ago 22 2010

Conclusões de Aninha

Categoria: PoesiaSenhor_do_Servo @ 19:36

Cora Coralina

Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
“A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar.”
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

Mais? AQUI!

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ago 16 2010

O Nosso Humor Dilmista

Diretamente da Hungria, os comentários de Dona Eva sobre as eleições no Brasil :)

 

Clique:   Dona Eva e o Data Folha 

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ago 08 2010

Os acertos de conta no Dia dos Pais

Categoria: Ceticismo,PoesiaSenhor_do_Servo @ 19:02

Por Reinaldo, do Brasilianas

“Se o Criador – o pai do Céu -, Deus, a grande Vida, o universo vivo e inteligente, o grande espírito do mundo, seja qual for o nome, esse que existe acreditemos nele ou não, onipresente, onisciente e onipotente…”

Por que eu destruiria esta retórica falaciosa? Pela ausência de meu pai? Ele viveu 86 anos, fez suas escolhas (a maioria delas com absoluto erro, um dos quais resultou em mim) e morreu, não em paz! Deste almoço (o de hoje) ele não participa e não participará de nenhum outro. Lamento? Não!

Seria um bom texto sem este placebo divino que alguns insistem em usar para justificar uma infinidade de escolhas (certas ou erradas) que resultaram no momento presente. Na qualidade (ou defeito) de filho poderia desconstruir este “almoço” em família, mas estou sem paciência com as fórmulas mirabolantes ou com as justificativas injustificáveis!

Somos resultado de um processo. Ponto! Meu pai foi apenas um animal que cumpriu o papel que lhe cabia na perpetuação (ou tentativa dela) da espécie. Eu repito a fórmula, bem ou mal e me fiz pai da mesma forma. Meus filhos? Não sei ainda, mas espero que façam da mesma forma e aprimorem o gênero humano. E, a despeito do que me queiram imputar aqui, apenas espero que o façam sem que se considerem animais melhores que os outros ou que, sob a ótica religiosa, considerem-se “sui generis”.

Meu pai foi homem de bem. Espero continuar sendo e que meus filhos o sejam!

O resto?

O resto é uma foto amarelada, uma lembrança que parece resistir ao tempo e uma saudade daquilo que não ousamos ter feito quando deveríamos, ou do que fizemos quando era preciso…

P.S. Este  texto é uma resposta a este outro AQUI.


mai 10 2010

Contigo, na distância

Categoria: PoesiaSenhor_do_Servo @ 20:46

Canto XXVI, do Purgatório de Dante

(…)

Assim me agrada teu pedido cortês

Não posso e não irei me esconder de ti.

(..)

Constrito vejo a loucura passada,

e vejo contente o dia que espero, adiante.

Agora vos peço, por aquele valor

que vos guia ao topo da escada,

que estejais cientes de minha dor!

E, após, ao fogo apurador se envia.


mai 09 2010

Maria de Todos Los Angeles

Categoria: PoesiaSenhor_do_Servo @ 19:55

durante a madrugada
vem varinhas de cedro
formam
o círculo
e ordenam

fadas
sedentas de
dentes afiados
perfuram e delicada pele das
pétalas sugam
o sangue
das flores

O amor é um fogo
e as negras sabem
o ar
e a terra
consomem o sol
espalham em
meus olhos
medonhos
católicos
o Medo
depois, depois
um beijo

e dragões fluorescentes
enroscam-se nos cabelos
vermelhos
compridos os laços
do tempo
se desetam diante dos olhos
atônitos das
enterradas
vivas…

quedou hidrofóbica
e do crânio da
morta ainda
cresciam cabelos flamígeros
a rua um beco
sem saída apenas
para o jardim
onde
Sierva Maria
brincava feitiços entre as
negras de todos los
Angeles

Carla Batista


abr 11 2010

Quando a gente cresce, perde o direito de chorar

Categoria: Biografia,Caipira,PoesiaSenhor_do_Servo @ 09:21

Homem em paz

Ás veiz o peito dói tanto o aparece uma sardade
tão grande, que a gente fica sem sabê o que fazê,
Pur que se véi, fica fei os ói dibuiá im água
Não é por causa disso que nada mais dói
o a alma se assussega, mas pelo contrário

Eu minino, sentava num toco, num murundum quarqué
E ouvia a gaitada gostosa do meu avô,
que já há muito é finado
E meu pai, ele mermo, hoje é véi
I sinto sardade do meu avô, i meu pai me faiz falta
E se nóis só tinha um cavalo, bão
hoje eu tenho já alguma coisa
Mais nada mi alivia o peso na alma
Pra módi que não deve sê as coisa
aquilo que nos há de fazê senti mió

Eu tô sozinho hoje, e mais sozinho me sinto
Se me arrudeia muita gente
Então Deus, se ocê realmente existe
Apenas me diga, por que quando a gente cresce
perde o direito de chorá
Se a dor ainda pode abraçá a gente, i apertá forte?


mar 28 2010

A poesia do improvável

Categoria: PoesiaSenhor_do_Servo @ 14:37

de Álvaro Riveros, do Jornal do Brasil


mar 14 2010

Ai, se Sêsse

Categoria: Cultura,PoesiaSenhor_do_Servo @ 14:19

Dica do Gilberto Marotta,  no Nassif

Ai, se Sêsse
de Zé da Luz

Se um dia nóis se gostasse,
se um dia nóis se queresse,
se nóis dois se empareasse,
se juntin nóis dois vivesse,
se juntin nóis dois morasse,
se juntim nóis dois drumisse,
se juntim nóis dois morresse,
se pro céu nóis assubisse,
mais porém acontecesse de
São Pedro não abrisse a porta do céu
e fosse te dizer qualqué tulice
e se eu me arriminasse e
tu com eu insistisse
prá eu me arresorvesse
e a minha faca puxasse
e o buxo do céu furasse
tarveis que nóis dois ficasse,
tarveis que nóis dois caísse,
e o céu furado arriasse
e as virge toda fugisse.

aqui, o ator Juca de Oliveira declama Ai, se Sêsse

Fonte: Programa Devaneio – Rádio Band News FM

Mais poesias de Zé da Luz, aqui.


mar 08 2010

Parabéns Você, Mulher

Ao lado de Dolores Ibárruri, alguns bravos bascosVocê  que mudou as regras do jogo… Que venceu os preconceitos… Que conquistou o seu espaço… Você  que fez coisas que ninguém  acreditava que voce seria capaz de fazer…

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Blog do Atheneu

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mar 08 2010

Quem fala por voce, Mulher?


O cinema brasileiro volta e meia nos conta histórias de mulheres e crianças sacrificadas pela pobreza e invisibilidade. O homem vai embora e a subsistência da família recai sobre os ombros da mulher. A angústia da incapacidade de prover toda a família pesa e corrói a alma. A leveza se acanha com os rastros do abandono. A arte nos aproxima do enredo de vidas confinadas na pobreza.

Numa sociedade em que o laço social fragiliza-se cada vez mais com a ausência da função paterna, as brasileiras se equilibram nas funções de mãe, filha e trabalhadora em tempo integral: em casa e fora dela. Muitas conseguem embelezar a vida com arte, livros, filmes, saberes, amores. E outras tantas, milhares, milhões, penam diariamente com a falta do feijão com arroz à mesa.

Vi no blog do jurista José Adércio uma notícia assustadora: a existência de projetos de lei (PL-3207/2008 e PL-5058/2005) que visam transformar o aborto provocado em crime hediondo! Um calafrio de pavor percorreu meu corpo e me dei conta de como fui tola quando julguei que não passaríamos de “cachorras”. Pensei: quem são as “assassinas”? As bandidas, bárbaras, Joanas, Marias?

Mulheres em um estado democrático que não efetiva seus direitos. Não cuidamos da saúde integral da mulher, não asseguramos o exercício do direito ao planejamento familiar, não priorizamos políticas de assistência e apoio às famílias – creches, pré-escolas, escolas em tempo integral. Nossas instituições falham na proteção ao menor, na educação e cultura, e a moradia permanece um direito abstrato.

Em outros tempos, as mulheres foram anjos. Na era vitoriana, “os anjos da casa” cuidaram do lar, dos filhos e do marido com devoção, sem desejo sexual. Sexo? Só para procriação. Prazer? Não era coisa de anjo. As esposas eram “espíritos etéreos desprovidos de necessidades sexuais e sensuais, menos fortes e mais ‘puras’ do que os homens” (Marilyn Yalom em A história da esposa, da Virgem Maria a Madonna). Mas as puritanas revelaram-se desejantes nos anos 1920. O sexo passou a ser “um fim em si mesmo” para o prazer, saúde, bem-estar e felicidade. A contracepção se fez necessária.

Margaret Sanger, enfermeira e escritora polêmica (500.000 livros nos anos 1920), fundou uma clínica no Brooklyn para distribuir contraceptivos e informações sobre prevenção. Liderou campanhas, publicou artigos, foi perseguida por detratores, presa, mas o juiz reconheceu a contracepção como meio de evitar doenças venéreas. Sanger prosseguiu na defesa do direito ao controle da natalidade e sua clínica acabou servindo de modelo para outras. Segundo Yalom, quando a organização Planned Parenthood foi fundada em 1942, “metade dos americanos concordou que o controle da natalidade contribuía para a felicidade conjugal”.

Livres para decidir sobre o número de filhos, as norte-americanas se inseriram no mercado de trabalho – um fator preponderante na conquista dos direitos civis e da liberdade sexual. A Marcha pelos Direitos Civis ocorreu no ano de 1963 e, no ano seguinte, o presidente Lyndon Johnson assinou a Lei de Direitos Civis, que proibiu a discriminação sexual no emprego. A Organização Nacional para Mulheres (NOW, na sigla em inglês) foi fundada em 1966 – Betty Friedan, autora de Mística feminina, foi sua primeira presidente –, apoiou a Emenda dos Direitos Iguais (ERA) e a legalização do aborto. A pílula se popularizou, mas, entre os anos 1920 e 1970, dezenas de milhares de americanas foram atendidas emergencialmente com complicações de abortamento. Em 1973, a Suprema Corte Americana, no caso Roe versus Wade, invalidou todas as leis que restringiam o aborto, vedando a ingerência do Estado na gestação.

Foi reconhecido o direito da mulher sobre seu corpo.

Os norte-americanos não consagraram os direitos reprodutivos e sexuais num lampejo de alumbramento. Não foi uma simples deliberação de gabinete que criou estas duas categorias de direitos, mas um processo de legitimação das mudanças na sexualidade, iniciadas nos anos 1920. Os casamentos, os relacionamentos, a vida de homens e mulheres se transformaram com o sexo separado da reprodução. Com a revolução sexual nos anos 1960/1970, mitos e tabus foram debatidos e a sexualidade se modificou, com o prazer desvinculado da culpa.

Com todas as transformações na sexualidade; com a política global dos direitos reprodutivos e sexuais (direitos humanos) que implica ações afirmativas dos Estados; com o reconhecimento do aborto inseguro como um problema de saúde pública (Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento – Cairo/1994); e com a recomendação de revisão de legislações que punem o aborto (IV Conferência Mundial sobre a Mulher – Beijing/1995), ainda assim cogitamos punir com mais severidade o aborto provocado, previsto no Código Penal de 1940, tornando-o crime hediondo!

A Lei de Crimes Hediondos, bastante criticada, ficaria com mais um crime para punir, sem ter sido eficaz na redução daqueles a que se propôs combater – pesquisa do Ilanud, a pedido do Ministério da Justiça, revela que não houve redução dos crimes definidos como hediondos (esta é uma questão de política criminal que merece ser observada). Há leis sem ressonância normativa com a realidade social. O sintomático chavão “esta lei não pega” demonstra que fazemos leis apartadas das nossas questões sociais.

No Brasil colônia, mulheres desesperadas ingeriam ervas tóxicas (prática ainda comum) e caíam de árvores para provocar abortos.

Atualmente, cerca de 1,44 milhão de abortos espontâneos e inseguros são praticados por ano no país, segundo o Ministério da Saúde.

O “aborto inseguro” é a 4ª causa de morte materna no Brasil. Estudos da Fiocruz constatam que “a tipificação do aborto como delito não desestimula a mulher de se submeter ao aborto”. E, de acordo com o número de internações no SUS para procedimentos cirúrgicos pós-abortamento, as mulheres pobres são as que mais sofrem com as complicações de abortamento inseguro.

Outra pesquisa desvela um universo desolador de mulheres e crianças vivendo em condições absurdas. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 1992-2008 (PNAD), realizada em 10 regiões metropolitanas, em 1992 74,7% dos chefes de família (pessoas com 15 anos ou mais) eram homens e 25,3%, mulheres. Em 2008, 58,8% eram homens e 41,2%, mulheres. O número de famílias chefiadas por mulheres na extrema pobreza também aumentou. Estudos revelam, nas favelas e periferias, o isolamento de mulheres que não podem sair de casa para trabalhar porque não têm com quem deixar os filhos pequenos nem sequer podem contar com o apoio de familiares.

A solidariedade? Circula alvissareira nas salas de cinema. Fora do enquadramento lírico da realidade, no entanto, o desamparo sangra. Precisamos escutar quem está fora do discurso. A pior pena é a clandestinidade perpétua.

Viviane Moreira do Blog do Atheneu

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