça, como a serpente, só morde  os descalços.  Ele morreu a tiros,  por denunciar  que em seu país  os descalços  nasciam  já condenados,  pelo delito de terem nascidos. O resultado das recentes eleições em El Salvador, não é de alguma maneira  um tributo? Uma homenagem ao arcebispo Romero e os milhares  que, como ele,  morreram  lutando por uma justiça justa  no reino da injustiça.

As vezes as histórias erram o  fim da História, mas ela, a História,  não erra. Ao se despedir, não diz  adeus, diz até logo.

Eduardo Galeano – 5 de Mayo 2009


abr 30 2009

Gripe suína: a marola

Categoria: Conto,Internacional,MídiaSenhor_do_Servo @ 22:50

por Luiz Carlos Azenha

Lá vamos nós, de novo, embarcar na montanha russa da mídia. Agora é a vez de você, caro telespectador, curtir todas as emoções da gripe seja-lá-como-decidiram-batizá-la.

Uma amiga, no México, me liga: e aí? Fique tranquila. Você não vai pegar gripe. Como assim? Respondo: quantos casos OFICIAIS existem no México? Algumas centenas? Ora, se a Cidade do México tem 22 milhões de habitantes a chance de você pegar a gripe E morrer é tão grande quanto a de acertar na Mega Sena. Oficialmente, ao que eu sei, são menos de 10 mortes no México, que é o epicentro da “epidemia”.

Além disso, as chances de você se recuperar da gripe são grandes. É só comparar a relação casos confirmados/mortes no México ou fora dele.

Quantas mortes a malária causa anualmente? Um milhão. Isso mesmo: um milhão de pessoas morrem de malária, doença de pobre, todo ano. É por isso que minha amiga, ao circular na periferia da Cidade do México, descobriu que ninguém usa a máscara. O mexicano comum sabe que é mais provável que morra “atirado” ou atropelado do que de gripe.

Nos próximos dias, teremos todas as manchetes óbvias sobre os bebês, os anões e as mulheres grávidas que pereceram diante da “nova” enfermidade. Meu coração ficará com as vítimas e suas famílias. Nunca com os repórteres que vão fingir preocupação diante de hospitais e centros de pesquisa. Eles estarão a serviço do “espetáculo da gripe”, assim como estiveram, não faz muito tempo, a serviço do sacrifício ritual da adolescente Eloá.

“Mas, Azenha, você não acredita na TV?”. Costumo dizer que cobro um preço para fazer TV. Para assistir custa mais caro. Não suporto mais “indignação”, “preocupação” e “emoção” ensaiadas, de estúdio, essa farsa repetitiva que ocupa o espaço entre dois comerciais.

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No mesmo sentido:

Começa a cair a ficha. Agora, deu no New York Times. Ou seja, em uma semana a mídia brasileira começará a mudar sua cobertura. Depois, é lógico, de aparecer o primeiro caso confirmado no Brasil. Depois de entrevistarem os parentes e os vizinhos do brasileiro doente, de mostrarem o álbum de família e depois que ele (ou ela) for curado de… gripe. Será o gripado mais famoso do Brasil:

por DENISE GRADY e LIZ ROBBINS, no New York Times

Em 1o. de maio, 2009

A epidemia de gripe suína no México pode ser consideravelmente menor do que originalmente temido, resultados de testes divulgados na sexta-feira indicam.

De 908 casos suspeitos que foram testados, somente 397 pessoas tinham o vírus, oficialmente conhecido como influenza A (H1N1), autoridades de saúde do México relataram em entrevista coletiva. Destes, 16 morreram.

O México havia falado em 2.500 casos suspeitos até sexta-feira, mas o número real de casos pode ser menos da metade se novos testes confirmarem a tendência dos iniciais.

[...]

“Estamos continuamente avaliando novas informações mas ainda é muito cedo para tirar conclusões sobre a extensão desse novo vírus no México ou sobre a gravidade da doença causada por ele”, disse a dra. Nancy Cox, chefe da seção de gripe [do Centro de Prevenção de Doenças, o CDC americano], por e-mail, quando foi pedido que comentasse o resultado dos testes.

Autoridades da Organização Mundial de Saúde, que declararam que uma pandemia era iminente, se negaram a comentar além de dizer que a investigação dos casos continua.

Mas um especialista em saúde pública e doenças infecciosas da Universidade de Vanderbilt, dr. William Schaffner, disse que os resultados dos testes “vão mudar, de forma substancial, a imagem da epidemia no México”.

Se ela for muito menor do que inicialmente se imaginava, o dr. Schaffner disse, “deveria, penso, fazer a comunidade de saúde pública mundial respirar profundamente e continuar a seguir os acontecimentos, reduzindo a tendência da OMS de usar sua tabela de classificação de pandemia”.

Se os testes também demonstrarem que a doença causou menos do que as 170 mortes suspeitas, disse o dr. Schaffner, pode resolver uma questão que tem confundido os especialistas em saúde pública desde que a epidemia começou: por que a doença parece muito mais severa no México do que nos Estados Unidos? Nos Estados Unidos os casos tem sido leves e houve apenas uma morte, de uma criança de 23 meses vinda do México.

Quer informação séria sobre a “epidemia”? Clique aqui.

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abr 26 2009

O que eles ladram…

São dois discursos pesadamente anti-iranianos, que mostram o quanto os sionistas da mídia pró-israelense [melhor, da mídia a serviço _ e quiçá a soldo_ do Estado de Israel], um  do tristemente célebre caluniador Diogo Mainardi, este bufão da extrema direita que tem os miolos moles e as idéias ocas e outro do Arnaldo Bloch, a quem não se pode acusar de  ser uma toupeira, apenas de colocar o seu povo acima da sua espécie. Não os publicarei na íntegra. O primeiro por que o Mainardi me dá ânsias de vômitoe o segundo por que o primeiro parágrafo repete a ladainha escrita pelo Mainardi.

Além disso o blogue é meu e EU NÃO SOU NEUTRO: APROVO INCONDICIONALMENTE A CRIAÇÃO DE UM ESTADO PALESTINO e esses caluniadores, mentirosos e defensores ardorosos (o termo aplica-se somente ao Bloch, fique-se claro) já tem espaço mais que suficiente na mídia sionista. Então, comecemos o show de horrores com o texto do Diogo Mainardi, da CRIMINOSA, MENTIROSA, MANIPULADORA E A SERVIÇAL DO CRIME ORGANIZADO a nefasta ÓIA:

Mahmoud Ahmadinejad desembarca no comecinho de maio. Ele foi convidado por Lula. Uma semana atrás, num congresso da ONU, o presidente iraniano acusou Israel de racismo. Dois dias mais tarde, voltou ao assunto, acusando Israel de praticar limpeza étnica e o assassinato em massa dos palestinos. Ele já anunciou qual é a sua proposta: eliminar Israel da face da Terra.

No congresso da ONU, em protesto contra o discurso de Mahmoud Ahmadinejad, os representantes europeus abandonaram a sala [MENTIRA: REPRESENTANTES DE 9 PAÍSES FIZERAM A PRESEPADA, OS DE 180 OUTROS PERMANECERAM](…). Quando Mahmoud Ahmadinejad chegar ao Brasil, podemos imitar os representantes europeus e abandonar o país por alguns dias. Ele deseja ir à Fiesp? A Fiesp estará fechada. Ele pretende conhecer a Praia de Copacabana? Copacabana estará deserta. Para recepcioná-lo, ele encontrará somente os apaniguados do PT e os ongueiros.

(…)Lula poderia ao menos condenar algumas das práticas mais repelentes do estado iraniano: o apedrejamento de mulheres, os abusos contra as minorias religiosas, o assassinato de homossexuais, o encarceramento de políticos, a censura à imprensa. O que Lula fará quando se encontrar com Mahmoud Ahmadinejad? Simples: ele ficará sentado, calado, como um pai de santo mangueirense num congresso da ONU.

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Nota: Arnaldo Bloch não é um falastrão a serviço do Dantas e do crime organizado, então, a não ser pelo primeiro parágrafo _que eu cortei_ o texto dele é duro, mas vê-se que produto de uma inteligência, não fruto de sabe-se lá que interesse. É óbvio que eu não concordo com ele, mas admiro sua tenacidade e inteligência mal orientadas.


[O discurso de sempre: o Irã é a encarnação do Mal supremo...] O novo profeta do apocalipse carrega consigo uma penca de votos valiosos dentre as nações onde impera o fundamentalismo islâmico. De quebra, na trilha do unilateralismo pregado por Obama, receber o presidente iraniano seria uma oportunidade de alinhamento global, e um combustível a mais nos planos do presidente Lula de desempenhar, futuramente, um papel importante nas negociações pela paz no Oriente Médio. (…) Sabe-se que o último discurso de Ahmadinejad não interromperá a cruzada diplomática norte-americana, em busca do apoio do Irã no Afeganistão.


Sabe-se, igualmente, que se o recém-empossado primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, não afirmar em breve compromisso com a solução de dois estados para o conflito na região — apoiada por todos os israelenses e judeus de bom senso — a plataforma de Ahmadinejad sairá fortalecida até que ele e Bibi caminhem juntos para a guerra e a era Obama comece, prematuramente, a minguar. Tudo isso são peças no difícil xadrez da geopolítica atual.

Não fosse carreada por interesses escamoteados, não haveria, contudo, esse entusiasmo todo, essa sensualidade, essa pressa pela presença nefasta de Ahmadinejad no Brasil. Por que não convidar um Dalai Lama, cuja fuga e exílio fizeram 50 anos recentemente?


Se não são os votos para o Conselho, o que traz Ahmadinejad ao Brasil? Alguém acredita que sua visita transcorrerá num clima de congraçamento, de visões progressistas de futuro, de grandes acordos de cooperação comercial e cultural? Como ficará o tema dos Direitos Humanos, sendo o Irã um dos países mais alvejados pela Anistia Internacional? Alguém acredita que sua visita escapará de se transformar num circo midiático, que o líder iraniano aproveitará a seu bel-prazer para disseminar ódio, atrair simpatias desinformadas,dar munição ao radicalismo, encher o saco de farinha onde se misturam, indiscriminadamente, causas sociais legítimas com o crème-de-la-crème do obscurantismo, no tempo em que a História perde sentido e reina uma grande maçaroca pós-ideológica?


Lula, que nem aceita rediscutir a visita, promete dar um pito no colega. Deixar clara sua discordância. Se isso de fato ocorrer, terá que abrir espaço para o contradito, ou seja, mais lenha na fogueira do discurso do confronto. Quem terá a palavra final? O anfitrião ou o visitante linguarudo, que nada tem a perder?


Ao não se retirar do plenário da conferência em Genebra, o ministro Edson Santos intentava não contribuir com a polarização das discussões e não ajudar o presidente iraniano em sua busca por chamar a atenção. Este discurso naïf (independentemente da postura das delegações, a fala de Ahmadinejad seria a escolhida da mídia para figurar nas manchetes) sempre se confunde com o ceticismo dos que viam nas primeiras arruaças nacional-socialistas a ação de palhaços narcisistas que em nada ameaçavam a solidez dos princípios morais do estado alemão. Uma vez que a retórica de Ahmadinejad — num foro mundial que, felizmente, ao contrário do que vige no Irã, não oprime o direito à expressão livre de ideias — soou e soará, a retirada de representantes ao menos contrapôs à infâmia uma postura, um outro falar, mesmo que óbvio, mesmo que repisado, mas necessário. Nessas horas, a herança do Émile Zola de “J ’accuse” é honrada e renovada.


Agora, com a visita de Ahmadinejad, as autoridades pátrias terão a chance de, querendo ou não, promover a maior polarização possível e ajudá-lo a chamar o máximo de atenção. De resto, é esperar passar esta etapa dolorosa para os descendentes brasileiros de vítimas do Holocausto e para todos os que amam a razão. Por outro lado, que o novo governo israelense rompa o isolacionismo e se una às nações que rejeitam Ahmadinejad: um estado palestino é o único caminho para a paz e a paz é, de fato, a meta. Só assim o isolamento do líder iraniano será cristalizado.


abr 07 2009

A Parteira e o Presidente

Categoria: Conto,Crônica,Cultura,Educação,Vera L. SilvaVera L. Silva @ 23:11

Edson Democh é catalano, neto de  avôs paternos e maternos vindos da Síria, criador da Fundação Cultural de Catalão,  Odontólogo, Historiador e Escritor e hoje nos  presenteou com este texto inédito que  estará nas  páginas de seu   próximo livro, a ser lançado em breve.

A PARTEIRA E O PRESIDENTE

Estava eu, procurando material para compor o meu livro 1810, quando encontrei  dezenas de histórias orais. Algumas podem não ser importantes para a história, mas são para o folclore e até para a comicidade.  A que narro é talvez a mais bizarra e também a mais dramática.  O cenário para a mesma são as cidades de Vila Boa e a recém criada Catalão e  nos foi contada por uma das descendentes do então Presidente da Província de Goiás, Sr. Francisco Januario da Gama Cerqueira, que governou  Goiás nos anos de 1857 a l860. Foi ele que assinou o decreto de elevação de Vila à Cidade de Catalão.

Logo após o decreto que deu à Catalão a condição de cidade, o então Presidente da Província de Goiás, sabedor de todas as dificuldades e situações da nova cidade, quis fazer uma visita de cortesia a antiga Vila do Catalão. Tanto lá como em Catalão,  haviam pessoas a favor e contra a elevação da Vila em cidade.

O Presidente então reuniu seus auxiliares e acertou com eles como seria feita a visita. O primeiro problema foi como ir a uma cidade com tanta pobreza, com um povo que se vestia muito mal para receber tão altas autoridades. Após algumas discussões, um dos presentes perguntou se o Palácio havia recebido os tecidos, calçados, rendas, lãs e perfumes e outros, vindos das lojas da rua do Ouvidor no Rio de Janeiro e que abasteciam os altos funcionários da administração. Diante dê uma resposta positiva, ficou resolvido que todo o material desde vestiário a alimentação, seria enviado para as pessoas mais ilustres e as que formavam o governo de Catalão, para que os mesmos se apresentassem bem na visita do Presidente. Os materiais foram enviados com antecedência de dois meses, juntamente com costureiras, alfaiates e cozinheiros.

O dia da partida chegara. Tudo estava preparado no dia 8 de Dezembro do ano de N, S. Jesus Cristo de 1859, após a missa em louvor a Nossa Senhora da Conceição (era feriado).   Ao som de banda de música, fogos e vivas, o cortejo sai da igreja da Boa Morte. A comitiva era composta de 30 pessoas. As liteiras traziam as principais autoridades e os demais vinham a cavalo. O avanço era lento, devido as chuvas do mês de dezembro.

No terceiro dia de caminhada, ao entardecer, a esposa do Presidente é acometida de uma alta febre. Acamparam-se e durante toda a noite tentaram abrandar aquela febre, mas nada amenizava aquela enfermidade. Resolve então o Presidente retornar a Capital, mas vem logo a pergunta: o que falar para o povo de Catalão, já que tudo estava preparado para a grande festa?  Como o Presidente e seu mulher não eram conhecidos fisicamente fora da Capital, resolveram escolher dentro da comitiva uma pessoa com aparência próxima a do chefe da província. Prepararam o cidadão, vestiram-lhe as roupas e botaram em sua cabeça um grande chapéu de feltro preto que escondia todo o seu rosto. Os dias de permanência na cidade foram reduzidos em dois dias para que não se levantasse suspeitas.

A comitiva seguia normalmente para Catalão, enquanto uma outra,  já reduzida, voltava para a capital levando a enferma e o seu esposo. Já estavam bem adiante com o falso Presidente, quando perceberam que não tinham providenciado uma mulher para substituir a mulher adoentada. Como não havia nenhuma  na comitiva que pudesse substituir a esposa adoentada, mandaram  um soldado a frente com a missão de encontrar rapidamente uma mulher na cidade para fazer o papel da outra e que lhe pagasse muito bem pelo silêncio da encomenda.

Não foi difícil encontrar a pessoa. Alguns quilômetros à frente, uma mulher com um embornal debaixo do braço andava apressadamente pela estrada. O soldado, ao se aproximar daquela mulher assustada e chorando diante daquele homem fardado,  foi logo se identificando: sou um soldado do Palácio do Conde dos Arcos e preciso dos seus serviços. A mulher, ainda assustada, diz que é uma parteira e tinha ido ajudar uma comadre a dar a luz. O soldado então lhe conta o acontecido e diante de um bom pagamento ela aceita a proposta de substituir a mulher do Presidente e como iria  ficar alguns dias fora de casa em razão da sua profissão, ninguém iria notar a sua ausência -  e também a sua presença.

Trouxeram a mulher até a comitiva e após as instruções, ela é vestida com o requinte de uma dama do paço e como fizeram com o homem, botoram em sua cabeça uma rica mantilha valenciana que lhe cobria grande parte do rosto.

O dia chegou. O cortejo vindo de Vila Boa entra na cidade, percorrendo as ruas maltratadas lentamente. Algumas ruas onde moravam as pessoas mais importantes estavam discretamente ornamentadas. Fogos, músicas e vivas se ouviam por toda parte. O sino da igreja anunciou quando o cortejo chegou ao local das cerimônias. Após vários e cansativos discursos, o Intendente anunciou que à tardinha haveria os cumprimentos do povo às autoridades visitantes e em particular as mulheres iriam fazer uma bela homenagem com flores à grande dama de Goiás e que também logo após os cumprimentos aconteceria o grande baile.

Não é preciso dizer o espanto causado na comitiva diante daquele aviso. Várias tentativas foram feitas para que aquela cerimônia não acontecesse, mas foi inútil.  A noite chegou e as filas para os cumprimentos eram cada vez maiores. Na fila das mulheres o burburinho era maior e uma delas chamava atenção pelo jeito estranho de se movimentar e de se vestir;  trazia nas mãos um ramalhete dê flores roxas e uma fita preta amarrando as mesmas. Na cabeça um véu preto cobria-lhe parcialmente o rosto.

Dentro das salas onde acontecia aquela cerimônia, a luz das velas e das candeias era bem fraca para ajudar na farsa. Aquela mulher  estranha permanecia calada, mas foi indagada por uma das mulheres soabre as suas roupas escuras naquela festa  Ela respondeu que tinha vindo da roça e não teve tempo para fazer uma roupa nova, pois tinha ficado viúva há pouco tempo e então estava usando a sua melhor roupa.

Aquela mulher na verdade era um homem e se chamava Vicente. Ele tinha vindo a morar em Catalão oriundo de Vila Boa depois de um grande atrito familiar entre ele e a mulher do Presidente da Província, pois ele era irmão da mesma por parte de pai, situação que ela sempre negara. Devido as humilhações que ela o fez passar,  ele jurou matá-la e aquele momento era ímpar na sua vida para cumprir a promessa.

Debaixo das saias que usava, escondia um punhal,  que  tirou e escondeu entre as flores.  Ao chegar a sua vez de fazer os cumprimentos, ele rapidamente esfrega as flores no peito da mulher e ao mesmo tempo penetra o punhal  que estava escondido entre as flores no coração da mesma, matando-a imediatamente.

Quando ele se prepara  fugir, o corpo da assassinada cai e na queda a mantilha que cobria o seu rosto o descobre e alguém grita: é a comadre Zefa! Um silêncio se fez. Vicente, tirando a roupa de mulher, viu que tinha matado sua própria esposa  e solta um grito: É a minha mulher! Eu sou inocente….. eu sou inocente!


mar 15 2009

Ensaio sobre o cultivo…

Categoria: Conto,CulturaSenhor_do_Servo @ 23:05

tulipa

Dizem, Alá porém é mais sábio, que havia outrora uma linda flor, que se chamava Tamarsihj, uma encantadora tulipa vermelha, que nasceu num belo vale da Pérsia Ocidental, no tempo das invasões bárbaras. Desde planta bem pequena Tamarsihj era bela e o vento delicadamente lhe soprava as pequenas folhas como se fora um imperador poderoso toca os lábios de alguma princesa bela e rara.

E entre encantos e suspiros, as primaveras foram se sucedendo e Tamarsihj crescia, a encantar todas as demais flores. Mas engana-se quem julga que a beleza de uma flor é o seu caráter, pois vendo-a bela não foram poucos os jacintos e cravos e narcisos, todos belos,  que disseram por ela ter se apaixonado e que no entanto tão somente  queriam lhe roubar pétala e perfume, de modo que faziam a bela Tamarsihj chorar em silêncio.

Mas se em silêncio Tamarsihj chorava como de fato é comum ocorrer entre tulipas, não conseguiram os maldosos calar seu coração que pulsava e sonhava com um dia em que seria resgatada daquele vale repleto de flores falsas, como se fossem feitas de rocha e sal.

E deste jeito os dias se sucederam até que em um lindo dia, como ocorre a todas as tulipas, Tamarsihj desabrochou. E pétala a pétala era tão imensa a beleza que se desnudava que não foi de espantar quando o príncipe dos persas, cansado de guerra, fosse ter o campo e a notasse. Notando-a, quis ela para si e como se fosse já um rei, desceu altivo de seu corcel negro, e tomou para si, em suas mãos, a magnífica Tamarsihj e lhe cheirou o perfume e se embriagou com sua beleza.

Então, chama o jardineiro do palácio e lhe ordena que ela fosse transportada para os jardins do palácio, onde lhe ordenara que ela fosse irrigada apenas com a água mais límpida e pura, derretida direto da neve virgem das montanhas sagradas e que sem sua volta se fizesse cercar de rubis da Índia e safiras do Ceilão. Ordenara também aos poetas que lhe dedicassem os versos mais belos e aos músicos, que compusessem as canções mais belas.

Todavia, ao invés de ficar ainda mais bela, Tamarsihj dia a dia deinhava, ao que o príncipe respondeu ordenando que a cercassem em uma redoma de diamantes e cristal, pelo que ao passar de duas luas ela morreu, par tristeza do Príncipe e consternação do reino.

O fiel jardineiro, ao ver a antes linda tulipa, falecida a seus pés, tomou-a em suas mãos simples de trabalhador, primeiro levou-a ao peito e depois beijou-a e se prostou sobre ela, suspirando uma delicada e sincera prece ao Misericordioso. Deus, ao ver o triste destino de Tamarsihj  e a sinceridade da oração do jardineiro, ressuscitou a tulipa, que renasceu como uma estrela que ilumina apenas os de coração puro, no sagrado mês de Ramadã, como um lembrete a todos os homens que para as mulheres, não basta dar paixão e jóias, e riquezas e elogios, se apenas as queremos como enfeites para nós e não dedicamos a elas respeito e amor, verdadeiros e sem medida.


mai 24 2008

Amizade

Categoria: Conto,Vinícius R²Vinícius @ 21:47

Fora sugestão do gerente do banco que Laura e Cláudia voltassem juntas para casa. Ambas moravam em um edifício distante somente três quadras do salão, no qual se comemorava o sucesso da nova promoção do banco. Já era noite e o trajeto, apesar de curto, seria mais perigoso desacompanhado. Recusando e agradecendo a oferta de carona de um colega, não restara outra opção à Laura se não acatar a sugestão do gerente.

Ela não era amiga de Cláudia. Colega, talvez. As duas trabalharam por anos na mesma sala, quase ao lado uma da outra. Mas eram tipos diferentes. As personalidades se chocavam e, talvez por preconceito, nunca se deram a oportunidade de conversar.

A impressão que todos tinham de Laura, exceto os amigos mais íntimos, era de extrema austeridade e frieza. Afinal, ela mal respondia os bom-dias que lhe desejavam, e muito menos tinha a iniciativa de desejá-los. Falava pouco, escutava bastante e tinha o péssimo hábito, pelo menos na opinião de Cláudia, de observar bastante as pessoas.

Esta, por sua vez, era bem extrovertida. Querida por todos, sempre risonha e faladeira, Cláudia contava para quem quisesse ouvir como haveria de ser o seu conto de fadas e o príncipe encantado que, segundo ela, estava por aparecer. Era sentimental e feliz. Enquanto sobre a vida íntima de Laura, nada se sabia; a de Cláudia era um livro aberto e folheável.

Na sala em que trabalhavam, no banco, apenas a mesa de um outro funcionário – não só uma mesa, mas uma verdadeira muralha – as separavam. Eis que tal funcionário era Murilo. Tranqüilo ao extremo, alegre ao seu modo, responsável e honesto sempre, sapatos de couro e cabelos rebeldes: eis a muralha.

Tijolos à parte, como a boa observadora de que todos taxavam Laura, ela tinha opiniões formadas sobre ambos, após anos e observação pura e aplicada. Não se tratava de um empirismo ofensivo, contudo. Nem exagerado. Nisso se resumiam as raras horas de folga e os últimos minutos do expediente, quando o banco ia gradativamente fechando suas portas.

E a muralha era acrescida de alguns milímetros a cada dia. Tanto da parte de Laura, devido aos resultados de suas observações, quanto por parte de Cláudia, devido à indiferença com a qual não sabia lidar. Até que um dia, esta última resolvera abandonar o cargo de construtora. Deixou estar e seguiu a vida, sem mais pensar na outra. Laura, contudo, continuou sobrepondo tijolo por tijolo.

Mas, naquela noite, sem muralhas, ou pelo menos não sem sua interferência direta, era chegada a hora de se enfrentarem. O momento – não se sabe por quem – tão esperado. Já tinham percorrido metade do trajeto, em um silêncio mortífero. Estavam, naquele instante, em um trecho mal iluminado e deserto. Não que isso as assustasse. Aquela rua era muito movimentada, só não apresentava ser devido ao horário, supuseram elas.

Não fazia frio. Era uma típica noite de verão, com um céu sem nuvens e uma Lua Cheia bem visível. As estrelas só não o eram mesmo, pela poluição da grande cidade, que escondia a abóbada celeste. Mas ventava. E farfalhavam as folhagens. De repente, o som proveniente de algum inseto cessou. Foi quando tudo aconteceu.

- Passa a grana, dona! – ouviu-se.

Da penumbra surgira um sujeito corpulento e com praticamente todas as partes do corpo cobertas. Somente o nariz, os olhos e a boca pareciam estar de fora. Ele trazia na mão direita, em plena posição de uso, alguma arma que Laura julgou ser um revólver.

As duas mulheres, de susto e de medo, estavam paralisadas. Laura pareceu, ao menos para Cláudia, ter se agarrado um pouco mais à bolsa.

- Eu não gosto de esperar! – alertou o assaltante, preparando o revólver para um tiro.

Então, eis que um turbilhão de pensamentos, sentimentos e recordações dispersaram-se pela mente das duas mulheres.

Laura se viu em perigo mortal ao lado da pessoa com quem tinha menos afinidade. Aliás, que fosse franca com ela mesma, principalmente em um momento daqueles: estava ao lado da pessoa que mais detestava, sem ter nem trocado mais de cem palavras com ela, até então. Mas conversar, para Laura, era dispensável. A essência estava na observação. Segundo ela, a conversa sempre esteve sujeita às mentiras. A análise baseada em observação, contudo, demonstrava o comportamento das pessoas nas mais diferentes situações, sendo o mais próximo possível da realidade. Mesmo que tal observação fosse de longe.

Cláudia, contudo, por estar do lado de uma pessoa que considerava desconhecida, tinha mais medo ainda. Que apoio poderia receber da pessoa que mal respondia seus comprimentos? E como enfrentaria uma situação daquelas sem apoio? Se apenas houvesse uma muralha entre ela, o bandido, e Laura! A muralha que a protegesse e que oferecesse o apoio negado por Laura…

O assaltante, também, não estava tão menos nervoso que as mulheres. Tremia e fazia tremer a arma em sua mão. Fosse a ocasião apropriada, Cláudia diria se tratar de um marinheiro de primeira viagem. E teria os risos e aplausos de aprovação das pessoas, como sempre fora…

- Eu já disse pra andar logo! É o último aviso! – gritou ele, puxando a bolsa de Laura e se dirigindo para a de Cláudia.

- Eu não… não posso! – chorou Cláudia, com todas as suas forças. – Eu preciso muito do…

- Se eu não precisasse de dinheiro também, não estaria aqui, tia! – justificou o assaltante, levando a mão à bolsa de Cláudia. – Vai ser por bem ou por mal?

Por mal, teria sido a resposta de Cláudia caso esta tivesse dado uma. Saiu correndo, o mais rápido que pôde. A arma de fogo, contudo, seria bem mais rápida. O bandido já a tinha na mira…

Mas Laura não se conteve. Levantou-se do canto em que estava caída, horrorizada com o incidente e, sem pensar duas vezes, renunciou à possibilidade de, algum dia, ser tão feliz quanto Cláudia. Recebeu o tiro.

O sangue e a queda súbita da mulher fizeram o assaltante desistir de seus planos e fugir. Levou consigo a bolsa e a vida de Laura. Cláudia, contudo, saiu ilesa, sem jamais entender a atitude da amiga.