ago 16 2010

O país mais irreligioso do mundo

Categoria: Apoiamos,CeticismoSenhor_do_Servo @ 17:54

Johann Hari em sua coluna na GQ Magazine, reproduzida em seu blog:

E agora, irmãos, dêem-se as mãos e agradeçam, porque eu venho trazendo Boas Novas. A Grã-Bretanha é hoje o país mais irreligioso da terra. Esta ilha desprendeu-se da superstição mais rápido e completamente do que qualquer outro lugar. Cerca de 63 por cento de nós somos não-crentes, de acordo com um levantamento do ICM, enquanto 82 por cento dizem que a religião é uma causa de desunião perniciosa. (…)

Como isso pôde acontecer? Por séculos, a religião esteve isolada de críticas na Grã-Bretanha. Primeiro seus oponentes eram queimados, depois presos, depois marginalizados. Mas uma vez que surgiu um mercado livre de ideias, uma vez que as pessoas puderam finalmente ouvir tanto os argumentos religiosos quanto as críticas racionalistas que se faziam deles, os religiosos perderam o povo britânico. Sua causa era fraca demais, sua oposição ao divórcio, ao aborto e aos gays, cruel demais, a evidência para suas alegações, não existente. Quando eles tiveram que contar com a persuasão ao invés de com a intimidação, a história da Cristandade Britânica chegou ao fim. (…) [Leia a íntegra]


ago 08 2010

Os acertos de conta no Dia dos Pais

Categoria: Ceticismo,PoesiaSenhor_do_Servo @ 19:02

Por Reinaldo, do Brasilianas

“Se o Criador – o pai do Céu -, Deus, a grande Vida, o universo vivo e inteligente, o grande espírito do mundo, seja qual for o nome, esse que existe acreditemos nele ou não, onipresente, onisciente e onipotente…”

Por que eu destruiria esta retórica falaciosa? Pela ausência de meu pai? Ele viveu 86 anos, fez suas escolhas (a maioria delas com absoluto erro, um dos quais resultou em mim) e morreu, não em paz! Deste almoço (o de hoje) ele não participa e não participará de nenhum outro. Lamento? Não!

Seria um bom texto sem este placebo divino que alguns insistem em usar para justificar uma infinidade de escolhas (certas ou erradas) que resultaram no momento presente. Na qualidade (ou defeito) de filho poderia desconstruir este “almoço” em família, mas estou sem paciência com as fórmulas mirabolantes ou com as justificativas injustificáveis!

Somos resultado de um processo. Ponto! Meu pai foi apenas um animal que cumpriu o papel que lhe cabia na perpetuação (ou tentativa dela) da espécie. Eu repito a fórmula, bem ou mal e me fiz pai da mesma forma. Meus filhos? Não sei ainda, mas espero que façam da mesma forma e aprimorem o gênero humano. E, a despeito do que me queiram imputar aqui, apenas espero que o façam sem que se considerem animais melhores que os outros ou que, sob a ótica religiosa, considerem-se “sui generis”.

Meu pai foi homem de bem. Espero continuar sendo e que meus filhos o sejam!

O resto?

O resto é uma foto amarelada, uma lembrança que parece resistir ao tempo e uma saudade daquilo que não ousamos ter feito quando deveríamos, ou do que fizemos quando era preciso…

P.S. Este  texto é uma resposta a este outro AQUI.


jul 15 2010

Notas sobre o ateísmo

Categoria: CeticismoSenhor_do_Servo @ 08:59

Por Bruno Cava, do Amálgama

Nunca acreditei em entidade sobrenatural. Desde as lembranças mais remotas, com cinco ou seis anos, recordo-me de um menino absolutamente cético diante do sobrenatural. O sobrenatural não existe. O menino jamais teve medo de espíritos, demônios, assombrações, monstros, mulas-sem-cabeça. Nunca anteviu um pós-vida: quando o homem morre, é como antes de nascer, um nada. Já intuía que o temor embutido nessas crenças fundamentava a submissão a arautos da verdade, e a renúncia a pensar e experimentar por si mesmo. Criança, tinha orgulho de proclamar-se ateu, menos por autoafirmação do que por uma incompreensão do que levava as pessoas a prostrar-se, humilhadas, diante dos deuses da tribo. Um Deus pessoal, imagem e semelhança do homem, não me convenceu em qualquer instante da vida. Passei incólume por catequismos e proselitismos. Nem a leitura dos livros sagrados nem ninguém conseguiu tirar lasca que fosse do firme ateísmo. Nenhuma situação vivida pôs em dúvida a ausência de fé no transcendente, ausência que traduzo como crença conseqüente na realidade concreta.

Guardo viva a lembrança da vez em que, no recreio da pré-escola, um coleguinha falou em “papai-do-céu”. Agarrei-o pela gola: quem é esse tal “papai-do-céu”? apontou para cima e disse-me que era um pai bondoso e misericordioso, habitante do céu, que tudo vê e tudo pode, a quem se pode pedir proteção e favorecimento, se a pessoa for merecedora. Foi também a primeira vez em que o escárnio ateu me assaltou, e conclui como aquilo era ridículo, como era inacreditável que tantas pessoas mais ou menos inteligentes levassem a sério, e como era necessário insurgir-se contra aquela farsa coletiva, estruturada por sacerdotes e igrejas.

Aos doze anos, inquirido certa ocasião por uma crente sobre a minha escolha religiosa, trocei, mas como se estivesse falando sério, que era o “anticristo”. A atitude do pequeno ateu alternava entre a ironia , quando estava de bom humor, e o escárnio, direto e seco, quando sem paciência. Ria na cara dos crentes e ridicularizava sem freios as igrejas. De zoação, chutava macumbas, cuspia na cruz, rasgava a Bíblia. É que, desde cedo, descobrira que não havia sentido em argumentar, em gastar o latim com fanáticos e iludidos, e que mais eficiente era tentar, pela via do sarcasmo e da paródia, demonstrar o ridículo implicado na fé e na crença num Deus-juiz onisciente e onipotente. Afinal, a provocação deixa mais marcas que a retórica. Podia em ocasião alegre reconhecer um ateu, mas sabia ser inglório tentar “ateizar” um crente. E se podia, num esforço ciclópico, desencaminhar uma ovelha das religiões, não conseguia demovê-la da crença num ser pessoal supremo.

O fato é que o menino era irrequieto com explicações e porquês e, por causa disso, um cético. Mas um cético curioso, preparado para aumentar o seu conhecimento do real, quando defrontado com evidência, lógica e sistema. Na realidade, o ateísmo não foi ponto de partida, mas linha de chegada de certo clima existencial presente desde a infância. O ateísmo resultou do ceticismo, este sim, uma ética completa, um modus vivendi, uma atmosfera existencial. Bom ceticismo não é aquele que cerra a percepção e encastela o mundo conhecido. O bom ceticismo é o prospectivo que, insaciável, faz da dúvida a técnica para investigar e interrogar. A boa dúvida amplia os horizontes da mente e perscruta a vida atrás do desconhecido. Pautado pelo ceticismo, não há risco de o ateísmo enjaular-se em disfarçado dogmatismo, numa descrença igualmente fanática. O ateísmo do cético não se fecha sobre si, não se submete à heteronomia de pastores ou igrejas “atéias”, como sói ocorrer com o religioso nas instituições de fé, verdade e moral.

Naturalmente, ao amadurecer, a civilização foi domando a fera irascível. Ao vestir calças compridas, o pequeno ateu passou a apresentar-se pudicamente como agnóstico. Evitou indispor-se com os asilados na ignorância, por estratégia, já que assumia outras agendas como mais prioritárias do que a militância atéia. Assim, tive em Carl Sagan a maior referência da adolescência, na sua promoção de um saudável, moderado e humanista ceticismo. O Mundo Assombrado pelos Demônios deveria ser leitura recomendada de todas as escolas. Instigado por Sagan, substituí o escárnio anti-social pela construção de um edifício de métodos e explicações, capazes de sustentar o ateísmo em debates mais civilizados. Foi nessa altura que prestei o vestibular, quando minhas redações, bem mais dóceis, incorporavam a sábia tolerância diante da infinita credulidade (ignorância) humana.

Richard Dawkins quase destruiu essa capa cultural. Em seus livros, o autor de Deus, um Delírio (“The God Delusion”, 2006) tem o poder de despertar o menino luciferiano em mim. Com ele, concluo que, ao me vestir agnóstico, não passo de ateu sem personalidade. Dawkins escreve tão bem e com tanta cólera, e eu concordo tanto, mas tanto com ele, que me dá vontade de sair pelas ruas berrando contra a sociedade teísta, de me assumir a criança que nunca deixamos de ser. Ressurge mil vezes vingativo o enfant terrible. Dawkins me faz lembrar como é importante não perder a faculdade de odiar assim como a de amar — faculdades irmãs. É um dos poucos autores que apela ao coração de menino, na sua imprudência e seu excesso, nas suas lágrimas ingênuas e no seu prazer destrutivo. Dawkins quase me faz esquecer o bom-tom e a medida, me torna novamente puro, e uma vez mais converte o agnóstico em ateu praticante. Renasço intacto.

*

Construí o meu sistema-mundo com a leitura paulatina da literatura científica e da filosofia da ciência. Não fiz das ciências um dogma às avessas. Com Karl Popper, nelas encontrei precisamente uma forma não-dogmática de pensamento, cuja essência de suas verdades reside na refutabilidade mesma. Aprendi como o conhecimento científico não somente procede por refutações sucessivas, mas também por saltos qualitativos, por rupturas paradigmáticas, como Thomas Kuhn descreveu em livro clássico. O que se alinhava à minha percepção de um mundo-fluxo, em mutação profunda. O ápice do antidogmatismo e de uma visão aberta do mundo culminou na entusiasmada adesão ao anarquismo metodológico de Paul Feyerabend, radicalmente averso a cânones, metanarrativas e esquematismos.

Atribuo as religiões a dezenas de causas. Politicamente, por servir como peça importante da dominação de classe, exercida com base no temor e na ignorância. Moralmente, por ajudar no controle social/sexual pelo poder constituído contra as minorias políticas, a mulher, o jovem. Culturalmente, ao comodismo do hábito, à preguiça intelectual, ao zelo bovino pelas tradições familiares. Individualmente, à fraqueza de caráter, que anseia por consolo metafísico, diante do sofrimento e da morte; ou então como reação igualmente impotente perante a culpa, a baixa autoestima, o desespero. Esteticamente, à aspiração pela perfeição, pureza e sublime, num amor transcendente. Genealogicamente, como ressentimento dos fracos contra os fortes, como inversão da lógica do bom x ruim (potência), pela do bom x mau (moral), como vingança abstrata contra um mundo insatisfatório. Racionalmente, à ingenuidade de pretender uma explicação totalizante e definitiva, num sistema fechado e reconfortador, capaz de apaziguar a dúvida angustiante que move o homem.

Nessa recusa esclarecida da religião, não fujo da tradição do pensamento anticlerical, ainda que eu também abomine os teísmos e deísmos que os iluministas (traidores), em geral, incorriam. Daquela época, o único ateu lídimo que eu li foi o Marquês de Sade, no seu furioso materialismo. Antes dele, Spinoza: teórico do Deus filosófico, imanente, amoral e impessoal, adotado também por Einstein, que por sinal nada tem do Deus dos monoteísmos.

No século 20, por sua vez, abundam os ateus assumidos entre escritores e intelectuais. Poderia citar mais de cem, mas destaco o mais irônico: Woody Allen. No século 21, o aumento da população atéia contrasta com a onda de fundamentalismos cristãos, islâmicos e sionistas. Estes se espalham como epidemia sobretudo nos Estados Unidos, nos países árabes e em Israel, acuando os seus muitos cidadãos livres e inteligentes. É preciso resistir e é preciso ceticismo.


jul 09 2010

Criação e evolução

Categoria: Ceticismo,Ciência,ReligiãoSenhor_do_Servo @ 15:59

Isaac Epstein

O criacionismo e o evolucionismo são duas propostas contraditórias que dizem respeito à ocorrência temporal de um fenômeno: a origem do homem. A primeira, criacionista radical, adotada pela teologia judaico-cristã, foi expressa com surpreendente precisão pelo bispo anglicano de Armagh, Usher, no final do século XVII, que decidiu, baseado em textos bíblicos, que o mundo tinha sido criado precisamente no ano 4004 AC, juntamente com todas as espécies tal como existem atualmente. A segunda, o evolucionismo, adotada pela ciência, propõe que o universo surgiu há cerca de mais ou menos 13 bilhões de anos atrás, a vida em nosso planeta, com suas formas mais primitivas de organismos unicelulares, há cerca de 3.5 bilhões de anos.

Desde então, até a atualidade, através de inumeráveis transformações e algumas extinções em massa, chegamos a cerca de 30 milhões de espécies de seres vivos, apesar de, até o momento, apenas 1.5 milhão terem sido descritas. Mais impressionante que este número de espécies existentes, é que estes 30 milhões de espécies atualmente existentes representam apenas cerca de 0.1% das espécies que existiram na Terra. Isto significa que cerca de 99.9% de todas as espécies que habitaram o globo foram extintas.

Apoiando o criacionismo radical está a fé religiosa que é baseada nos textos bíblicos. O evolucionismo é apoiado em evidências cosmológicas, geológicas, arqueológicas e antropológicas. Sua negação envolve a recusa em aceitar uma boa parte das ciências naturais, principalmente as descrições da história do planeta e da vida.

Quanto à origem das espécies e do homem em particular, todos os processos de avaliação da idade dos fósseis tanto animais como do próprio homem e de seus precursores mais imediatos apontam números totalmente incompatíveis com os fixados pelos textos religiosos.

O quadro da evolução biológica da transformação das espécies por geração de variedade e seleção por aptidão à sobrevivência, inaugurada por Darwin, apresenta alguns pontos obscuros ou ainda não totalmente absorvidos pela teoria da evolução, mas é geralmente aceito em suas linhas gerais pela totalidade dos cientistas.

Na tentativa de amenizar o hiato entre o tempo da criação bíblica e a imagem fornecida pela ciência, o criacionismo compreende atualmente uma certa variedade de crenças deslizando desde a interpretação literal da Bíblia até um criacionismo progressivo, criacionismo contínuo, evolucionismo teista, etc.

O anti-evolucionismno é mais ativo entre grupos do sul dos Estados Unidos. Henry M.Morris antigo professor universitário e um grupo de criacionista organizaram em 1963 a ‘Sociedade para a Investigação da Criação’. Em 1972 fundou o Creation Research uma instituição privada não lucrativa cujo objetivo original é publicar literatura criacionista e fazer campanha nas escolas públicas a favor das interpretações bíblicas da origem do homem. Este movimento está ligado a grupos religiosos e politicamente se situa entre os mais conservadores.

Não acreditamos que, do ponto de vista da ciência, o criacionismo mereça mais do que uma breve menção não sendo suas razões capazes de abalar o edifício das crenças científicas e das evidências a favor do evolucionismo. A teoria evolucionista naturaliza o homem fazendo-o parte imanente e contingente de um processo mais amplo e global. O criacionismo lhe atribui uma origem transcendental e necessária através do sopro da vontade divina. Assim o evolucionismo explica a origem do homem de “baixo para cima” a partir de formas menos complexas e o criacionismo de “cima para baixo” através do ato divino.

Esta polêmica, a nosso ver anacrônica do ponto de vista da ciência adquire, não obstante, uma coloração específica e atual quando transportada para a origem da vida social, dos valores e da ética das sociedades humanas. A ética, em geral tem sido definida como a ciência da conduta. Como tal, sua natureza foi atribuída a normas religiosas reveladas, na especulação filosófica, à razão prática, sendo reservada à ciência positiva a sua descrição empírica nas diversas sociedades. Em contraposição à sua origem de “cima para baixo” dois autores, entre outros, Nietzsche e Freud, justificaram, cada um a seu modo, a naturalização da ética, postularando a sua “genealogia” de “baixo para cima”.

Ora atualmente um movimento científico a sociobiologia que é uma disciplina que consiste no estudo científico da base biológica de todas as formas de comportamento social em todos os tipos de organismos, inclusive o homem” recoloca a antiga polêmica em outros termos. Na disputa secular entre a natureza e a cultura (Nature or Culture) como agentes determinantes do comportamento social, disputa esta muitas vezes exacerbada por matizes ideológicos, a sociobiologia pende para uma posição definida: a própria organização social dos seres humanos seria uma conseqüência das pressões dos mecanismos darwinianos de seleção natural. Tal como os insetos e muitos animais o comportamento social do homem teria sido, originalmente, sua resposta evolutiva às pressões existentes no nicho ecológico em que atua.

Eis que, novamente se tenta naturalizar setores tradicionalmente geridos pelo saber filosófico ou religioso. Serão então nossos mais caros valores, como o altruísmo, e a solidariedade não atributos exclusivos da espécie humana, mas compartilhado por outras espécies?

O altruísmo, por exemplo, que considera, como o fim da conduta humana, o interesse do próximo e se resume nos imperativos: “Viva para outrem”, ou “Ama o próximo mais que a ti mesmo”, sempre desafiou uma explicação “naturalista”. O próprio termo altruísmo tem ocorrido mais freqüentemente nos textos religiosos ou literários do que nos discursos das ciências humanas. Valorizado em diversas religiões, chega a atribuir uma aura de santidade a seus portadores infatigáveis.

Nas últimas décadas, no entanto, o altruísmo tem tido duas entradas no campo das ciências do comportamento: a primeira se refere a estudos de etologia e comportamento animal; a segunda a uma situação típica, quase um paralogismo, referente a uma situação descrita pela teoria de jogos e denominada de Dilema do prisioneiro.

Quanto ao comportamento animal, o altruísmo pode ser considerado como um comportamento auto destrutivo tendo como objetivo o benefício de outrem. Esta auto destruição pode variar em intensidade desde o total sacrifício da vida até uma diminuição da aptidão corporal.

O desempenho altruísta, apesar de contrário ao que se poderia esperar pela teoria darwiniana da evolução biológica, tem sido verificado em várias circunstâncias. O paradoxo do altruísmo animal deriva da simples pergunta: “Como pode um gene se perpetuar se provoca o suicídio de seu fenótipo portador?” A preocupação com este e outros tipos aparentemente anômalos de comportamentos conduziu ao desenvolvimento de uma nova fase no estudo da evolução do comportamento: um casamento entre a etologia e a genética populacional.

O interesse pelo estudo do altruísmo animal, inserido na nova disciplina da sociobiologia, indaga sobre uma possível origem filogenética do altruísmo humano.

Na disputa entre a natureza e cultura (Nature or Culture) como fatores dominantes no comportamento humano e que tem tomado um colorido ideológico, a sociobiologia, toma uma posição definida: a própria socialização do homem seria uma das conseqüências das pressões dos mecanismos darwinianos de seleção natural sobre as variedades geradas aleatoriamente.

Boa parte das informações básica da sociobiologia se originou da etologia, que consiste no estudo dos padrões globais de comportamento dos organismos em condições naturais. Com base na ecologia e na genética, a sociobiologia estuda, ao nível das populações, como os grupos sociais se adaptam ao ambiente através da evolução. Toda a forma viva pode, então ser vista como uma experiência evolutiva, um produto de milhões de anos de interação entre os genes e o ambiente. Em suma, a tese central da sociobiologia é que quando a vida social se tornou vantajosa para a sobrevivência, a seleção natural favoreceu os genes favoráveis a este comportamento.

Possivelmente quando não só o mapa, mas também os desempenhos dinâmicos do genoma humano forem decifrados, a disputa biologicistas x culturalistas poderá ter uma expressão mais científica e menos ideológica.

Terá o altruísmo humano um componente de origem filogenética? É uma das teses da sociobiologia, ou pelo menos uma hipótese a ser investigada independentemente de sua conotação ideológica.

Por muito tempo os biólogos, particularmente os não familiarizados com a genética, explicaram a evolução do comportamento, tal como o da abelha que deixa o seu ferrão no intruso à colméia embora com isto decretando sua própria morte, porque este comportamento embora fatal ao indivíduo, favoreceria a espécie. Em verdade é o contrário o que ocorre: se um gene favorece um indivíduo, ele se estabelece embora possa reduzir, em longo prazo, a sobrevivência da espécie.

A explicação para esta aparente incongruência é que, em verdade, o indivíduo altruísta, embora desaparecendo, contribui para a sobrevivência de outros indivíduos seus “parentes” que participam de sua carga genética. Isto explica também o ato altruísta dos progenitores, que em geral, na maioria das espécies superiores, sacrificam parte de seu potencial individual para a sobrevivência em favor de seus filhotes. Entre outras estratégias de proteção altruísta, podem fingir um ferimento para distrair o predador. Este fato prevê também que o altruísmo e o comportamento cooperativo é mais freqüente entre indivíduos que mantêm um laço de parentesco do que entre indivíduos estranhos. Desta forma os genes comuns aos parentes são preservados.

Um outro tipo de comportamento cooperativo ocorre entre macacos babuínos. Quando dois machos, A e B, disputam uma fêmea, um deles, B pode solicitar a ajuda de um terceiro C, com um sinal de cabeça facilmente reconhecível. Se a ação deste último facilita a vitória de B que vantagem C obtém? A explicação mais convincente é que este tipo de comportamento altruísta entre indivíduos não parentes, é a reciprocidade. C ganha a possibilidade de ser ajudado por B num futuro confronto.

A dificuldade com esta explicação é que ela não prevê a recusa ou “ingratidão” futura de B prestar ajuda a C quando solicitado. Parece, no entanto, que os padrões de comportamento evoluíram de tal forma que os animais ajudam apenas os indivíduos que os ajudaram o que implica no seu reconhecimento.

Recentemente alguns pesquisadores mostraram, mediante modelos matemáticos, que a cooperação pode se desenvolver mesmo entre indivíduos sem parentesco e que jamais terão a oportunidade de se reencontrar para devolver a ajuda recebida. Nestes casos assume-se que dois organismos têm pouca probabilidade de se reencontrar. O indivíduo não espera a ajuda recíproca de quem ajudou no passado, mas de um terceiro. Mas para esta reciprocidade indireta ocorrer é necessário imaginar que os indivíduos observam outros do grupo lhes atribuindo “pontos” imaginários.

Este conceito de reciprocidade indireta tem inspirado alguns autores para traçar um paralelo com a evolução dos sistemas morais nas sociedades humanas.

A própria luta ritual (geralmente por sexo), sem prejuízos demasiadamente graves para o perdedor e que ocorre em muitas espécies, e evita escaladas potencialmente fatais, consiste em estratégias desenvolvidas e selecionadas no decurso da evolução que ao mesmo tempo que facilitam o cruzamento dos machos mais aptos, protegem os mais débeis da destruição.

Os torneios simulados em computador da situação denominada de Dilema do prisioneiro, permitem observar como mecanismos artificialmente construídos de geração de variedade aleatória e seleção permitem observar o aparecimento de comportamentos cooperativos a partir de situações de jogo aparentemente de soma-zero .

A idéia matriz, tanto do estudo do altruísmo animal, como das simulações mencionadas, é explicar o aparecimento da cooperação a partir de interações administradas pelo egoísmo dos indivíduos.

A sociobiologia apresenta alguma evidência empírica a favor da idéia da origem de “baixo para cima” de alguns traços valorizados da ética humana. Com isto, de algum modo, traz para o campo da pesquisa científica, se bem que em outro registro, alguns aspectos da obsoleta polêmica entre a criação e a evolução.

Isaac Epstein é professor do Labjor/Unicamp e da Universidade Metodista de São Bernardo do Campo.

Notas

Os cientistas falam em cinco grandes extinções das espécies ocorridas num passado geológico distante. A primeira há cerca de 440 milhões de anos atrás; a segunda há cerca de 365 milhões de anos; a terceira, a maior de todas, responsável pela extinção de cerca de 98% de todas as espécies existentes, há cerca de 250 milhões de anos; a quarta há cerca de 205 milhões de anos; a quinta ocorreu há cerca de 65 milhões de anos É a mais famosa porque significou a extinção dos dinossauros que dominaram o planeta por cerca de 140 milhões de anos. Uma de suas conseqüências foi ter aberto a possibilidade da subseqüente ascensão dos mamíferos, até então reduzidos a espécies de pequenas dimensões. Alguns cientistas acreditam estarmos vivendo a sexta extinção em massa, agora provocada pelo próprio homem. Calcula-se que cerca de cerca de dois terços de todas as espécies de aves, mamíferos e plantas serão extintos dentro de um século. (voltar)

WILSON ,E,O Sociobiology, Cambridige.Mass, Harvard Univ.Press, 197 (voltar)

Embora no dilema do prisioneiro se tratar mais da cooperação para o bem comum do que propriamente do altruísmo. (EPSTEIN, I “O dilema do prisioneiro e a ética” in Estudos Avançados 23, USP, Janeiro/Abril 1995, p.149/163 (voltar)

MAYNARD SMITH,J The Evolution of Behaviour, in Scientific American, Setembro, 1978,p. 136 (voltar)

LORENZ,K Studies in Animal and Human Behavior, Harvard, Univ.Press, 1971, Vol.II,p.153 (voltar)

MAYNARD SMITH,J, idem, p.140 (voltar)

FERRIÈRE,R “Help and you shall be helped” in New Scientist, 11/Junho/98, p.517 (voltar)

ALEXANDER, R,D, The Biology of Moral Systems, New, York, Aldyne, , 1987 (voltar)

EPSTEIN,I, Idem (voltar)


jun 27 2010

Os ateus são mais pacíficos

Categoria: Apoiamos,CeticismoSenhor_do_Servo @ 10:16

Do Bule Voador

É uma questão que emerge de uma das listagens mais interessantes que existem. É o GPI, Global Peace Index, fruto de um centro de estudos baseado em Londres.

“No caso do GPI, todos estes países escandinavos estão no topo”

Think tank, como são comumente chamados tais centros no mundo globalizado.

Tratei já do GPI neste espaço. Especialistas trabalham com mais de 20 indicadores econômicos e sociais de 144 países e montam uma lista da paz e riqueza mundiais.

Uma das coisas que impressionam, e têm despertado uma discussão vibrante, é a alta colocação dos países “ateus”, aqueles em que a maior parte das pessoas não acredita em Deus. A Suécia, com 85% de ateus, cintila no GPI e em todas as análises comparativas de desenvolvimento econômico, humano e social. Bem como a Dinamarca, a Noruega , a Islândia e a Finlândia.

No caso do GPI, todos estes países escandinavos estão no topo. O ateísmo é elevado em cada um deles. Do lado oposto, as piores colocações são de países com religiosidade alta, seja muçulmana ou cristã. O Brasil, como em todo estudo de avanço sexual, tem uma posição brutalmente medíocre. Ninguém corre o risco de ver Lula brandi-la na campanha, triunfal.

“Ophra pergunta se acreditam em Deus, elas respondem prontamente que não”

O GPI faz pensar. (Aqui, um vídeo organizou os números.)

Desde os primórdios da civilização, uma das razões mais comuns de conflitos é a religião. A Índia, para ficar num caso, foi golpeada duramente em seu progresso por conta da guerra sangrenta entre hindus e muçulmanos. Um pedaço da Índia de dominação muçulmana acabou se tornando um país independente, o Paquistão, hoje no meio do caminho entre os jihadistas islâmicos e os mísseis americanos.

É revelador um vídeo que mostra Ophra, a apresentadora americana, indo a Copenhague para tentar descobrir por que a Dinamarca é o país mais feliz do mundo, segundo um outro estudo. (Estive lá também, pelo mesmo motivo.) Ophra junta um  grupo típico de mulheres dinamarquesas e bate um papo.

São saudáveis, bonitas, articuladas, orgulhosas de seu país. Não são massacradas por plásticas, maquiagens, griffes.

Quando Ophra pergunta se acreditam em Deus, elas respondem prontamente que não. Uma diz que acredita na “humanidade”. Não há na resposta delas a arrogância vaidosa e agressiva de Juca Kfouri ao replicar uma observação de Kaká, aquele sentimento, oriundo sobretudo de quem militou em centros acadêmicos em que se decoram orelhas de Marx, de que “somos melhores que os crédulos”.

“Mas muita gente pensa e age diferente de papai e de Greene”

NÃO.

Elas falam com a alma leve. Dizem também não acreditar tanto assim no casamento formal, o que não quer dizer que não possam ser boas mães e boas companheiras.

Não tenho a pretensão de esgotar uma discussão tão complexa aqui. Como o pastor de Updike que no meio de um sermão perde a fé, em algum momento deixei de crer. Não fiquei nem melhor e nem pior do que já era.

Também não tenho posição formada sobre a relação entre ateísmo e paz. O homem que mais admirei na vida, meu pai, era profundamente religioso. Mas jamais imaginou que sua fé fosse melhor que a de outros e nem tentou impô-la a quem quer que fosse. Meu romancista predileto, Graham Greene, era católico.

Mas muita gente pensa e age diferente de papai e de Greene.

São pessoas que consideram sua religião melhor, e estão dispostas a matar e morrer por isso.


jun 25 2010

Inteligência: quem não tem, desenha!

Categoria: Ceticismo,CiênciaSenhor_do_Servo @ 08:58

Do Diário Ateísta, sob o título Miscelânea Criacionista: a ilusão de design.

A figura ao lado mostra cogumelos num “anel de fadas”, um fenómeno que hoje sabemos ser natural mas que, durante muito tempo, foi explicado como sendo uma criação inteligente de seres sobrenaturais.

É compreensível. Como um cogumelo não pode saber onde estão os outros nem escolher onde nasce parecia necessário algum ser inteligente que percebesse aquele padrão e planeasse o nascimento dos cogumelos.

Não era o mesmo criador dos criacionistas de hoje mas cada cultura atribuía a génese destes círculos intrigantes a entidades míticas equivalentes. Fadas, duendes, espíritos da floresta ou deuses vários.

“Não há aqui fadas nem inteligência”

A explicação correcta é mais prosaica. Os cogumelos brotam de um micélio subterrâneo, uma rede de fibras microscópicas que se espalha a partir do ponto de origem do fungo. Conforme o fungo cresce, o micélio vai envelhecendo e consumindo nutrientes, pelo que a parte com mais vitalidade é sempre a da orla do círculo. É esta que produz os cogumelos. Não há aqui fadas nem inteligência. Apenas crescimento, fisiologia e, no fundo, química.

É claro que podemos propor que as fadas não fizeram o círculo mas fizeram o código genético do fungo, ou algo assim. Quando se invoca fadas, magia ou milagres pode-se inventar o que se quiser. Mas é desnecessário. Aquilo que exigia ser explicado por uma intervenção inteligente era a premissa, errada, que o círculo só poderia ser formado por alguém que percebesse e planeasse aquele padrão de cogumelos. Fadas a dançar, por exemplo. Mas a compreensão mais detalhada do processo revelou um mecanismo alternativo que dispensa esse requisito.

“O apelo do deus criador e das fadas bailarinas vem encher os buracos da ignorância”

A teoria da evolução suplantou o criacionismo porque fez o mesmo para os seres vivos. Ao mostrar como as espécies podem surgir por um processo que não exige a percepção inteligente de cada passo nem o planeamento antecipado do resultado tornou desnecessária a premissa de um designer inteligente.

Tal como o fungo não precisa de fadas para fazer um círculo de cogumelos também os primeiros replicadores numa furna qualquer há quatro mil milhões de anos não precisaram de um deus que planeasse o nosso nascimento este tempo depois.

O apelo do deus criador e das fadas bailarinas vem de encher os buracos da ignorância com fantasias improvisadas em vez de hipóteses testadas. Os camponeses medievais viam estes cogumelos e imaginavam fadas; os criacionistas vêem uma mosca e imaginam um criador inteligente.

“Mas o deus criou deles isto tudo só para nós e fez-nos à sua imagem”

E por criacionistas não refiro só os da Terra com uns milhares de anos, o homem criado do barro e a mulher da costela que deve ter ficado a mais e que, já que tinha de sair, aproveitaram para fazer alguma coisa.

Neste caso incluo também os criacionistas mais vagos que dizem aceitar a ciência mas que acrescentam sempre um criador para dar “sentido” e “significado” a isto tudo. Especialmente a nós. O universo pode existir há treze mil milhões de anos e ser inimaginavelmente grande. Pode ser mortífero para nós em praticamente todo o lado excepto neste planeta cagagesimal num cantinho insignificante de uma galáxia medíocre. Mas o deus criou deles isto tudo só para nós e fez-nos à sua imagem.

E como sabem isto? É evidente. É tão evidente como os cogumelos nascerem de fadas bailarinas.


mai 06 2010

Sobre Humanos e Micos

Categoria: Ceticismo,CrônicaSenhor_do_Servo @ 06:31

Do Amálgama

Filha, entenda bem uma coisa. Vão tentar te convencer por mil maneiras de que Deus existe, vão inventar explicações mirabolantes. Mas aí você olha pra rua e lembra que tem criança passando fome, criança usando droga. Então acabou. Se Deus existisse mesmo, como é que iria permitir uma coisa dessas? Sabe, filha, Deus é uma coisa que as pessoas inventam pra esquecer que tem criança passando fome na rua.”

Vivi imune às explicações mirabolantes, até ela morrer. Então virei espírita e tive um sonho em que ela aparecia de vestido branco (tão chato isso das pessoas mortas terem sempre que usar branco) num deck em que se via o mar brilhando por debaixo das tábuas de madeira do chão (as tábuas eram separadinhas e a lua brilhava no mar) e um garçom vinha de vez em quando nos servir bebidas gostosas (leia-se toddynho e coquetel de frutas não-alcoólico), e ela sorria e me falava de como estava a vida dela e de como muitas coisas legais ainda iriam acontecer comigo, e a música que não tocava mas estava presente, e até hoje quando toca o que eu ouço é esse sonho, era Fotografia do Elis & Tom.

Algumas leituras e muita análise depois, deixei as mirabolações de lado e me empenhei em recordar e elaborar. Voltei exatamente ao ponto em que ela havia me deixado: se crianças na rua sim, então Deus não.

* * *

“Mamãe, por que você e o papai se casaram na igreja se vocês dois são ateus?” “Porque a vovó é muito religiosa, filha, e ela iria ficar muito magoada se a gente não fizesse assim. Então fomos lá e ouvimos bem quietinhos tudo o que o padre tinha pra dizer, mas não demos a menor bola, a vovó ficou feliz e tudo acabou bem.”

* * *

Agora quem vai se casar sou eu, e felizmente não precisarei enfrentar o dilema com que meus pais tiveram de se haver: ir contra os próprios princípios para evitar conflitos com uma pessoa querida, ou comprar uma briga e manter a coerência com as próprias ideias? Meus pais fizeram sua opção, mostrando-me que privilegiavam relações humanas concretas a ideias abstratas. O primado da concretude, aqui, está em perfeita consonância com o raciocínio de minha mãe sobre a existência de Deus: o que importa, nos dois casos, não é a existência de um cara que não posso ver ou a fidelidade a ideias que não posso agarrar. Mais vale a barriga cheia das crianças e o sorriso no rosto da vovó.

Entendo, pois, a opção deles. Mas, hoje, penso que realmente seria a maior prova de amor do mundo se eu me dispusesse a pagar o mico do vestido branco e da bênção do padre, melando assim um dia que deveria ser tão legal para meu futuro marido e eu. Não me vejo fazendo isso de jeito nenhum, por mais religiosa que fosse a minha sogra; acho que eu faria prevalecer a minha/nossa vontade, o meu/nosso egoísmo e as minhas/nossas ideias do que quero/queremos para a nossa vida juntos (o futuro marido também tem horror a padre, hóstia, aliança, essas coisas). Porque outra lição que aprendi com minha mãe – não pelo que ela fez, mas pelo que sofreu – é que o evitamento permanente de conflitos é a pior política possível a longo prazo. Ainda assim, tenho um mínimo de sabedoria para entender que não existem imperativos categóricos aqui. É fácil falar que eu faria e aconteceria (ou melhor, que não aconteceria véu e grinalda porra nenhuma) quando os pais do meu namorado tampouco obedecem ao Papa. Quero ver se eu ia ter peito de já começar mal a relação com eles só porque vestido branco é muito mico. Pior é que talvez tivesse. Vestido branco – os mortos que o digam – é mico demais.


mai 02 2010

Serra não quer o voto dos ateus

Categoria: Ceticismo,Fascismo,José Serra,PolíticaSenhor_do_Servo @ 20:14

Do Ateus do Brasil:

Tava indo bem demais pra ser verdade. A campanha dos candidatos à presidência da república geralmente é cheia de baixaria, mas a do José Serra começou bem cedo este ano.

Serra participou de um evento religioso em Santa Catarina na noite de 1º de maio de 2010, Dia do Trabalhador. Até aí tudo bem, ele vai na igreja que ele quiser que não é problema nosso. Mas ele soltou a seguinte pérola por lá:

“A pessoa que fuma sabe que o cigarro vai fazer mal, mas continua assim mesmo. Depois, adoece e mesmo assim continua fumando. Assim é uma pessoa sem Deus. Sabe que Ele está ali, mas não o procura.

Eu podia ter ido dormir sem essa, José. Pra quê que você foi falar mau de quem não acredita em Deus, José? Você tá desdenhando os votos de todas as pessoas que não acreditam em Deus, José? Dizendo que quem não acredita em Deus tá fazendo mal a si mesmo, José? E agora, José?

Eu não tava esperando mesmo colocar nenhum ateu no governo este ano, mas isso que o Serra fez é malandragem. Falou mau da gente só para ganhar voto com os crentes. A dica aqui é bem clara: não vote em José Serra. Ele não quer o seu voto.

Acho que vou votar na Marina Silva. Ouvi dizer que aquele negócio dela apoiar o criacionismo é um mau entendido. Se for, melhor. Ou, se não for, voto na Dilma Rousseff mesmo.

A propósito, José Serra curte um Twitter. Você pode mandar mensagens pra ele, que usa a conta @joseserra_. O BuleVoador recomenda usar a hashtag #PéNaJaca.

Tags: , ,


abr 14 2010

Dossiê Perillo – quem não te conhece que te compre!

Categoria: Biografia,Ceticismo,José Serra,Mídia,Política,Vera L. SilvaVera L. Silva @ 20:06

E eis que mais uma vez o Vice-presidente do Senado Federal,  o goiano Marconi Perillo,  ocupa as princiáis  páginas dos  jornais ao subir na tribuna  e  “exigir” do  nosso senado que apure os “papéis falsos” que  largaram em sua residência  “no mesmo dia em que sua pré-candidatura ao governo de Goiás foi lançada”.

O tucano  Marconi Perillo, o Moço da Camisa Azul,   encaminhou representação ao presidente  José Sarney  solicitando que a Corregedoria do Senado investiguasse  falsificação de procuração e passaporte em seu nome, que  teriam sido utilizados para abertura de conta bancária sua no exterior.

“Não tenho nenhuma conta (no singular)  bancária fora de Goiânia. Estou sendo vítima de mais uma cilada daqueles que estão utilizando ferramentas do mal”, discursou o senador goiano da tribuna. “Trata-se de um dossiê fajuto.”

Ora, essa  investigação teve  início no dia 12 de março, quando começou a tramitar no Departamento de Recuperação de Ativos   do Ministério da Justiça um processo destinado a mapear a existência de  contas (no  plural)  do  senador  em bancos da Suíça, dos Estados Unidos e  em paraísos fiscais do Caribe.

Há dois meses o Estado acompanha o caso: “De um lado, a reportagem esmiuçou os bastidores da operação montada em Brasília para comprovar a existência das contas, o que poderia significar um tiro de morte nas pretensões políticas do tucano, pré-candidato a governador em Goiás. De outro, apurou as medidas oficiais destinadas a comprovar as supostas transações de Perillo no exterior.”

“Não sabia ele que, um mês antes, os documentos já haviam chegado ao ministério e dado origem a um procedimento formal – não para investigar sua veracidade, mas seu conteúdo”.

O procedimento instaurado no DRCI sob o número 08099.001131/2010-54 teve origem num relatório apócrifo, produzido originalmente em inglês, com tarja de “top secret”, onde há extratos de supostas contas  registradas em nome da Aztec Group, offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. Os documentos apontam Perillo como um dos dirigentes da empresa. Um dos papéis anexados ao relatório, com timbre do banco suíço UBS e datado de 2003, diz que o Aztec Group tinha na instituição uma aplicação de 200 milhões – o equivalente, à época, a R$ 667,5 milhões.

O relatório inclui o contrato social do Aztec Group, cujo presidente, de acordo com o documento, seria Paulo S. Jusus – que os investigadores identificam no processo instaurado no DRCI como Paulo Silva de Jesus, primeiro suplente de Marconi Perillo no Senado.

“Também foram anexadas ao relatório, obtido pelo Estado, o que seria a cópia do passaporte do senador e uma procuração registrada nas Ilhas Virgens Britânicas em que Jusus dá poderes a Marconi Perillo, apontado como diretor da Aztec Group para Projetos Especiais, para assinar contratos e fazer acordos em nome da empresa. Há ainda cópias de mensagens enviadas por fax, nas quais Perillo teria ordenado transferências da conta da Aztec. Um desses papéis, que leva uma assinatura semelhante à do tucano, autoriza movimentação de US$ 3,5 milhões de uma agência do banco Wachovia para uma agência do Citibank no paraíso fiscal de Nassau, no Caribe.

Com aval do Planalto, o DRCI deu início aos procedimentos para tentar confirmar a existência das contas. O primeiro passo foi contatar as autoridades financeiras da Suíça, para onde teria sido remetida parte significativa dos valores.
Até ontem, o DRCI não havia recebido resposta às consultas sobre as contas da Aztec em território suíço. A expectativa é de que a resposta chegue a Brasília nas próximas semanas”.

“Antes de dar origem à investigação oficial, o dossiê com as supostas contas de Marconi Perillo no exterior já circulava por gabinetes de Brasília. Foi o líder do PR na Câmara, Sandro Mabel (GO), adversário de Perillo na política goiana, quem levou os papéis à antessala do presidente Lula. Ontem, em entrevista ao Estado, Mabel admitiu ter tratado com Gilberto Carvalho da existência das supostas contas de Perillo no exterior. “Como o presidente (Lula) tem um desgaste com o Marconi, eu falei com ele (Gilberto) sobre o assunto”, disse Mabel.

Apesar de terem em mãos os papéis, nem Mabel nem o chefe de gabinete de Lula tomaram providências imediatas.

No início de 2010, o Dossiê Perillo foi encaminhado para o gabinete do promotor goiano Fernando Krebs, que instaurou o Procedimento Investigatório Criminal n.º 01/2010. Com sinal verde do Planalto, as portas do Ministério da Justiça e do DRCI já estavam abertas para auxiliar o Ministério Público goiano no que fosse necessário.

Em 12 de março passado, de acordo com documentos obtidos pelo Estado, o promotor formalizou o chamado “pedido de assistência jurídica”, para que o DRCI buscasse informações sobre as contas. Na mesma data, foi preenchido o “formulário de auxílio jurídico em matéria penal”, que o DRCI traduziria dias após para remeter à Autoridade Central da Suíça. O procedimento do Ministério Público não relaciona o nome de Perillo, que tem foro privilegiado e só pode ser investigado criminalmente pelo STF.

“Suspeita-se, fortemente, que Paulo S. de Jesus seja um “laranja” da quadrilha que operou na Celg entre os anos de 2000 e 2008?, diz o documento.

Por meio da assessoria de imprensa da Presidência, Gilberto Carvalho disse que, de fato, conversou sobre o assunto com Sandro Mabel, mas na ocasião “os elementos trazidos pelo deputado não tinham a menor consistência”.

Em nota, o Ministério da Justiça confirmou a existência do procedimento no DRCI, mas disse ter agido atendendo a uma demanda do Ministério Público de Goiás. “O número citado pelo jornal identifica um ofício proveniente do Ministério Público de Goiás que foi protocolado no sistema de protocolo do Ministério da Justiça e que não tem por objeto qualquer investigação envolvendo o nome do senador”. Aqui. Aqui.

Se na tribuna do senado  Perillo  disse  estar “sendo vítima de mais uma cilada”  pelos que usam as “ferramentas do mal” e afirmar  que o tal dossiê é “fajuto”,  em Goiás a reação  do tucanato foi  igualmente feroz.

Gritando e entre linhas, o  PIG  faz questão de citar que   Marconi é “inimigo político declarado do presidente   Lula”, e   “desafeto do Planalto após o escândalo do mensalão”  e  que a denúncia surgiu  “no mesmo dia em que o senador declarou no Twitter  o lançamento de sua campanha a governador de Goiás”. (tisc)

O  presidente do PSDB goiano, deputado  Leonardo Vilela, afirmou que  o   dossiê é um “material apócrifo, forjado,  que  merece o repúdio de todos” e afirmou:  “Nós queremos uma campanha de alto nível. A sociedade não admite mais esse tipo de leviandade e que a honra alheia seja enxovalhada em nome de interesses pequenos, mesquinhos e eleitoreiros”.

A deputada ficha-suja  Raquel Teixeira disse: “Mal começamos a campanha e lamentavelmente esse tipo de instrumento é usado.  Forjaram, compraram e falsificaram um documento dizendo que ele (Marconi Perillo) tem dinheiro no exterior, algo malfeito e com erros de português (ela era secretária da Educação de Marconi Perillo e entende  bastante de “erros”:  chegou a ser  condenada  pela Justiça a   pagar uma multa de R$ 12 milhões ao Tribunal de Contas da União,  penalidade que  faz parte do processo que apurou  compra de merenda escolar sem licitação. Teria sido á Raquel Teixeira que ofereceram  R$ 30 mil  para que deixasse o PSDB e passasse a integrar o antigo PL, hoje PR, no escândalo do Mensalão.

O deputado João Campos afirmou: “Não podemos permitir que a política continue sendo feita a partir da mentira, infâmia, calúnia e difamação. É preciso apurar para punir e responsabilizar os que falsificam documentos para atingir a honra de pessoas dignas e que fazem política dignamente”.

O deputado catalano Jardel Sebba, em inflamado discurso na Assembléia Legislativa, afirmou que isso   é uma “tentativa de ataque à imagem do senador”. Segundo ele, montou-se um dossiê  que é “fajuto, inoportuno e desnecessário”.

O deputado Daniel Goulart  disse que atacam Marconi de forma “rasteira, falsa e desleal”, maculando “de maneira mentirosa” a biografia do ex-governador.

Deputado tucano repudia o  “Dossiê”, acusa concorrentes políticos  e  cita  o nome do governador de Goiás, Alcides Rodrigues

O deputado federal Carlos  Alberto Leréia  foi à tribuna da Câmara denunciar a “fabricação de um dossiê grosseiro e criminoso feito por adversários políticos contra o senador  Marconi Perillo… ” fato  que aconteceu no dia 06 do corrente mês, “quando uma “quadrilha especializada deixou na residência do senador um dossiê anônimo”… uma  “ação premeditada minuciosamente para acontecer no mesmo dia em que o senador Marconi Perillo lançou a sua pré-candidatura ao governo de Goiás.

Tudo nos leva a crer que “concorrentes políticos estejam por trás dessas atitudes asquerosas” e que vem sendo fortemente  “articuladas pelo governador Alcides  Rodrigues” – afirmou o Leréia.

Assim como  foram “surpreendidos”  pela declaração de  Perillo de “aceitar” ser  o candidato tucano ao governo de Goiás dias atrás, assim também se mostraram “surpresos” com  o tal Dossiê. (tisc)

Presume-se que, se é fajuto,  qualquer um pode te-lo “encaminahado” á residência de  Perillo, pois não? Será que este foi “largado” em seu AP em Brasília, aquele mesmo onde  recebeu os 34 prefeitos do PP semana  passada?

Mas a mim, o que surpreende é o fato de os deputados  se mostrarem  tão  surpresos.  Eu  jurava que já estavam  calejados com tantas denúncias  as quais  são “vítimas”!  Afinal,  eu, que tenho memória ruim, me lembro muto bem  que, mais que um  dossiê, certa vez o então deputado Adib Elias, hoje presidente estadual  do PMDB,  já cansado de  ir e vir   levando  “dossiês” contra maus atos dos tucanos ao Ministério Público de Goiás, resolveu encher  um  carrinho de mão  com  pastas e documentos e filmes  e fotos e  entregar tudo aos promotores.  Enfim, denúncias  e dossiês no ninho tucano é  hábito.

Muitos destes deputados,  eu não sei  se se lembram do fato, mas não  Raquel Teixeira, Jardel Sebba e  o ex-governador Marconi Perillo.

Vera   Silva  no  Blog do Atheneu

.

Tags: , , , , , , , , , , ,


abr 03 2010

A propósito do não crer

Categoria: Apoiamos,CeticismoSenhor_do_Servo @ 10:38

Ateus por definição são pessoas que não crêem em Deus ou Deuses. Essa definição por si só deixaria claro o que um Ateu é. Aparentemente essa definição deixa margem para diversas interpretações negativas e preconceituosas.

Uma pesquisa feita pelo IBGE em 2000 ¹ mostra que o número de Ateus no Brasil vem crescendo em um ritmo acelerado. Isso indica que Ateus não são uma parcela ínfima da sociedade e que compõem, numerosamente, uma parcela significativa.

O preconceito mais comum contra o Ateu é sua moral/ética serem possivelmente duvidosas ou “flexíveis demais”. A origem deste preconceito é que para grande parte das religiões moral e ética são baseadas em livros sagrados. A bíblia por exemplo. Ateus não possuem livros ou mandamentos, mas são tão capazes de desenvolver uma moral e conduta quanto um católico. Nada impede um Ateu de praticar bons atos ou ser caridoso, isso independe de religião. Preconceitos um pouco menos difundidos, mas tão perigosos quantos são que Ateus não tem “alma”, não possuem senso de justiça ou são pessoas perdidas e profanadoras de tudo que é sagrado em geral, por não aceitarem um criador maior para justificar nossa existência.

Obviamente dizer como este preconceito afeta a sociedade seria redundante, visto que preconceitos não contribuem em nada, além de separatismo social.

A imagem a princípio foi um pouco difícil de ser trabalhada, pois como representar um Ateu? A maioria dos símbolos existentes são referentes à ciência ou ao evolucionismo de Darwin. Evidência maior que Ateísmo não necessariamente está relacionado com a ciência dá-se ao fato que inúmeros cientistas possuem religião.

A imagem traz consigo um conceito simples. Utilizando-se bonecos como representação de uma pessoa e estampadas em suas camisas os símbolos de suas crenças. As religiões escolhidas foram Judaísmo e Cristianismo. O boneco do centro com a camisa sem estampa representa exatamente a falta de crença de um Ateu. Nada melhor que a não utilização de símbolos para representar o Ateu, a nível de descrença.

Um círculo envolve os três bonecos, com o intuito de passar união. Assim como na matemática esse símbolo funciona como agrupador de elementos. A utilização do círculo evidencia a idéia da coexistência, crentes e não crentes no mesmo grupo.

Por estar trabalhando simbologias simples, resolvi utilizar preto e branco, visto que cores só iriam adicionar mais informação visual, o que não seria necessário. Uma frase curta, mas de impacto foi utilizada para rápida assimilação da idéia da imagem, facilitando a associação de Ateu com o boneco do meio, com a camisa sem estampa.

O Original encontra-se AQUI, no excelente Boca do Ogro.

Tags: , , ,


Próxima Página »