De Ely Vieira, do excelente Bule Voador:
No caso tão comentado da garota que foi expulsa da Uniban por usar uma saia curta, pouco ou nada foi falado sobre a escolha de xingamento que usaram contra ela naquela manifestação da síndrome do rebanho histérico.
A estudante, chamada Geysi Arruda, foi chamada de prostituta. O uso do sinônimo de baixo calão demonstrou que aqueles estudantes pensam que ser prostituta é um grande demérito para um ser humano. Com que bases acreditam nisso?
Parecem bases frouxas, que conhecemos muito bem: tradições discriminatórias engolidas pelas novas gerações acriticamente, à moda do típico “é porque é”.
Por que motivo, afinal de contas, exercer a prostituição é indigno? Nossa cultura vende coisas íntimas como massagens, seções de análise psicológica, tratamentos médicos invasivos e até drogas lúdicas que degeneram o sistema nervoso. Por que não poderia vender sexo seguro oferecido voluntariosamente por adultos e para adultos?
Os estudantes da Uniban que hostilizaram Geysi atribuindo a ela uma profissão que ela não exerce (“puta”) não vão conseguir dar uma resposta satisfatória para essa pergunta. Assim como os fundamentalistas da idade média não teriam uma boa resposta para o motivo por trás de queimar bruxas, nem os fundamentalistas da atualidade, em lugares como a Arábia Saudita, teriam uma boa justificação para o enforcamento de homossexuais (que segue a lei da Sharia tão criticada por Maryam Namazie).
E não é exagero comparar o episódio da Uniban com a Inquisição e com a arbitrariedade dos sauditas. Aposto com vocês que a respostas desses três tipos para as três atitudes seria algo como “porque isso (mostrar o corpo/fazer bruxaria/amar pessoas do mesmo sexo) é errado. Por que é errado? Ora, porque é errado!” Até um cãozinho, perseguindo o próprio rabo, seria mais eloquente que eles.
Buscando na internet algum texto que defendesse o respeito às prostitutas, achei vários dizendo que as prostitutas devem ser respeitadas porque, coitadinhas, não têm opção, e nem “orientação” religiosa adequada. Isso não é forma de defender a dignidade das prostitutas.
Com uma defesa dessas, quem precisa de inimigos?
Comecemos pela alegação de falta de orientação religiosa: que diabos a religião fez de bom para promover o respeito pelas prostitutas como prostitutas que são? Os cristãos lembram logo da passagem em que Jesus evita o apedrejamento de uma prostituta (supostamente Maria Madalena, mas a identidade da profissional do sexo é incerta), incitando quem não tivesse pecado a atirar a primeira pedra. Há dois problemas com essa passagem do evangelho: primeiro, o episódio nunca aconteceu, como qualquer estudioso dos manuscritos bíblicos antigos sabe. Bart Ehrman, um desses estudiosos, conta em seu livro “O que Jesus disse? O que Jesus não disse?” que a anedota começou quando um escriba, copista ou tradutor acrescentou a história no pergaminho bíblico como alguém que faz notas ou comentários a lápis num livro que está lendo, e um copista posterior simplesmente inseriu o acréscimo ao corpo do texto do evangelho.
Segundo problema: a história do “atire a primeira pedra” não defende a prostituta. Como é típico de outras passagens da Bíblia, o que Jesus está fazendo ali é dizer que nenhuma pessoa é digna, todo mundo tem “pecado”, todo mundo merece reprovação, por isso a escória da escória – no caso, a prostituta – não merece mais reprovação que os outros. Isso tanto é verdade que os escritores da Bíblia fazem questão de colocar Jesus também no meio dos leprosos.
A prostituição, na Bíblia, é uma forma de lepra – Jesus era bonzinho porque dava bola para os decrépitos. Para qualquer cristão que queria me contestar, tenho mais uma coisa para amparar a minha afirmação de que o Cristianismo vilipendia a dignidade humana: para quê fazer batismo? Por acaso a criança nasce suja e condenada? Até hoje a questão das crianças que morreram sem a aguinha inútil na cabeça assombra os teólogos. Mas não assombra menos que os muitos outros absurdos da Bíblia. A solução é simples: sejam racionais e parem de dizer que a Bíblia eleva o espírito humano, parem de se amarrar a um livro obsoleto à maneira que os terroristas se amarram a bombas. Os teólogos muito teriam a ganhar se tivessem com suas mentes a liberdade que as prostitutas têm com os corpos delas.
Agora, tratemos da outra alegação, de que todas as prostitutas só estão na profissão por falta de recurso. Não basta falar da Bruna Surfistinha, que fez sucesso com o livro “O doce veneno do escorpião” há alguns anos, relatando como entrou na profissão por livre e espontânea vontade. Há um caso mais nobre que este, e é da socióloga e ex-prostituta Gabriela Leite, autora do livro “Filha, Mãe, Avó e Puta”, lançado este ano pela Objetiva.
Gabriela passou em segundo lugar no vestibular da USP para o curso de Filosofia, na década de 70. Com 22 anos decidiu, fazendo pleno exercício de seus direitos de expressão e identidade (à época não reconhecidos pela ditadura), vender sexo para sua clientela. Gabriela Leite, hoje, é o nome principal por trás da ONG Davida e da grife Daspu. Ela é a prova viva de que não há nada de intrinsecamente errado em exercer a prostituição, assim como não há em exercer a profissão de office-boy ou de senador.
O que poderia haver de errado com a prostituição é a mesma coisa que pode haver de errado em qualquer outra profissão. Alcione Araújo, falando do trabalho de Gabriela Leite no artigo abaixo, aponta de forma muito eloquente que problema é esse relembrando o caso Daslu versus Daspu. É uma ótima história: leia-a aqui.























































novembro 14th, 2009 at 11:50
Olá, só peço que você dê os créditos do texto.
O autor é o Eli Vieira, Presidente da Liga Humanista Secular do Brasil e o texto pertence ao blog Bule Voador.
Abraços
Cristiano.
novembro 14th, 2009 at 12:25
É verdade, é que acabei de postá-lo! Até adicionei-os no Twitter!