Chauke Estephan Filho, leitor do Estado Anarquista
Cara Wákila Mesquita, aqui me tem de regresso. Conforme o prometido, segue a minha resposta para você, que me brindou com a sua resposta ao meu primeiro comentário ao texto do analista internacional Reginaldo Nasser, intitulado “Será que Stalin tinha razão?”, texto este que você critica, porque o analista defende o Irã.
Na sua crítica ao meu comentário de apoio ao texto de Nasser, você diz:
“Chauke, então os fundamentalistas islâmicos que enfrentam os fundamentalistas judeus e evangélicos americanos agora se transformaram em lutadores em favor da liberdade. [?] E o que seriam os pacifistas israelenses e americanos e o povo iraniano (que nem sabemos se existe aqui em Carta Maior) ou todos no Irã defendem seu governo? O governo israelense, sempre que é contestado, nós sabemos, inclusive aqui neste portal [Carta Maior], pois a oposição de Israel tem espaço. O que quero saber é [:] onde está a “esquerda” iraniana? Onde estão as mulheres iranianas? e [E] o [os] gays [homoafetivos]? os [Os] pobres? não [Não][há] intelectuais no Irã?”
Em linha com a propaganda anti-iraniana ocidental, você diz querer a liberdade e a democracia para o Irã. Perceba o que a mídia fez com você, Wákila: talvez abusando da sua pouca idade, da ingenuidade própria de muitos adolescentes, ela emoldurou a sua cabeça, por efeito do monopólio da contrainformação, que fez de você simples repetidora de chavões já felizmente muitíssimo desmoralizados nesta altura da história.
Mas você parece não ter dado fé da manipulação midiática de que você mesma é vítima. Não acredite no que se ouve no Jornal Nacional, não creia no que se lê sobre política internacional na Folha de São Paulo e em outros jornalões da comunicação monopolizada, não leve a sério a “seriedade” da revista Veja, quando esta critica a falta de liberdade no Irã, quando fala do perigo que o Irã representa para a humanidade e de tudo o que deveria ser feito para conjurar esse perigo… Desconfie daqueles que se dizem prontos a defender a civilização e a vida, a liberdade e a democracia, por meio da ação militar dos Estados Unidos, de Israel, dos países da Europa reunidos na Otan… Faça uma leitura invertida de tudo que a caterva internacional apresenta como sua imagem, porque não passa de uma interface mentirosa de seus reais desígnios, que são de dominação mundial. Os dominadores não vão dizer que querem territórios, que querem petróleo, que querem terra e água, que querem o poder para reorganizar o mundo à sua imagem e semelhança. Não, nunca confessariam suas reais intenções, porque o diabo não desejaria outra coisa. A besta esconde-se sob a pele do cordeiro, Wákila.
Depois da II Guerra Mundial, o discurso racial que inferiorizava a humanidade do Sul mudou. O racismo, que servia aos interesses da dominação europeia, tornou-se contraproducente, porque não se pode mais dizer a verdade, não é conveniente para a bandidada europeia. O último a dizer o que pensava foi Hitler. Hoje, os conquistadores do planeta não assumem o que são, não manifestam explicitamente os seus interesses, que substituem por alegações humanitárias (Haiti) ou ideológicas (Iraque), ou “policiais” (Colômbia) etc. E que faz a mídia? Ela inunda o mundo de propaganda, naturaliza a grande mistificação ocidental, demoniza suas vítimas, multiplica a mentira a cada dia, escondendo a enormidade dos crimes de seus senhores ianques e judeus. Você sabia, Wákila, que o que fizeram com Faluja foi pior do que fizeram com Hiroshima? É claro que o Globo Repórter não vai exibir uma reportagem sobre o que se passou e se passa e vai continuar se passando (porque permanece a radiação a produzir monstruosos efeitos nas crianças) em Faluja. Será que o Iraque de Sadam Hussein, sem povo, sem esquerdistas, sem mulheres livres, sem homossexuais, sem o seu modelo ocidental de liberdade não era infinitamente melhor do que isso que hoje é o Iraque? Será, Wáquila, que você quer para o Irã a democracia e a liberdade que a besta loira George Bush levou para o Iraque? Será o Haiti um país mais livre do que o Irã? Lá no Haiti, onde existe povo, esquerdistas, homossexuais, mulheres “livres”… lá haverá mais liberdade, mais democracia, mais dignidade do que no Irã? Você quer para o Irã o tipo de pacifismo da Costa Rica? Talvez você tenha naturalizado a dominação europeia sobre nós, latino-americanos, afinal nascemos do ventre da besta europeia. Mas, felizmente, o Oriente Médio não é, como nós somos, o quintal dos dominadores germânicos, lá não medra tão facilmente um pé de banana. Se fosse, o Oriente Médio não teria sido jamais o que foi na história milenar de criação da civilização. Wákila, a guerra do bandido Bush, como a guerra do grande lacaio negro Obama, tudo isso atenta contra a herança desse patrimônio histórico extraeuropeu, que não pertence só a iranianos, só a iraquianos, só a muçulmanos, mas a toda a humanidade, já empobrecida com a guerra ianque de dominação mundial.
Eu concordo com você, Wáquila, eu também acho que uma mulher insatisfeita com o próprio marido tem todo o direito de buscar a sua felicidade com outro homem; penso igualmente, como você, que os homossexuais têm todo o direito de darem o bumbum quando bem entenderem. Contudo, essas são questões morais gerais, não são só problemas do Irã. O homossexual será livre no Brasil? Se o são, então por que não se podem casar? Será que eles não sofrem nenhuma repressão? Será que não são vítimas da violência? Será que o governo é o culpado por um preconceito sexual? Será que a cultura, ainda que conservadora, da maioria deva ser violentada para que prevaleça uma subcultura minoritária? Isso não criaria ainda mais problemas?
Na verdade, Wákila, esses perguntas são apenas retóricas. Para a nossa discussão, não importam tanto as respostas. O problema é outro. A questão é que a acusação de violação contra mulheres e homossexuais assacada contra o Irã visa apenas a difamar o país, demonizá-lo, enfraquecê-lo moralmente, numa espécie de tribunal internacional da mídia, onde o governo iraniano seria o réu. Ora, quem poderia ser o juiz a julgar a humanidade? Que magistrado europeu pode julgar o Irã? Com que autoridade? Um membro da Otan pode ditar normas morais para o resto do mundo? Pense, Wáquila: haveria alguma coisa mais imoral, mais indecente, mais desumana, mais covarde, mais bestial, mais perigosa, mais agressiva, mais intolerável do que seria a guerra de judeus e ianques contra o Irã? Hitler pelo menos tinha a coragem de atacar os mais fortes!
Os costumes iranianos devem ser levados para mais próximo dos instintos humanos por meio do canhão? A via do diálogo não seria mais producente? A integração cultural, as trocas econômicas, o estabelecimento da confiança recíproca não serviriam melhor ao propósito de promoção dos direitos? Os homossexuais teriam algo a ganhar, colocando-se como quinta-coluna dos Estados Unidos, no Irã, quando este país está sob ameaça dos gringos? Tudo não passa, perceba, de operação psicológica de guerra.
Você pergunta: onde está a esquerda iraniana? Ora, Filhinha, eu responda à sua pergunta com outra pergunta: onde está a esquerda mundial? Felizmente árabes, iranianos, muçulmanos e outros bravos lutadores fora da Europa não precisam da “esquerda” para lutar contra o imperialismo uma luta vitoriosa, milagrosamente vitoriosa, gloriosamente vitoriosa. Quem luta contra o monstro imperialista enlouquecido não é a esquerda, não é o socialista, não é o ateu, não é o proletariado em particular. Luta o muçulmano, luta o burguês, o próprio capitalista muçulmano violentado de todas as formas pela agressão de judeus e ianques. A esquerda já festejou Tony Blair, o totó engraçadinho de Bush, como o seu herói. Que esperar dessa esquerda? Do proletariado europeu mais realista seria esperar o racismo do que a solidariedade internacionalista. A categorização dicotômica esquerdo-direita terá ainda valor? Entre nós mesmos ela parece confusa hoje, o que se dirá, pois, em outros contextos civilizacionais, como o do Oriente Médio? Um camicase palestino é de direita ou esquerda? Felizmente os iraquianos não precisam de padrinhos europeus de “esquerda”. De mais, uma esquerda que no Irã apoiasse os Estados Unidos seria mesmo de esquerda? Por outro lado, a inexpressividade da esquerda iraniana talvez resulte do fato de no Irã faltar a base social em que se assenta a esquerda, ao menos no Brasil de hoje: ribeirinhos, índios, quilombolas… Aliás, nem o próprio Marx, um cantor do dinamismo econômico capitalista, haveria de se entusiasmar por uma “vanguarda” desse tipo.
Você diz que em Israel a oposição tem espaço. Na verdade, ninguém em Israel tem espaço. Todo o espaço de Israel não pertence a Israel, tudo é território palestino ocupado, solo encharcado de sangue palestino. Você chama os pacifistas de oposição. Ora, que “oposição” mais inócua essa! O problema com os judeus do bem é que conservam ligações perigosas com os judeus sionistas. Os judeus bonzinhos pregam a tolerância para com os palestinos. Não lhe parece algo estranho, Wáquila, o violador pregar a tolerância ante o violado, na terra usurpada deste? Também a recíproca não seria uma proposição estranha? Daqui a vinte anos, talvez um judeu bonzinho vá estar pregando a tolerância da parte de invasores sionistas para com iranianos… no Irã! Esse tipo de oposição “bondosa”, Wáquila, serve mais de propaganda a Israel, e propaganda muito eficaz, a julgar pelo fato de você aceitar toda essa patranha. A oposição a Israel quem faz são os palestinos, e estes não têm espaço, a não ser nos campos de concentração e tortura de Israel, minha cara.
Nós, inimigos dos possessores germânicos da Europa e de suas extensões extracontinentais, que em suas mãos ainda têm o mundo, estamos em guerra contra os Estados Unidos e seus aliados e lacaios. Logicamente nenhum país vai abrir a luta contra o Império de forma oficial, exarando uma declaração de guerra. Seria suicídio. Por isso, convém que os governos pareçam manter relações normais, cobrindo a guerra em andamento pelo formalismo diplomático. Assim as aparências são preservadas, e nelas muitos acreditam, crendo até que os agressores sejam as vítimas e as vítimas os agressores, como é o seu caso, Wáquila. Mas, já dizia o velho Marx: “Se a aparência fosse a essência, para que fazer ciência?” Pois, então, Wáquila, não se fie nas aparências! A guerra que travamos não pode ser convencional. Ninguém ganharia com a destruição do planeta. Daí vem uma das razões da guerra assimétrica. Veja o caso do Paquistão. Oficialmente o governo é um aliado dos imperialistas, mas abaixo dessa superfície ferve a resistência à política brutal do Império. Não interessa ao Paquistão declarar guerra. Mas os paquistaneses, muitos deles pertencentes à etnia dominante no Afeganistão, não se submetem ao dominador anglo-saxônio. Essa guerra imperial, tão estúpida, tão bárbara, de dimensão, importância e implicação quamanhas, não se faz sem o envolvimento de regiões aparentemente tão distantes, geograficamente, dos países diretamente conflagrados. Porque, afinal, Wáquila, está-se tratando do poder sobre o mundo, que a Europa quer mantém como seu, desde há quinhentos anos.
De que valeria a alternância do poder no âmbito interno de cada país, quando sobre todos os países pesa um só e imutável poder? Uma democracia que comporte a ditadura anglo-saxônia internacional, aqui ou no Irã, seria de fato uma democracia? A democracia útil aos interesses do imperialismo agressor não seria apenas a fórmula política de seus aliados e lacaios, fachada democrática da ditadura mundial ianque? Se Israel, se os Estados Unidos, se a nojenta Europa querem a democracia, então por que estrangulam Gaza, onde o Hamas recebeu das urnas o poder? Por que não respeitaram o voto palestino? Agora, Wáquila, responda a minha última pergunta para você: que mais importa: votar, ou vencer?
O povo iraniano está onde sempre esteve: na posição de glória histórica de quem se alça a altos cometimentos e está pronto para mostrar ao mundo o quanto vale, na paz ou na guerra.