nov 07 2009

Contra o Sionismo

Categoria: CulturaSenhor_do_Servo @ 11:02

por Bouthaina Shaaban*, Counterpunch pelo Viomundo

Quando se leem jornais que noticiam que “a ONU exige que Israel pare de demolir residências de palestinos e ponha fim à política de despejos forçados em Jerusalém Leste, denunciando que há 60 mil palestinos ameaçados de perderem suas casas”, é praticamente impossível não pensar sobre o papel da ONU hoje e o objetivo para o qual foi constituída, imediatamente depois da vitória dos exércitos da liberdade, em luta contra o nazismo e o fascismo; e sobre se essa seria a mesma organização autorizada pela história e pelos povos do mundo para garantir a todos o direito a ‘autodeterminação’.

Será a mesma organização encarregada de “por fim ao colonialismo”?

Será a mesma organização que crê no direito de todos os povos à liberdade, sem qualquer discriminação por raça ou fé religiosa?

Se é a mesma, por que ainda há tantos palestinos, há tanto tempo, expostos à brutalidade de colonos terroristas judeus armados?

A fala evasiva e vergonhosa das ‘conclamações’ da ONU sobrevive no mesmo contexto de submissão do Conselho de Segurança aos projetos dos sionistas e, consequentemente, se compromete na prática da mesma desgraça histórica, cada vez que ignora os legítimos direitos humanos, civis e políticos dos palestinos, entre os quais o direito à vida e à liberdade. A evidência de que a ONU não toma qualquer iniciativa efetiva para garantir ao povo palestino o direito à autodeterminação é e continuará a ser uma mácula que não será jamais apagada na história da Organização.

Há 60 anos os palestinos lutam contra uma forma racista de colonialismo, o sionismo das campanhas de limpeza étnica e das gangues de colonos-fundamentalistas judeus armados, apoiados pela polícia e pelo exército de Israel.  Nada há de semelhante a isso no século 21, senão na Palestina ocupada por Israel.

Os crimes desses fanáticos sionistas armados incluem o bloqueio econômico, assassinatos, envenenamento de alimentos, negação de comida e remédios, seqüestros, demolição de casas habitadas, roubo de colheitas, destruição de granjas, violação de prisioneiros, tráfico de órgãos humanos extraídos de prisioneiros e violações repetidas do direito dos palestinos de ir e vir entre suas vilas, suas casas, suas granjas e suas escolas.

Tudo isso acontece sob os olhos e o silêncio cúmplices do mundo ‘civilizado’ que apóia o governo israelense e finge não ver os crimes escandalosos que soldados israelenses e colonos judeus armados e cometem diariamente na Palestina ocupada. Esse silêncio também é crime contra o povo palestino, porque ‘autoriza’ políticos e generais israelenses e seus aliados a reincidir na prática dos mesmos crimes contra civis – que são violação flagrante e repetida das convenções de Genebra e das leis humanitárias internacionais.

O ‘pedido’ da ONU para que Israel “detenha a remoção [de fato, a demolição] de casas de palestinos” veio, dessa vez, depois da demolição das casas das famílias Hanoun e Ghawi nos arredores de al-Jarrah em Jerusalém; depois, também, da demolição da tenda que haviam erguido na rua, em frente à casa; e de terem sido confiscados todos os objetos postos sob a tenda – cobertores para proteger as crianças contra o frio e panelas. A tenda abrigava 50 pessoas das duas famílias que, até há alguns meses, habitavam as casas que os soldados da ocupação israelense demoliram, na política chamada de “Judaicização de Jerusalém”.

Vez ou outra, a ONU ou a União Europeia lembram-se de ‘declarar’ que “destruir casas de palestinos configura crime de desrespeito à lei internacional”.  Mas, se são crimes contra a lei internacional… por que se repetem diariamente, há anos? E, sobretudo: por que essas organizações internacionais nada fazem para proteger a segurança e os direitos dos palestinos?

A questão é: o que a ONU e a União Europeia farão?

Continuarão, como até hoje, satisfeitas com apenas ‘anotar’ e ‘lamentar’ os crimes das gangues de terroristas judeus colonos israelenses fundamentalistas e armados – que praticamente de hora em hora desrespeitam a Carta da ONU e todas as leis humanitárias e continuam a assassinar, incendiar e demolir casas e roubar tendas em Jerusalém, Nablus, Hebron e outros locais, sem que nenhuma ONU, União Europeia ou seja quem for consiga prendê-los, julgá-los e condená-los? Porque, de fato, não são ‘colonos’: são bandidos (por acaso, judeus).

Se esses crimes cometidos diretamente contra palestinos não são limpeza étnica e genocídio, o que falta acontecer?

Nos EUA, colonos brancos recém-chegados, há alguns séculos, jogavam mantas e lençóis contaminados sobre os índios, para matá-los. Hoje, o governo de Israel sonega comida e remédios aos palestinos, queima plantações, envenena a água, também para matar palestinos ou forçá-los a partir. A ONU define essas práticas como “evicção forçada”. Como se houvesse evicção voluntária?!

Depois de todos os crimes cometidos pelas forças da ocupação israelense e gangues de bandidos armados que vivem nas colônias exclusivas para judeus, a ONU “conclama Israel a suspender a demolição de casas”. Pior, só se acrescentassem “Por favor…”

Os civis palestinos precisam urgentemente de uma investigação dos crimes cometidos por Israel, para que sejam denunciados a organização internacional que ainda se preocupe com – ou, no mínimo, tenha algum interesse em preservar – a própria credibilidade.

Os crimes cometidos pelas forças israelenses de ocupação, o aterrorizamento de civis palestinos desarmados por colonos judeus israelenses armados são vergonha para toda a humanidade e não podem ser tolerados.  Os atos desses colonos e das autoridades israelenses que lhes dão cobertura e financiamento devolvem todo o mundo civilizado à lei da selva.

Quanto à escandalosa evidência de que a ONU é impotente e à também escandalosa evidência de que o presidente Obama já se declarou comprometido com preservar “a segurança de Israel”, ainda no 14º aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin por um colono judeu terrorista fundamentalista – além do fato de que, na mesma ocasião, o presidente Obama não fez qualquer declaração de comprometimento com preservar também a segurança de civis palestinos –, são sinais bem claros de que os povos livres do mundo não podem omitir-se.

Cabe aos povos do mundo, a todos os intelectuais livres – também, evidentemente, aos intelectuais judeus – erguer suas vozes contra os israelenses criminosos de guerra, para que não pese também sobre os judeus, como uma vez pesou sobre os europeus alemães, a vergonha de cometer crimes de guerra e genocídios. Nenhum silêncio cúmplice é permitido sobre nenhum crime de guerra e nenhum genocídio. Não basta, evidentemente, impedir que os israelenses acusados de crimes de guerra deixem Israel. É indispensável que sejam julgados pelos mesmos critérios pelos quais outros criminosos acusados de genocídio e responsáveis por massacres e ocupações brutais já foram julgados e condenados antes desses.

Por que os intelectuais judeus recusam-se a encarar esse dilema histórico e moral que contamina a entidade sionista?

Quando os nazistas alemães massacraram judeus, ciganos e outros povos, os alemães encararam o dilema moral e aprovaram leis que tornaram ilegal o antissemitismo. Quando o mundo sofreu sob as ambições dos japoneses, o Japão tomou decisão histórica radical contra todas as guerras.

Por que os intelectuais judeus supõem que poderia haver alguma justificativa para as atrocidades e as ilegalidades cometidas diariamente pelos políticos e generais israelenses?

Como se justifica que Ehud Olmert seja processado por crimes de corrupção financeira e não seja sequer acusado da prática de crimes de guerra no Líbano e na Palestina?

Por que há quem considere heróis esses corruptos e criminosos de guerra?

Por que há quem lhes garanta uma segurança que ninguém cuida de garantir às vítimas deles?

Por que não se denunciam como criminosos os autores de massacres contra civis palestinos?

Por todos os critérios que se possam usar, todos esses governantes e generais da entidade sionista cometeram crimes de guerra. Por que não são criticados, para começar, dentro da própria cultura?

Terão os judeus, depois da invenção de Israel, perdido a capacidade moral de indignar-se contra generais cujas mãos continuem manchadas com o sangue de tantos inocentes?

Todos os intelectuais judeus que se calem são responsáveis pelos crimes passados e, também, pelos outros crimes que continuem a ser cometidos pelos sionistas israelenses. Vergonha eterna caia sobre todos os que se calem hoje.

A ONU e a União Europeia, e todos que se escondam por trás de palavras ambíguas ao descrever os crimes que Israel cometeu e continua a cometer, crimes que deveriam já ter despertado a indignação de todos os povos livres, partilham idêntica responsabilidade.  A história condenará os que se calem, os que se omitam, e saberá relembrar com respeito todos os que defendam os palestinos, o direito que todos os palestinos temos de viver vida digna em terra que é nossa, em liberdade, com segurança e sob a proteção de nosso Estado nacional independente.

* Bouthaina Shaaban é conselheira política e de comunicações da presidência da Síria e ex-ministra dos Expatriados. É escritora e professora na Universidade de Damasco desde 1985. Foi porta-voz oficial do governo sírio e indicada para o prêmio Nobel em 2005.

Texto traduzido pelo coletivo Política para Todos

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